Projeto reúne dedicatórias de livros presenteados e incentiva prática: 'São duas histórias em uma'

 

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"Existem muitas histórias nesta história. Muitas coisas acontecem, o que nos dá a percepção de que nada acontece. Mas não é assim a vida? É assim que envelhecemos: um amontoado de histórias na nossa própria história. E para mim é um privilégio dividir a minha com você", diz a mensagem de Morgana para Ícaro.

Ela escreveu a dedicatória ao presenteá-lo com 'Cem Anos de Solidão', obra de Gabriel García Márquez, uma das mais importantes da literatura colombiana e sul-americana, que conta a saga da família Buendía ao longo de um século.

"O livro com dedicatória vem com duas histórias, "uma que começa no primeiro capítulo e uma que começou antes de se passarem as páginas", afirma a belorizontina Mariana Gogu, de 46 anos, a fundadora do projeto Eu Te Dedico. Ela mantém um arquivo virtual reunindo textos de diversas pessoas, com um site no Tumblr e também um perfil no Instagram, que conta com 45 mil seguidores.

Dedicatória no livro 'Cem anos de solidão', de Gabriel García Márquez, divulgada pelo projeto Eu Te Dedico.

Divulgação

As publicações são padronizadas e trazem a capa do livro (geralmente destinado a uma pessoa querida), junto à fotografia da mensagem escrita na folha de rosto e também uma transcrição digital da dedicatória -- para que o público não tenha problemas em compreender caligrafias tão diferentes. Assim, as histórias dos que se presenteiam ficam misturadas às contidas originalmente nas páginas.

A inspiração para o projeto surgiu em 2012, da paixão de Mariana em passear por sebos e fazer sua "caça ao tesouro", abrindo livros aleatoriamente para procurar por dedicatórias, que fotografava para si mesma.

Foi aí que veio a ideia de criar um blog para compartilhá-las. Gogu conta que logo resolveu abrir o arquivo para contribuições de outras pessoas e notou uma rápida adesão, que foi crescendo com os anos. Desde então, ela recebeu mais de 2700.

"Hoje em dia, é um arquivo grande, com centenas e centenas de dedicatórias publicadas. É um registro e também uma forma de incentivar as pessoas a manterem ou criarem esse hábito de escrever dedicatórias e dar livros de presente."

Formada em publicidade e em design gráfico, Mariana conta que teve vontade de cursar Letras, mas acabou se relacionando com a literatura, para além da leitura, por meio do arquivo -- que não é monetizado. "A minha ideia sempre foi manter como um projeto pessoal e para as pessoas que gostam acompanharem."

"Dá para ficar dias lendo. São muitas histórias interessantes. Tem gente que manda só a transcrição da dedicatória, e tem gente que manda a história que está por trás mesmo, tipo: qual foi o motivo que levou a comprar aquele livro? Para quem ela está dando o livro?"

Mariana Gogu, criadora do projeto Eu Te Dedico.

Arquivo pessoal

O Eu Te Dedico inspirou uma série documental em 2018. A coprodução do canal Arte1 com a Academia de Filmes levou o mesmo nome, e seus seis episódios contam as histórias por trás das dedicatórias de livros.

A série "explora a relação que um livro pode criar entre as pessoas", com cada capítulo se debruçando sobre uma dedicatória a partir dos depoimentos das duas pontas do texto, discutindo também como as obras se mesclam à vida dos entrevistados.

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Mariana conta que não publica todas as contribuições que recebe, ainda que tenham valor sentimental. O critério é o interesse que o texto pode ter para terceiros e também a diversidade entre dedicatórias de amizade, amor, para si mesmo, colegas de trabalho, namorados, pais, filhos, etc.

Apesar do volume de textos recebidos em um trabalho que faz sozinha, a publicitária e designer se sente satisfeita em nutrir um projeto sobre emoções humanas em tempos de artificialidade na internet, e gostaria de transformá-lo em livro.

"É um oásis no meio do Instagram por ser uma coisa que é real, de verdade. Não é imagem fake, produzida. Eu nem edito as fotos que eu recebo, e não edito erros de escrita nos textos. E eu acho que as pessoas se identificam com isso, de achar esse canto de verdade, uma coisa meio rara nas redes sociais."

Manifesto do projeto Eu Te Dedico.

Divulgação

Entre os autores preferidos dos dedicantes estão Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Annie Ernoux, Aline Bei, Carla Madeira e Gabriel García Márquez.

Curadoria da arquivista

Abaixo, confira cinco dedicatórias selecionadas por Mariana Gogu para a reportagem.

