Projeto Parque do Solstício, para melhorar visitação e pesquisas no 'Stonehenge da Amazônia', avança no Amapá

Projeto Parque do Solstício, para melhorar visitação e pesquisas no 'Stonehenge da Amazônia', avança no Amapá - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Cento e vinte e sete blocos de granito, alguns com quatro metros e cerca de quatro toneladas, dispostos em formato circular no alto de uma colina no Amapá, guardam segredos sobre a tecnologia, a relação com os astros, as cerimônias e rituais fúnebres de povos indígenas pré-coloniais da Amazônia. Conhecido como o “Stonehenge Amazônico” devido às semelhanças com o famoso monumento pré-histórico inglês, o Parque do Solstício foi descoberto há duas décadas. Desde então, muitos de seus mistérios foram desvendados, mas não todos. Em 2024, por meio do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, foi aprovada a proposta de transformar o sítio arqueológico em um parque estruturado para visitação turística. O projeto foi entregue esta semana à Secretaria Estadual de Infraestrutura, que terá a atribuição de captar recursos para realizar as obras. A área fica em Calçoene, município a 365 quilômetros da capital do estado, Macapá, e pertencia a uma fazenda desapropriada pelo governo estadual. Nos últimos 20 anos, pesquisas e escavações arqueológicas encontraram poços funerários e comprovaram que os 127 blocos foram dispostos lá de forma intencional, como um “relógio astronômico”. No solstício, dia mais longo do ano, parte das rochas fica alinhada com o pôr do sol, e outra parte com o nascer do sol Divulgação / Iepa Alinhamento com sol Os estudos começaram em 2005, liderados por Mariana Cabral e João Saldanha, fundadores do Núcleo de Pesquisa Arqueológica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa), responsável pela gestão do parque. Moradores da cidade já conheciam há tempos o sítio megalítico — definição de marcadores culturais de povos antigos com blocos de rochas— e passaram a reportá-lo a pesquisadores. As pesquisas comprovaram que mesmo os blocos deitados foram posicionados no local de forma planejada, alguns até com calços para ajustar o nivelamento. No solstício de verão, uma parte das rochas fica perfeitamente alinhada com o nascer do sol, enquanto outra parte, com o pôr do sol. Nessa data, 21 ou 22 de dezembro, a inclinação do eixo da Terra faz com que o Hemisfério Sul receba o máximo possível de luz solar, resultando no dia mais longo do ano. Na Amazônia, o solstício marca o início do chamado inverno amazônico. É o período de maior ocorrência de chuvas na região. A hipótese dos pesquisadores é que essa referência temporal servia para marcar o início de cultivos e plantações específicas, como a mandioca. Outras pesquisas, ainda em fase inicial, estão verificando se há alguma relação entre o alinhamento dos blocos no parque com o equinócio, que é quando o Sol está junto à Linha do Equador, marcando início da primavera e do outono. Fragmentos de cerâmica nos poços funerários encontratos no sítio arqueológico Divulgação / Iepa Os estudos também já comprovaram que o “Stonehenge Amazônico” era um cemitério para os indígenas mais prestigiados do grupo local. As escavações acharam três poços funerários, alguns com até 1,70m de profundidade, que guardavam fragmentos de ossos humanos e urnas antropomorfas (confeccionadas com “traços humanos” como narizes e bocas), além de vasilhas de cerâmica decoradas com apliques de lagartos, onças e pássaros. Datações realizadas sobre amostras dos poços remeteram a um período entre 806 e 1.026 anos atrás, o que indica que o local foi usado por quase 200 anos. — Encontramos, em levantamentos, jazidas de granito a quase seis quilômetros de distância. Pedras de três a quatro toneladas foram movidas do rio até o alto de um pequeno morro, fincadas e alinhadas aos astros, posicionadas em distâncias regulares. Isso envolve uma tecnologia e um senso matemático, de observação, absurdos — afirma Lucio Costa Leite, gerente do Núcleo de Pesquisa Arqueológica do Iepa. Ainda não se sabe ao certo que povo indígena criou o sítio megalítico, mas fortes indícios apontam para a etnia Paliku. Isso porque os desenhos das cerâmicas encontradas nos poços são semelhantes aos de grafismos corporais dos palicures, estudados pelo etnólogo alemão Peter Hilbert na década de 1950. Falantes da língua arawak, eles habitam o extremo norte do Amapá. — Precisamos de mais estudos. Há relatos de que a colonização pressionou grupos indígenas para o norte. Em algum momento, vários povos se fundiram. É um rastro difícil de encontrar — explica Leite. Turismo e pesquisa No Amapá, há pelo menos outros 40 sítios megalíticos registrados. Mas o Parque Solstício é o “mais monumental”, afirma Leite. Ele rejeita o apelido de Stonehenge Brasileiro, mas a alcunha se popularizou. O brasão de Calçoene tem o sítio arqueológico desenhado, e a população usa o apelido famoso em artesanato e souvenires. Além disso, uma prova de corrida local foi batizada com esse nome. Para Lúcio Costa Leite, a obra do parque vai garantir fluxo maior de turistas e mais chances de pesquisa. — A ideia é tornar a área adequada para receber mais turistas, com espaço de visitação, contemplação e pesquisa — afirma Leite. — Criar ordenamento, dando segurança ao visitante. Há uma demanda estadual para a expansão turística, e o parque está nesse roteiro. Pesquisadores trabalhando nos poços funerários no Parque Solstício Divulgação / Iepa Mariana Cabral, que participa das pesquisas no local desde o princípio, há 20 anos, destacou que a implantação do parque vai garantir uma estrutura de visitação permanente, com mais qualidade de informações sobre a história dessa ocupação indígena antiga. Ela acrescentou que, como se trata de um sítio arqueológico, os protocolos são cuidadosamente calculados, como na quantidade máxima de visitantes e outros detalhes. — A implantação do parque arqueológico garante a proteção permanente, com uma estrutura mais robusta de visitação e protocolos bem estabelecidos, e também contribui muito para a valorização desse patrimônio. A gente formaliza em outra escala. Os megalitos são muito impressionantes, mas não é apenas olhar um lugar muito bonito, a gente vai ter informações dessas pesquisas científicas de 20 anos. Vai ter mais atividades de educação e de engajamento da população local, de modo a entender esse sítio como parte importante do município, do Amapá de do Brasil — explicou. Assim, o projeto do parque acontece após um planejamento de muitos anos, frisou, com muitas pesquisas consolidadas sobre a ocupação indígena antiga nesse e outros sítios da costa nordeste do Amapá. Mariana também ressaltou a importância da parceria com a população local, algo que acontece desde o início dos trabalhos do Iepa no sítio.  — Desde aquele momento, a gente fez questão de chamar a população local e compartilhar com o conhecimento. Ao longo desses 20 anos, uma série de projetos liderados pelo Iepa foram conduzidos no sentido de aproximar a população. Porque a gente entende que isso é crucial, são as pessoas que estão lá na ponta, que conhecem a realidade, e que são parceiros essenciais na preservação e valorização do patrimônio. Também é um modo da população se reconhecer nesse lugar,  ver a história do município como uma história relevante, e que tem projeção global

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