Programa de renda básica na Irlanda aumenta produtividade e reduz ansiedade entre artistas, diz governo
Em um labirinto de estúdios de madeira compensada, construÃdos em um armazém em Dublin, o escritor e cineasta Seanan Kerr constrói uma carreira que — até recentemente — oferecia pouca garantia de estabilidade. Tudo mudou em 2022, quando a Irlanda começou a pagar a 2 mil artistas, incluindo Kerr, um valor semanal de 325 euros, sem quaisquer condições, durante três anos.
Para o artista de 45 anos, que também é performer, o programa inovador foi nada menos que "radical". "É quase inacreditável que isso tenha acontecido", disse ele à AFP em seu pequeno estúdio, em meio a pilhas de livros, esboços e rabiscos.
A iniciativa "Renda Básica para as Artes" (RBA) é inédita na Irlanda e única na Europa, atraindo o interesse de outros paÃses, como Alemanha e Finlândia. O programa "diferencia a Irlanda na forma como apoiamos nossos artistas", afirmou o Ministro da Cultura da Irlanda, Patrick O'Donovan, no mês passado.
Apresentado como "o reconhecimento, em nÃvel governamental, do importante papel das artes na sociedade irlandesa", o governo declarou o projeto-piloto um sucesso.
Em fevereiro, o programa foi tornado permanente e o governo reservou cerca de 18 milhões de euros para 2026, com o objetivo de financiar 2 mil artistas a partir de setembro, durante três anos.
Livre para 'criatividade total'
Os benefÃcios registrados nos dados do Ministério da Cultura incluem aumento da produtividade e redução da ansiedade entre os participantes. Os selecionados para o auxÃlio podem ganhar um dinheiro extra e receber mais do que o auxÃlio-desemprego médio, que gira em torno de 250 euros por semana.
Esta foto, tirada em 25 de fevereiro de 2026, mostra itens expostos no estúdio do autor e cineasta Seanán Kerr, em Dublin
Paul Faith /AFP
"Dar aos artistas a liberdade de simplesmente pegar o dinheiro e fazer o que quiserem permite que eles entrem em um estado de espÃrito de pura criatividade", disse Kerr. "Isso me permitiu reconstruir meu senso de identidade como artista e me preparar para o futuro", afirmou.
Poder comprar um café da manhã, roupas ou participar de oficinas artÃsticas lhe deu "um nÃvel básico de dignidade", disse ele, antes de sair para uma noite de poesia.
Em outro dos espaços, que podem ser alugados por valores entre 150 e 300 euros por mês, Kieran Guckian, de 42 anos, paisagista, disse estar "animado" para se inscrever antes do prazo final em maio.
"Todo mundo sempre faz uns bicos, eu dou aulas e workshops", disse ele. "Ter essa renda básica me daria mais tempo livre para me dedicar ao estúdio", acrescentou, olhando para as telas inacabadas.
'Precariedade'
Embora muitos considerem o programa transformador, alguns temem que sua escala limitada lance uma sombra sobre seu potencial. Em um complexo de estúdios de artistas iluminado no centro de Dublin, Caelainn Hogan, jornalista e escritora que vem construindo uma reputação por seus escritos, descreveu o programa como "transformador", mas compartilhou sentimentos conflitantes.
Aos 37 anos, ela descobriu que estava grávida seis meses após o inÃcio dos pagamentos do projeto-piloto. "Isso foi assustador como escritora, como alguém sem segurança financeira", disse ela à AFP.
Seu último pagamento foi em fevereiro e, com mais de 10 mil artistas esperados para se inscrever em maio, suas chances de ser selecionada novamente no futuro são pequenas. Uma vez determinados os candidatos elegÃveis, todos são anonimizados antes que um software, usando um processo aleatório, selecione os vencedores — uma espécie de loteria de alta tecnologia.
"Estou criando um filho e quero continuar meu trabalho criativo, mas mesmo que eu tenha sorte novamente, isso só duraria três anos", disse Hogan. "Isso é precariedade, não apoio sustentável."
Argumentando que o programa poderia ser estendido a todos os artistas elegÃveis, ela alertou para um sistema divisivo de duas classes, entre os que têm e os que não têm. Com os aluguéis em Dublin entre os mais altos da Europa, Hogan também criticou duramente os polÃticos que "se gabam de apoiar artistas" enquanto enfrentam uma crise habitacional.
"Dividendos sociais"
Do outro lado da cidade, a artista visual Day McGee, que morou em um apartamento-estúdio subsidiado durante o projeto-piloto, em breve se mudará para o quarto vago de um amigo. A "estabilidade" dos pagamentos ajudou Magee, de 33 anos, a realizar sua primeira exposição individual e a conseguir encomendas de textos.
O BIA "foi uma chance temporária de viver", disse Magee. "Agora não sei se consigo continuar levando uma vida adulta normal."
Pesquisas do governo indicam que artistas têm três vezes mais chances de viver em situação de privação do que outras pessoas. Até mesmo grandes nomes sofrem com a precariedade, disse Carla Rogers, da Campanha Nacional para as Artes (NCFA).
"Você pode ter uma ótima temporada se apresentando em um palco do West End e, ao voltar para casa, ter que dormir no sofá de amigos", disse ela à AFP.
A NCFA também espera que os pagamentos cheguem a todos os artistas elegÃveis. O programa pode se pagar, gerando cerca de 1,39 euros para cada euro investido, de acordo com a própria pesquisa do governo, disse Rogers.
"É um investimento financeiro que gera dividendos sociais: a criatividade alimenta a cultura, o turismo e as comunidades", disse ela.
O'Donovan insinuou que o programa pode ser expandido, mas, com a loteria tendo recebido mais inscrições do que vagas, muitos ficarão desapontados. "Nem todos os candidatos elegÃveis receberão financiamento", disse um porta-voz do governo à AFP.
