Programa do TJRJ busca ‘padrinhos’ que mudam vidas de crianças e jovens

 

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Ponte erguida entre crianças e jovens que vivem em abrigos, assistidos pelas varas da Infância e Juventude, e aqueles que desejam ajudá-los, o Programa de Apadrinhamento do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) foi lançado há 12 anos, com resultados positivos desde 2015 e, agora, ganha relançamento com a perspectiva de atrair novos interessados.

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Maiores de 18 anos e pessoas jurídicas podem participar do programa, que é desdobrado em três categorias: a afetiva, em que há convívio regular com a criança ou o adolescente, com momentos de lazer dentro e fora das instituições; a de provedor, voltada ao suporte material ou financeiro, por meio da doação de itens ou do patrocínio de cursos e atividades educacionais; e a de prestador de serviços, na qual os interessados contribuem com suas especialidades profissionais.

Atento às necessidades dos assistidos nos abrigos, o juiz Sérgio Luiz Ribeiro de Souza, à frente da 4ª Vara da Infância e Juventude Protetiva da Capital do Rio de Janeiro e presidente da Associação Brasileira dos Magistrados da Infância e Juventude, criou o programa.

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— A ideia surgiu quando assumi a Vara da Infância e Juventude e visitei os abrigos. Vi necessidades de toda ordem: instalações, alimentação, exames, falta de óculos, de um ventilador em um quarto, crianças e adolescentes querendo fazer um curso ou praticar esportes — diz o magistrado. — Esse é um programa que não dá desculpa para ninguém. O provedor oferece ajuda material a partir de uma lista do que cada abrigo precisa. O colaborador ou prestador de serviços doa sua expertise, dentro de sua atuação profissional. O afetivo é voltado a crianças e adolescentes que não têm pretendentes à adoção nem perspectiva de reintegração familiar, e cujo padrinho ou madrinha também não deseja adotar, mas quer fazer algo a mais, como passeios e visitas.

No seu lançamento, o programa conquistou o Prêmio Innovare, que reconhece práticas transformadoras desenvolvidas no âmbito do sistema de Justiça brasileiro.

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Caminho da mudança

Os dois anos e meio que Yris Vitória Ezequiel da Silva passou em um abrigo transformaram sua vida, sobretudo pela oportunidade de conciliar o desenvolvimento de uma profissão e uma paixão. A curiosidade por roupas começou na infância, quando retalhos costurados com criatividade viravam peças para bonecas. Aos 15 anos, Yris teve a vida mudada pela primeira gravidez. A gestação a levou a deixar a casa da família, onde tinha uma prima como cuidadora e mãe desde os 4 anos, mas não como tutora legal.

— Quando entrei no abrigo, não tinha expectativa nenhuma. Não queria estudar, nem fazer nada. Minha visão mudou quando me apresentaram oportunidades de cursos, e comecei o de corte e costura. Sempre gostei. Pensei que, quando saísse, poderia trabalhar com isso.

Hoje aos 20 anos, Yris trabalha como autônoma.

— Hoje, trabalho de casa. Já passei por confecções, mas saí depois que tive meu bebê, Anthony, que está com 7 meses. Quando ele completar 2 anos, vou voltar a trabalhar fora. Meu curso foi especializado em roupas infantis — conta ela. — Faço consertos, roupas de festa e peças sob encomenda, tudo voltado para meninas. Amo fazer roupinhas para minha filha Luiza, de 5 anos. Ela foi minha “modelinha”. Agora quero fazer um curso de roupas masculinas.

Uma das preocupações em relação aos assistidos ocorre quando completam a maioridade, aos 18 anos, e precisam deixar o abrigo.

— Individualizamos esse apoio. Em vez de dizer, por exemplo, que todos fariam um curso de informática em um único lugar, identificamos os interesses, levantamos informações sobre currículos e custos e disponibilizamos essas opções para que sejam apadrinhados. Um fator importante é que seja de interesse do adolescente ou da criança. A probabilidade de sucesso é bem maior — explica o juiz.

Essa iniciativa deu origem ao projeto Doe um Futuro, ligado ao Programa de Apadrinhamento da 4ª Vara da Infância e Juventude, exclusivo para o financiamento de cursos profissionalizantes destinados a adolescentes em situação de vulnerabilidade. O projeto rendeu ao magistrado o Prêmio Innovare, na modalidade Juiz, categoria destaque, em 2022.

‘É muito gratificante’

Aline Cristina Areas, de 52 anos, leva sorrisos a residentes de dois abrigos em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Cirurgiã-dentista, ela abre as portas de seu consultório, no mesmo bairro, para atender os pequenos pacientes. As primeiras consultas envolvem tratamentos que vão de cáries a extrações, restaurações e colocação de aparelho. Conforme os atendimentos avançam, a mudança de postura é perceptível, explica Aline:

— À medida que se conscientizam, passam a se cuidar mais. De uma consulta para outra, percebo que estão escovando melhor. Uma parte interrompe o tratamento, enquanto outros, já adultos, continuam como pacientes mesmo depois de deixar os abrigos e passam a levar os filhos. É muito gratificante.

Interessados podem tirar dúvidas e aderir ao programa pelo site www.apadrinhar.org ou pelo telefone (21) 3133-2000.

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