A lenta deterioração da liquidez do Banco de Brasília (BRB) em meio à crise provocada pelas operações com o Banco Master pode diminuir o tamanho do problema do ponto de vista do Banco Central e do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) em caso de uma eventual liquidação, avaliam interlocutores envolvidos nas discussões.
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A lógica dessa leitura é que, a cada dia que passa, a liquidez do BRB vai diminuindo com a retirada de dinheiro (ou menor disposição de aportes) de correntistas e investidores devido à perda de credibilidade e ao temor que o pior aconteça.
O alongamento desse quadro vai levando a uma diminuição do "passivo", ou seja, dos compromissos que o banco tem a quitar com as pessoas, embora também signifique que ele tem menos condição de sobreviver.
A conta-gotas, se nenhuma solução for encontrada pelo DF, pode chegar um momento em que o BRB fique sem dinheiro para pagar os compromissos imediatos, levando à liquidação da instituição.
Mas como menos recursos estão entrando, além dos que já saíram, a exposição do BRB ao FGC vem diminuindo.
Já foram alguns bilhões em resgate.
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O fundo cobre investimentos em renda fixa e depósitos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira, com teto de R$ 1 milhão a cada quatro anos.
Por outro lado, outros credores maiores, como o próprio GDF, que mantém recursos na instituição, podem ter problemas sérios.
'Redução de danos'
O mesmo raciocínio de “redução de danos” vale para a chance de transbordamento do impacto de uma eventual liquidação para o restante do sistema financeiro (risco sistêmico), preocupação primordial do BC ao tratar de instituições em crise.
A redução da liquidez, na prática, diminui ainda mais o porte do banco.
Desse modo, o risco sistêmico, que já era considerado baixo, fica ainda menor.
Isso não altera, porém, o baque significativo que pode ser sentido sobre os serviços e a população do Distrito Federal, caso haja interrupção abrupta do funcionamento do BRB.
Ontem, foi aprovado em assembleia da instituição, a responsabilização civil de ex-dirigentes pelo prejuízo causado.
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A crise da instituição estatal se arrasta desde novembro de 2025, quando vieram a público as suspeitas de transações fraudulentas com o Banco Master, já liquidado pelo BC, e permanece sem uma solução à vista.
Os ativos herdados do Master, em troca das carteiras de crédito consideradas fraudulentas, devem deixar um prejuízo de ao menos R$ 8,8 bilhões no balanço do BRB, segundo estimativas informadas no início do ano pelo próprio banco.
Sem dinheiro em caixa, o controlador, o governo do Distrito Federal, vem tentando pegar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao FGC para capitalizar o banco e fechar o buraco, mas enfrenta dificuldades.
A governadora Celina Leão (PP) já recorreu até ao Tribunal Federal (STF), que intermediou um acordo com a União para tentar viabilizar o empréstimo.
Mas, além da resistência dos bancos, que dariam fiança à operação, a própria operação junto ao FGC é considerada atípica, como mostrou o GLOBO, é vista com ressalvas no Fundo.
Privatização é alternativa
Criado para proteger correntistas e investidores em caso de liquidação de bancos, o FGC pode dar empréstimos a instituições em crise, mas essa opção é normalmente usada para fazer uma ponte temporária de liquidez até uma venda ou então para uma saída organizada do mercado.
A privatização do banco distrital é vista por uma série de especialistas e por parte das autoridades como a alternativa que faria mais sentido.
A lógica seria separar o prejuízo do banco para o GDF, responsável em última instância pelas ações que geraram rombo na instituição, e deixar a parte boa do BRB para ser adquirida por uma instituição privada.
No entanto, a governadora resiste à privatização do BRB devido ao entendimento de que seria negativo para a sua campanha ao Palácio do Buriti.
Ela era vice do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e assumiu o cargo em março deste ano.
Vender a parcela boa do BRB (“good bank”), na visão de alguns envolvidos nas discussões, seria a melhor opção para a instituição estatal, porque não afetaria nenhum cliente do banco nem os serviços prestados para a população do DF.
O BRB tem boa carteira de agropecuária e habitação e contas de alto poder aquisitivo dos servidores ativos e inativos do DF.
Essa saída foi usada na crise bancária da década de 90, tanto para o setor privado quanto para os bancos estaduais.
O BRB é uma das poucas instituições financeiras ligadas a governos regionais que permanece de pé, mas suas dificuldades mostram como os incentivos para o acionista nesse modelo não são bem alinhados.
Já o BC, observando a evolução do banco, tem poucos instrumentos para forçar uma correção de rota.
A multa pelo descumprimento de regras, como o atraso na publicação do balanço é considerada baixa, e não se considera prudente e conveniente mudar isso agora.
Já a hipótese de liquidação é tratada como um processo matemático: a autoridade monetária mede todo dia se há recursos suficientes para pagar os compromissos do período.
Liquidar por insolvência ou por descumprimento de regras é visto como cruzar uma linha perigosa no atual arcabouço, além de ser uma espécie de eutanásia de um paciente que se nega a fazer o tratamento que poderia salvá-lo.
