Projeto Horto Maravilha prevê reformas em comunidade que há pouco ganhou o direito de permanecer no Jardim Botânico

 

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O prefeito Eduardo Cavaliere se reuniu neste sábado com moradores do Horto, no Jardim Botânico, Zona Sul, para apresentar as reformas urbanísticas que serão implementadas no local a partir de outubro, como consta na previsão da prefeitura. As obras incluem a comunidade no projeto Bairro Maravilha, tal como aconteceu na Zona Portuária da cidade. Segundo Cavaliere, o Horto estreia um modelo "verde" de revitalização, já que privilegia materiais sustentáveis e a preservação da natureza. Ao todo, serão investidos cerca de R$ 9 milhões na região.

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O encontro com o prefeito aconteceu por volta de 11h30 no Largo das Pedras, uma das áreas que passará por reformas. O chão de terra batida, por exemplo, será trocado por blocos intertravados drenantes, alternativa que atendeu à demanda das famílias — são ao menos 621 — de não colocar asfalto nas vias. O mesmo acontecerá no Grotão, território vizinho.

O projeto, chamado de Horto Maravilha, também vai regularizar o saneamento básico da comunidade por meio de melhorias na distribuição de água e esgoto. Além disso, haverá reforma no parquinho e na quadra comunitária, inclusão de uma academia ao ar livre para idosos e de uma "biblioteca verde", que privilegiará livros sobre a memória local e a Mata Atlântica (bioma predominante no Jardim Botânico).

— A prefeitura assumiu um conjunto de compromissos e responsabilidades junto ao Governo Federal para viabilizar toda essa reforma. Estamos investindo em água, saneamento e drenagem para que os moradores possam falar e sentir que estão 100% de acordo com a lei. Ninguém vai poder culpar a comunidade do Horto sobre eventuais problemas que possam interferir no Jardim Botânico — afirmou Cavaliere.

O prefeito destacou também que a poda de árvores, retirada de lixo e a manutenção da luz estão entre as atribuições do município.

— É todo um investimento pensado para dar dignidade a vocês, que viveram anos e anos de injustiças — completou.

Além do prefeito, estiveram presentes o vereador Flávio Valle, a deputada federal Laura Cardoso, o subprefeito da Zona Sul, Pedro Angelito, e secretários das pastas de Infraestrutura, Cultura, Meio Ambiente e da Comlurb.

Acordo histórico

A comunidade do Horto começou a ser formada há mais de 100 anos, quando escravizados e funcionários do Jardim iniciaram a construção de imóveis no terreno. No entanto, por volta da década de 80, processos de desapropriação das terras movidos pelo parque e pelo Ministério Público Federal colocaram em risco a estabilidade dos moradores que, em 40 anos, viviam sob a possibilidade de despejo. Somente em outubro do ano passado, um acordo foi firmado entre diferentes entes para regularizar o local. À época, a prefeitura assumiu que cuidaria de serviços urbanísticos, como os apresentados no encontro de sábado.

Assinaram o acordo o Jardim Botânico, a Associação de Moradores do Horto (Amahor), a União — por meio da Secretaria-Geral da Presidência da República —, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o MPF e a Defensoria Pública da União.

Regras são bem-vindas

O principal problema apontado por aqueles que queriam retirar as famílias era a chance do local crescer sobre as fronteiras do parque, degradando áreas de preservação. Já os que desejavam manter os moradores alegavam que o aumento da região era demográfico, sem interferência sobre novos terrenos do Jardim. No acordo recente, ficou combinado que não é permitida venda, aluguel ou o uso das casas para fins comerciais, e que todos devem prevenir o crescimento desordenado.

Para Fábio Dutra, atual presidente da Amahor, as melhorias planejadas pela prefeitura são um ganho histórico.

— As pessoas pensam que a gente não quer regras aqui. Sem regra, tudo vira barbárie. Nunca foi do nosso interesse que houvesse um crescimento desordenado, pelo contrário, cuidamos desse espaço antes mesmo do Jardim Botânico ser o bairro valorizado que é. A gente luta todos esses anos pelo direito a moradia e qualidade de vida. Agora, com esse projeto da prefeitura, feito à base de muita conversa, começamos a ver os frutos desse processo — disse Fábio.

Moradora do Horto há quase 70 anos, Regina Célia Coelho comenta ser a primeira vez que a comunidade é priorizada para investimentos como esse.

— Posso dizer, literalmente, que tudo aqui era mato quando eu cheguei. Não tinha nada, nem luz. Foram muito anos lutando, lembrando as pessoas que temos direito de estarmos aqui. A gente cuida desse lugar. Ver essas melhorias é muito gratificante — comentou.