Professores viralizam ao relatarem hostilidade de alunos e geram debate sobre más condições em sala de aula
Enquanto dava aula para uma turma do 8º ano em uma escola pública no Paraná, a professora Geórgia Kimura Noda, de 34 anos, ouviu de um estudante que uma mulher era “muito linda” e, por isso, ele “poderia estuprá-la”. O comentário, a gota d’água de uma série de insultos que tem ouvido com cada vez mais frequência, tirou dela o grito mais alto que deu na vida — num volume que nunca havia atingido numa sala de aula. Temeu adoecer e desabafou nas redes sociais. O vídeo viralizou, ultrapassou 2 milhões de visualizações e reuniu muitos colegas de profissão que, como ela, estão chegando ao limite em suas carreiras docentes.
Acidente no PR: Socorrista do Samu é atropelado durante atendimento; motorista fugiu após mostrar arma, diz testemunha
Confira: Virada Cultural de SP terá Masp e Municipal grátis, samba e megashows no Anhangabaú
— Todo mundo odeia a escola. Parece que ninguém quer estar lá, nem os professores, muito menos os alunos — relata Geórgia ao GLOBO. — Esse foi só mais um episódio de desrespeito, mais um episódio de agressividade. A gente acaba balançando a cabeça, aceitando e ficando sem resposta. Aí, isso vai sendo normalizado. A sala de aula é um ambiente muito hostil.
O Brasil vive, segundo especialistas, um cenário de sobrecarga e adoecimento de seus professores, que vêm desabafando sobre essa situação nas redes sociais. Entre os motivos para isso, relatam cobranças excessivas por resultados, condições de trabalho precárias e, principalmente, uma relação muito difícil com parte dos estudantes, que já apresentam comportamento agressivo ainda muito jovens.
De acordo com a última Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis, na sigla em inglês), de 2024, quase metade (47%) dos professores relatou sofrer intimidação ou abuso verbal de alunos como fonte de estresse. O estudo é coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um grupo formado predominantemente por países desenvolvidos. A pesquisa também diz que 57% relatam “muito barulho e desordem”.
— Eles chegam (para tratamento) sobrecarregados e relatam o quanto é desgastante trabalhar em escolas. As queixas mais frequentes são sobre baixa remuneração, desvalorização, tempo perdido em sala tentando conter conversas paralelas e lidar com conflitos como bullying. Muitos também reclamam do excesso de alunos e do fato de que o trabalho não termina quando saem da escola — diz a psicóloga Bruna Seling, que vê um aumento em seu consultório no atendimento à categoria.
Alvo de xingamentos
Nas redes sociais, Raquel Teles, de 26 anos, contou que foi alvo de xingamentos de um aluno do 5º ano em uma escola municipal de Goiânia, série em que as crianças têm por volta de 10 anos de idade.
“Acabei de sair da escola e estou esgotada. Hoje, um aluno me mandou ‘tomar naquele lugar’ simplesmente porque pedi para ele sentar em seu lugar e fazer a atividade. Isso me cansa. Essa falta de respeito, de limite. A falta de interesse que nós, professores, enfrentamos todos os dias. Sei que professores de todo o Brasil estão passando por isso e até por situações piores. Mas seguimos dando o nosso melhor”, desabafou em uma rede social.
No mesmo dia, o professor Rafael Guimarães, de uma escola municipal de Magé, na Baixada Fluminense, publicou um relato dizendo que um de seus alunos do 4º ano tentou agredi-lo. De acordo com o educador, o estudante avançou em sua direção e, por pouco, não chegou às vias de fato. O educador disse que ainda tentou controlar a situação, mas não obteve sucesso. Ao chegar ao seu limite e com medo, precisou recorrer à diretora para que o menino fosse retirado da sala. Após o ocorrido, publicou o relato no Instagram e também recebeu apoio de colegas da profissão.
Na rede privada, os problemas se repetem. João da Silva (nome fictício), coordenador de uma escola particular no Rio de Janeiro, afirma que a passagem do 5º para o 6º ano marca uma mudança importante no comportamento dos alunos e que, com o avanço das séries, o interesse pelas aulas tende a diminuir. Na avaliação dele, as turmas de 7º e 8º anos são as mais desafiadoras, por estarem no período de transição entre infância e adolescência.
— Os professores me relatam dificuldades em relação às atividades propostas em aula. Grande parte dos estudantes não realiza as tarefas e tampouco copia as anotações do quadro. Quando confrontados, costumam dizer que vão “fazer depois” ou que “pegam com o colega” mais tarde. Muitos alunos também não têm responsabilidade com o próprio material e faltam excessivamente. — diz.
Luciene Tognetta, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM) vinculado às universidades Unesp e Unicamp, afirma que a disseminação da tecnologia é um dos principais fatores por trás das mudanças de comportamento dos alunos:
— Eu diria que o comportamento dos alunos não está simplesmente “piorando”, mas mudando com a presença constante das tecnologias e dos celulares. Por um lado, ampliam o acesso ao conhecimento de forma rápida e democrática, facilitando a aprendizagem e a pesquisa. Por outro, a falta de supervisão para o uso consciente das redes expõe crianças e adolescentes a conteúdos nocivos e grupos virtuais que disseminam violência, ódio e manipulação emocional.
Para a pesquisadora, o acesso a esses conteúdos pode comprometer a formação de valores, a identidade e o equilíbrio emocional dos jovens, que acabam refletindo essa disseminação da violência, por exemplo, em seus comportamentos em sala de aula.
Em nota, o Ministério da Educação disse que atua com estados e municípios para apoiar redes de ensino e professores, por meio de programas voltados à formação, cultura de paz e valorização do magistério. Entre as iniciativas citadas estão o Escola e Comunidade, o Escola que Protege e o Mais Professores para o Brasil. A pasta também ressaltou que o novo Plano Nacional de Educação trata a valorização docente como eixo central, com metas para melhorar as condições de trabalho, ampliar a formação continuada e reduzir vínculos precários. Sobre os dados da pesquisa Talis, o ministério informou que os índices de estresse se referem aos professores dos anos finais do ensino fundamental e estão em linha com os de outros países.
(*Estagiário sob a supervisão de Fernanda Freitas)