'O Processo', de Franz Kafka, com dedicatória.

Arquivo Eu Te Dedico

'O Processo', de Franz Kafka (enviada por Leo Beck)

“Pelas madrugadas insones

de boas conversas e

muita bebida…”

Ele conta: “Este título fazia parte da minha tão amada biblioteca pessoal (com mais de 300 livros), que foi toda jogada fora pela minha ex-mulher logo depois da nossa separação. Depois do divórcio, conheci o casal Nina & Bruno e rapidamente nos tornamos grandes amigos, dos que ficam juntos em um apartamento, bebendo whisky, rum, cerveja ou tequila e, entre cigarros, conversando sobre a vida até o sol nascer. Este livro me foi dado por eles, sem data especial, simplesmente porque passaram em um sebo e se lembraram de mim.”

'Antologia Poética' de Carlos Drummond de Andrade, com dedicatória.

Arquivo Eu Te Dedico

'Antologia Poética', de Carlos Drummond de Andrade (enviada por Violeta Morato)


“A Violeta Morato,

o abraço e a simpatia de Carlos Drummond de Andrade.

Rio, 2. XI. 85”"

Ela conta: "Andava eu lá pelos vinte e poucos anos na faculdade a estudar a obra de Drummond, pois bem que chegava o dia do aniversário dele e eu consegui o telefone dele na lista mesmo. Com toda falta de temor reverencial, liguei para cumprimentá-lo e esta foi apenas a primeira de muitas ligações que se seguiram durante alguns anos. Marcamos um encontro no Rio em 1986, mas quando lá cheguei soube que Julieta estava internada e o resto da história você já deve saber. Nunca nos encontramos, nos falávamos algumas vezes por ano. Tínhamos em comum, a mineiridade e a distância da nossa terra. Um dia chegou a minha casa, assim sem aviso um pacote cujo conteúdo era um livro (Antologia Poética) com esta dedicatória: sóbria e carinhosa, como ele mesmo."

'A Insustentável Leveza do Ser', de Milan Kundera, com dedicatória.

Arquivo Eu Te Dedico

'A Insustentável Leveza do Ser', de Milan Kundera (enviada por Bárbara)

“Para você, que me para e olha,

Que me chamou para dançar em Fevereiro.

Que consta nos meus registros por aí.

Que vai comigo até o dia clarear,

Pisotear flores ao relento

Debaixo de uma blue moon.

Do seu menino bonito,

Amo você.”

'O Corpo Encantado das Ruas' de Luiz Antônio Simas, com dedicatória.

Arquivo Eu Te Dedico

'O Corpo Encantado das Ruas', de Luiz Antônio Simas (enviada por leitor anônimo)

“Baiano, compartilho com você esse livro como quem divide um segredo bonito: que a vida pulsa mais forte nas encruzilhadas, nos encontros improváveis, nos afetos que se (re)inventam nas esquinas. Professor Simas fala da rua como espaço de saber, corpo e encantamento - e eu acredito que assim também é a paixão: dança sem destino, que aprende ao pisar no chão e acontece sob os pandeiros do boi da Floresta. Nosso encontro tem sido leve, como um samba bom no fim de um domingo, e intenso como o calor da Bahia no coração. Que essas páginas te façam companhia e ecoem o que somos: um afeto bonito, sem pressa, com cheiro de mar, som de tambor e alma de rua. Com carinho, Carioca. 17/07/2025.”

Ele (a) conta: Tinha o estado do Espírito Santo no meio do caminho. Mas São João tem dessas coisas e providenciou esse encontro entre um baiano e uma carioca em São Luís do Maranhão, a ilha do amor.

'Destrua Este Diário', de Keri Smith, com dedicatória.

Arquivo Eu Te Dedico

'Destrua Este Diário', de Keri Smith (enviada por Marcilio Lima)

“Odézio,

para deixar de

lado o perfeccionismo

em relação aos livros,

para abri-lo em mais

de 90° e na tentativa

de acabar com esse TOC,

por favor,

‘destrua este diário’

PS.: Feliz Aniversário!

Marcilio Lima”

Ele conta: "Dei de presente esse livro para um amigo que é super cuidadoso com os seus livros. Pega neles como se pegasse em taças de cristal, nunca grifou uma frase, não dobra uma orelha e não abre em mais de 90 graus. Uma tentativa de mostrar que o que importa é a história e não as páginas e que um livro pessoal fica bem mais interessante quando dá pra ver que foi usado. Presente perfeito. E ele gostou!"