Projeto em São Gonçalo cria oficina de poesia para mães e oferece um recomeço na literatura

 

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No projeto socioesportivo Craque do Amanhã, na unidade Neves, em São Gonçalo (RJ), o Dia das Mães ganha um significado que vai além da data. Entre cafés compartilhados, rodas de conversa e poesia, mães e responsáveis encontram um espaço para criar vínculos e transformar vivências em palavras.

A oficina "Mãos que Cuidam" nasceu como desdobramento de uma atividade de crochê e hoje estimula a criação poética por meio de leituras, estudo dos elementos básicos da escrita e análise de textos produzidos semanalmente pelas participantes. À frente da atividade está a coordenadora pedagógica Brenda Moura, professora de português e literatura, que utiliza a escrita como ferramenta de pertencimento e identidade.

— Ajudo na revisão e escrita das poesias, trago outras autoras negras e textos de autoria feminina, que também falam da vivência de mulheres negras, de periferia, como Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez — explica Brenda.

Segundo a psicóloga Juliana Teixeira, a oficina foi criada para oferecer às mulheres um momento de cuidado consigo mesmas.

— A gente inicia com um café da manhã, um momento de integração e troca. Conversamos sobre a semana, sobre sentimentos, sobre aquilo que elas deixaram para trás ao longo da vida por conta das responsabilidades — conta.

'Estou me descobrindo como pessoa'

Foi nesse ambiente que a moradora de Neves Lídia Carvalho, de 47 anos, reencontrou uma antiga paixão. Mãe de três filhos — Daniel Victor, de 18 anos, João Miguel, de 10, e Alef, de 8 —, todos participantes do projeto, ela começou a frequentar a oficina após o Carnaval e, desde então, já escreveu mais de 30 poesias.

Foi em uma das rodas de conversa que Lídia revelou que gostava de escrever, mas havia abandonado o hábito com o passar dos anos. O incentivo coletivo das outras participantes a fez retomar a escrita.

— Estou me descobrindo como pessoa, como alguém que pensa e escreve. Através da poesia eu me encontro, revivo emoções e percebo que tudo aquilo que coloco no papel faz sentido — afirma Lídia, que também escreve sobre os desafios da maternidade atípica: — É a voz das mães atípicas, das dores, dos medos e das frustrações. Mas também é uma escrita cheia de amor. Foi libertador. Eu me encontrei, me achei e me libertei. Quero convidar outras mães a viverem isso também.

Lídia é orientada durante a oficina

Raphael Menacker/Divulgação

Para o coordenador geral do projeto, Felipe Espose, incluir as famílias no cotidiano das atividades é fundamental:

— Quando acolhemos as famílias, fortalecemos também as crianças e adolescentes. O projeto entende que cuidar dos responsáveis é parte essencial do desenvolvimento dos nossos alunos. Essas oficinas criam pertencimento, escuta e transformação.