Prorrogar cessar-fogo era a menos grave das opções para Trump

 

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Donald Trump anunciou que pretende prorrogar o cessar-fogo até ter uma resposta do regime iraniano às demandas norte-americanas. Esta era a melhor alternativa para o presidente dos EUA, embora provavelmente o Irã não aceite as exigências. Na minha newsletter de ontem, ao escrever sobre as opções do líder norte-americano, afirmei que “as negociações com o regime de Teerã devem ser mantidas ainda que os avanços sejam pequenos. Neste caso, o cessar-fogo deve ser prorrogado enquanto as conversações prosseguirem. Desta forma, os dois lados talvez consigam encontrar um denominador comum para as suas disputas”.

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Islamabad – Para deixar claro, sequer ocorreram negociações com o Irã. O regime decidiu não enviar uma delegação para Islamabad, onde haveria um encontro com autoridades norte-americanas lideradas pelo vice-presidente J.D. Vance. Até pode ser que hoje ou amanhã Teerã concorde com mais uma rodada de diálogo nos próximos dias, mas esta decisão não havia sido tomada quando escrevi este texto. Portanto, a prorrogação ocorreu não porque houve avanço, como eu imaginava, e sim na esperança de que haja algum.

Empurrar com a barriga – Apesar de ser a melhor opção neste momento, na prática o que Trump fez foi empurrar com a barriga uma decisão inevitável que precisará tomar em breve: fazer concessões nas negociações ou escalar o conflito militarmente. O presidente ainda acredita haver um meio termo, que seria a capitulação iraniana. Sua estratégia seria seguir com o bloqueio aos portos iranianos para tentar forçar o regime a ceder.

Bloqueio – Esta estratégia de Trump faz sentido, mas não há nenhum sinal de capitulação iraniana. Caso o bloqueio prossiga, o Irã teria duas opções. A primeira seria não fazer nada e ver quem aguenta mais tempo – o próprio regime, sem poder usar seus portos, ou os EUA, com o impacto econômico mundial do fechamento do Estreito de Ormuz. Quem resistir talvez consiga forçar o adversário a fazer concessões.

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Divisão em Teerã – O regime iraniano não está dividido, mas há duas visões distintas. A primeira, mais pragmática, seria a de Mohammad Ghalibaf, presidente do Parlamento, que estaria disposto a negociar com os norte-americanos e buscar um denominador comum, ainda que seja difícil. Já Ahmed Vahidi, comandante da Guarda Revolucionária e acusado de ser o arquiteto do atentado terrorista contra a Amia (uma entidade judaica em Buenos Aires) em 1994, vê um diálogo com os EUA em meio ao bloqueio dos portos iranianos como uma capitulação.

Armadilha da escalada – Como afirma o cientista político Robert Pape, da Universidade de Chicago, há a chamada “armadilha da escalada” e será difícil Donald Trump conseguir escapar. Um acordo neste momento teria o benefício de acabar com a guerra, mas muito provavelmente implicaria aceitar o Irã como uma potência regional com controle do Estreito de Ormuz. Diante deste cenário, talvez Trump acabe escalando mesmo se houver colapso nas negociações.

Exemplo ucraniano e palestino – É comum acharmos que todos os conflitos podem acabar de uma forma positiva. Mas raramente isso acontece. Basta ver as duas grandes guerras desta década. A da Ucrânia já dura mais de quatro anos e ainda não há sequer perspectiva para um cessar-fogo. Todas as iniciativas de negociação fracassaram. Já em Gaza houve um cessar-fogo depois de dois anos de conflito e mais de 70 mil palestinos mortos. Ainda assim, o resultado segue terrível, com Israel ocupando 58% do território que foi completamente destruído. O restante segue nas mãos do Hamas.

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Perdedores – A guerra no Irã dificilmente terminará com todos vivendo felizes para sempre. Os opositores iranianos, por exemplo, já saíram perdedores, porque o regime se tornou ainda mais radical e o momentum para protestos passou, ao menos por enquanto. O próprio regime dificilmente terá uma vitória total e precisará lidar com a reconstrução mesmo no caso do fim do conflito. Os EUA, por sua vez, terão de lidar com o enorme impacto econômico e geopolítico da guerra. Mesmo assim, insisto, a prorrogação do cessar-fogo, nesta terça-feira, 21 de abril, foi a menos grave de todas as alternativas disponíveis.

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