Propina, pistolagem e STF: como a disputa por R$ 778 mil atingiu entornos de Brandão e Dino no Maranhão - QTU Questões do Universo

Propina, pistolagem e STF: como a disputa por R$ 778 mil atingiu entornos de Brandão e Dino no Maranhão

Fonte: Bandeira da fonte

Uma disputa por R$ 778 mil em propina, que envolveu figuras ligadas a pistolagem e culminou no assassinato de um assessor político no Maranhão, atingiu os entornos de Flávio Dino - ex-governador do estado a atual ministro Supremo Tribunal Federal (STF) - do atual chefe do Executivo estadual, Carlos Brandão.

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O caso ganhou repercussão em meio à campanha eleitoral e envolve João Bosco Sobrinho e Gilbson Cutrim Jr., dois homens com histórico ligado à pistolagem, e alcança aliados de Brandão e de Felipe Camarão (PT), ex-secretário de Educação e hoje candidato ao governo estadual.
Bosco foi morto por Gilbson na entrada do edifício Tech Office, em São Luís, em agosto de 2022.
Segundo a investigação da Polícia Civil do Maranhão, obtida pelo GLOBO, a desavença teve origem em uma suposta propina relacionada a R$ 778 mil que o governo estadual devia a uma empresa prestadora de serviços à Secretaria de Educação.
A dívida havia sido reconhecida em 2019 por Camarão, então secretário, mas só foi paga em 2022, depois que Brandão remanejou recursos do orçamento estadual.
Naquele momento, os dois disputavam juntos a eleição: Brandão concorria ao governo, com Camarão como vice, enquanto Dino era candidato ao Senado.
Dino assumiu uma cadeira no STF em 2024 e posteriormente rompeu com Brandão.
Dez dias após o assassinato, Gilbson contou à polícia que havia acertado com o dono da empresa que receberia 30% do valor caso conseguisse liberar o pagamento.
Segundo ele, a operação contou com a "influência política" de um vereador de São Luís.
O dinheiro foi liberado em 10 de agosto de 2022, um dia após um decreto de Brandão disponibilizar os recursos.
A ordem de pagamento foi emitida pelo então secretário adjunto de Educação Delmar Moreira Matias Jr., aliado de Camarão.
Gilbson afirmou que, depois disso, passou a ser ameaçado por Bosco, que seria preposto do vereador e cobrava uma parcela do dinheiro.
Delmar negou ter recebido qualquer "pedido fora do trâmite regular previsto na legislação".
Brandão, por sua vez, afirmou que o remanejamento orçamentário ocorreu "de forma ampla", sem beneficiar empresa específica, e atribuiu à Secretaria de Educação a responsabilidade pelo pagamento.
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No dia 19 de agosto de 2022, Gilbson recebeu um telefonema de um "amigo em comum" alertando que Bosco estava "totalmente desequilibrado" e que ele corria perigo.
O interlocutor sugeriu um encontro no restaurante Tapioca da Ilha, no térreo do edifício Tech Office.
Gilbson inicialmente não revelou quem havia feito a ligação.
A Polícia Civil, porém, apontou, com base em testemunhos e câmeras de segurança, que o telefonema partiu de Daniel Brandão, sobrinho do governador.
Segundo o depoimento, Daniel estava no restaurante quando Gilbson chegou.
Durante a conversa, Bosco teria ameaçado Gilbson por causa do dinheiro: "esse vagabundo não paga nem se eu meter a pistola na boca dele".
Daniel deixou o local.
Gilbson também tentou ir embora, mas afirmou ter sido seguido por Bosco até a entrada do edifício.
Disse à polícia que estava armado por temer uma abordagem e que atirou após Bosco ameaçar também seu filho.
A vítima foi atingida por três disparos, um deles na cabeça, e morreu no local.
Bosco ocupava desde 2021 um cargo de assessor na Secretaria de Educação, para o qual havia sido nomeado durante a gestão de Camarão.
Antes disso, já havia sido denunciado por homicídio no Piauí — caso em que acabou absolvido — e acusado de coagir o então prefeito de São Luís, Edivaldo Holanda Jr., durante a cobrança de um contrato municipal.
Gilbson também acumulava antecedentes.
Em 2023, foi preso após um assalto a uma agência bancária.
Pelo assassinato de Bosco, recebeu inicialmente pena de 13 anos de prisão, posteriormente reduzida para nove anos em regime semiaberto.
De São Luís ao STF
O homicídio chegou ao STF depois que a defesa de Gilbson alegou que ele teria sofrido pressões para omitir a presença de Daniel Brandão no local do crime e apontou supostas irregularidades envolvendo a tramitação do caso no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Dino assumiu a relatoria e determinou o afastamento de Daniel da presidência do Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA).
O ministro apontou indícios de que a nomeação do sobrinho do governador para o posto poderia ter servido para dificultar investigações.
A decisão transformou o assassinato de 2022 em mais um capítulo da atual disputa política do Maranhão.
Após o afastamento, Brandão lembrou declarações de apoio de Dino a Camarão e questionou o fato de o ministro continuar responsável por decisões com impacto sobre o cenário eleitoral do estado.
Camarão afirmou ao GLOBO que Bosco foi nomeado de acordo com os requisitos legais e ressaltou que o pagamento dos R$ 778 mil não ocorreu durante sua gestão na Secretaria de Educação.
Daniel Brandão negou ter participado "direta ou indiretamente, de qualquer negociação" relacionada ao pagamento.
Embora reconheça que estava no local no dia do homicídio, afirmou que depoimentos reunidos no processo indicam que não teve participação na disputa entre Bosco e Gilbson.
Disse ainda que sempre esteve à disposição das autoridades e classificou como "estranha" a divulgação de detalhes do caso durante o período eleitoral.
Procurada, a defesa de Gilbson não retornou os contatos do GLOBO.