O surgimento de novas tecnologias, como os chatbots de inteligência artificial (IA), trouxeram um novo desafio aos professores, celebrados neste 15 de outubro. Aqueles que um dia competiram a atenção apenas com conversas paralelas e bilhetes, agora também lidam com smartphones e a dopamina liberada ao rolar a tela. A solução encontrada por muitos é tornar o que seria vilão em aliado, transformando as inovações em ferramentas que auxiliam o processo de ensino - aprendizagem.
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A professora Lise Lobato leciona a disciplina de Artes para alunos do ensino fundamental e médio na Escola Sesi há 10 anos. Na instituição, o envolvimento com a tecnologia tornou-se instrínseco e plataformas específicas para a educação já são adotadas. A mudança iniciou em 2020, durante a pandemia de covid-19, e virou um pilar permanente na instituição.
Professora de Artes, Lise Lobato destaca a importância de produções humanas (Foto: Thiago Gomes | O Liberal)
“Os professores estão todos insediros nesse mundo. Embora não seja da geração do professor, ele está nesse universo. Os professores estão sempre se capacitanto dentro dessa estrutura para a gente entender um pouquinho mais e trabalhar com essas plataformas dentro da sala de aula”, fala.
Ao longo desses seis anos, desde que a tecnlogia entrou de vez na sala de aula, Lise observa que não há como fugir das inovações: “A gente precisa estar entendendo e se atualizando, porque é um mundo rápido e veloz. Esses adolescentes têm esse mundo, esse universo aí aberto para eles. Então, a gente tenta fazer esse diálogo o tempo todo dentro de sala de aula.”
Um exemplo citado pela professora é a presença de QR codes nos livros didáticos, o que exige o uso dos celulares pelos alunos. Apesar da utilização ser proibida, exceções são abertas para a realização de atividades — sempre sob supervisão.
Inteligência artificial e inteligência humana
Em relação à IA, Lise ressalta que, para além do uso na pesquisa, a ferramenta é grande auxiliar na gestão de tempo do professor. “São planejamentos, são aulas programadas que você organiza com muito mais rapidez. Não tem como eu dizer que a IA só tem ponto negativo”, destaca.
Por outro lado, a professora aponta que muitos alunos utilizam a inteligência artificial para gerar textos e demais atividades, o que é notado pelos educadores. Segundo Lise, produtos feitos por essas plataformas não possuem o sentimento que há em materiais originados da mente humana.
“Em uma aula minha, nós entramos nessa discussão: ‘se eu peço para a IA fazer uma arte e ela gera aquele produto, ela materializa visualmente aquilo ali, eu posso chamar de arte?’”, cita Lise. Para a professora, a arte só existe quando passa pelas mãos do artista que, por sua vez, materializa o que sente.
Luta contra a dopamina
Em sala de aula, os professores não competem apenas com troca de mensagens, publicação de fotos e visualização de vídeos. A luta, na verdade, é contra o próprio cérebro dos alunos. Pesquisas comprovam que o uso de celulares, tablets e demais aparelhos geram sensação de bem-estar por meio da dopamina, um neurotransmissor chamado de “hormônio do prazer”.
Os desafios dos professores em relação às tecnologias envolvem o funcionamento cerebral (Foto: Thiago Gomes | O Liberal)
Segundo o artigo “Dopamina Digital: o ciclo de recompensa no uso das redes sociais”, a utilização frequente dessensibiliza o sistema de recompensa cerebral, o que exige mais tempo e interações mais intensas nas plataformas. O estudo mostra que após os picos hormonais, a queda no cérebro motiva o retorno às telas. Logo, a questão não é exclusiva de adolescentes e jovens, podendo ocorrer em pessoas de qualquer idade e geração.
“É uma negociação. Você libera o celular quando você consegue passar aquilo que você programou. Independente desse jogo de troca, existe a necessidade real do aparelho como uma metodologia e como um recurso dentro da sala de aula com o professor e o aluno”, comenta Lise.
Visão de quem aprende
A aluna Paula Araújo, de 17 anos, está no 2° ano do ensino médio e é habituada a utilizar ferramentas tecnológicas em sala de aula. Ela relata que, a cada bimestre, os estudantes precisam apresentar um portfólio escolar, o que existe o uso de plataformas digitais. Além disso, Paula costuma aplicar a inteligência artificial para a organização de atividades.
Lise é professora de Paula Araújo, estudante do 2º ano do ensino médio (Foto: Thiago Gomes | O Liberal)
“Eu gosto de utilizar mais como um tutor, não como uma resposta pronta. É bem comum que a gente utilize quando a gente quer uma coisa mais rápida, mas eu não acho que é o certo”, conta.
O controle do uso do celular é um desafio, mas a aluna se esforça para desconectar nos momentos necessários: “Eu confesso que é bem difícil. A gente está uma geração muito viciada. Não só eu, mas os meus outros colegas também, às vezes a gente se vê utilizando o celular e a gente sabe que não pode. A gente tenta guardar. É difícil, não tem como negar.”
A motivação de Paula para deixar o aparelho de lado está no bom resultado das avaliações. Para ela, o aprendizado em sala é fundamental na hora de fazer a prova e, normalmente, o que ouve do professor é o bastante. Quando necessário o uso de celular ou computador, Paula gosta mais em aulas da disciplina Bilíngue.
A presença do professor é essencial e insubstituível, segundo a aluna. “Ter um professor em sala de aula, ter o momento da sala de aula é muito único, porque você pode tirar suas dúvidas naquele momento. Ele prepara aquela aula para fazer exatamente aquela coisa. Ele ajuda a formar um pensamento crítico”, ressalta.
Para além da ciência exata
O professor de Matemática e Robótica Ricardo Rocha aponta que é um desafio manter os alunos atentos a todo momento, mas há formas de aliar a tecnologia ao ensino. Por meio de estratégias, Ricardo aplica a IA como ferramenta pedagógica.
“É claro que a gente tem algumas dificuldades, porque o aluno sempre está querendo usar IA, mas a gente tem que estimular a ter o senso crítico. Eles não podem perder essa visão. A gente trabalha e utiliza a IA como ferramenta, como auxílio, e não como produtora”, explica.
Ele destaca que, diferente do que se imagina, as disciplinas não são apenas ciências exatas e possuem, também, questões e projetos sociais envolvidos. A interdisciplinariedade é crucial para processo de ensino - aprendizagem, de acordo com Ricardo: “Como professor de matemática, eu não entro mais pra dar aula só de matemática, eu não vou lá ensinar só a fórmula de Baskhara. Eu trago um contexto histórico.”
Ricardo Rocha, professor de Matemática e Robótica, aborda a interdisciplinariedade em sala de aula (Foto: Thiago Gomes | O Liberal)
A inteligência artificial, junto à mesclagem com outros assuntos, virou parte essencial das aulas de Ricardo quando ele notou a dificuldade dos alunos com matemática. Para aqueles que são familiarizados com a disciplina, como diz o professor, tudo é simples — o que não quer dizer ser fácil. Porém, outros estudantes não encaram da mesma maneira.
“Eu, vendo essa potencialidade neles, consigo procurar essas ferramentas de apoio para mim, para que eu consiga abordar a matemática de um outro jeito, para que seja atrativa para eles. Não ficar mostrando só os números”, diz.
O Liberal