A professora Sabrina Moehlecke, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou à Polícia Civil que não presenciou agressões físicas dentro da sala de aula durante a confusão que terminou com o estudante de História Diego Costa da Silva Araújo sendo espancado por outros alunos no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), no Largo de São Francisco, no Centro do Rio. Ela foi ouvida como testemunha em 31 de agosto, seis dias após o episódio, e sua declaração foi anexada ao inquérito que apura o caso. Agressão no IFCS: funcionários da faculdade são ouvidos pela polícia após serem identificados por reconhecimento facial Caso Cláudio Rafael: polícia indicia 13 pessoas por morte de ciclista em Copacabana; cinco respondem por homicídio O depoimento contradiz a versão dada anteriormente ao GLOBO por uma estudante de Ciências Sociais que também estava na sala. Segundo essa aluna, Diego teria chegado ao IFCS sem a camiseta de suposta apologia ao nazismo, que depois apareceu nas imagens, trocado de roupa no banheiro do prédio e, já na sala, passado a falar "coisas desconexas", rir e ofender um aluno de Direito que tentava contê-lo. Ainda de acordo com seu relato, foi quando um grupo de estudantes tentou retirá-lo do ambiente que Diego teria começado a agredir os colegas, dando início à briga que se espalharia depois pelas escadas e pela área externa do prédio.
Sabrina, que estava à frente da sala como professora e acompanhou toda a discussão, não relata essa cena: em nenhum momento de seu depoimento ela afirma ter visto Diego partir para cima de algum estudante. A aula de Educação Brasileira, para uma turma de licenciatura em História, transcorria normalmente na sala 317 do IFCS quando, por volta das 19h30, a docente percebeu uma aglomeração de pessoas do lado de fora, narra. Minutos depois, um grupo de alunos entrou dizendo procurar um colega que estaria fazendo apologia ao nazismo. Um comportamento que, para ela, não havia notado em nenhum momento. Os estudantes apontaram Diego, que vestia uma jaqueta preta fechada com um broche estampando uma suástica cortada por um traço vermelho, símbolo de proibido. Começou então uma discussão: ele argumentava que o broche representava um veto ao nazismo, enquanto os colegas sustentavam se tratar de apologia. A professora afirma ter se afastado para tentar conter o restante da turma, também aglomerada na porta, enquanto um segurança do prédio, chamado a pedido dela, entrava na sala. Mas ele disse não ter autorização para conduzir Diego para fora do campus, por ser segurança patrimonial, e informou, após contatos por telefone, que não havia ninguém da direção ou do setor patrimonial disponível naquele momento. 'Deixou a sala voluntariamente' Ainda segundo o depoimento, os alunos pediram que Diego mostrasse a camiseta por baixo da jaqueta. Ele a teria aberto espontaneamente, revelando uma estampa com uma caveira associada à SS nazista e, embaixo, o nome da banda Death in June. Foi nesse ponto, diz a professora, que os presentes deram uma espécie de "voz de prisão" a Diego e pediram que ele os acompanhasse até a delegacia. Depois, o aluno deixou a sala voluntariamente, sem que tivesse presenciado qualquer confronto físico até ali, afirma. Sabrina permaneceu no local tentando acalmar os estudantes que ficaram. Foi só minutos depois, afirma, que outros alunos retornaram à sala contando que havia ocorrido uma confusão generalizada nas escadas e que Diego havia sido agredido. A professora reafirmou à polícia que não presenciou nenhuma agressão em momento algum e que soube da violência unicamente pelo relato de terceiros. Questionada sobre eventual comportamento estranho de Diego antes do episódio, ela disse não ter notado nada, e que aquele era apenas o terceiro contato dela com a turma, que classificou como participativa e sem qualquer histórico de conflito. Seja entre os alunos, seja com o próprio Diego. Vídeos não mostram o início da briga As imagens que circularam nas redes sociais também não esclarecem esse trecho da história. Os registros disponíveis começam já com um grande grupo de estudantes conduzindo Diego para fora da sala, em meio a discussão. Na escada, as imagens mostram uma briga generalizada, e outra gravação o flagra correndo do lado de fora do prédio, perseguido por colegas, o que resultou em nova confusão. Ou seja: nenhum dos vídeos registra o momento que a estudante de Ciências Sociais aponta como o início das agressões dentro da sala — e que o depoimento da professora não confirma. O que dizem os vigilantes Três vigilantes que trabalhavam no IFCS na noite do episódio também foram ouvidos pela polícia, entre 1º e 2 de setembro. Douglas da Silva Nascimento, que subiu ao terceiro andar após ser avisado por um aluno de que havia uma confusão envolvendo um estudante com "dizeres nazistas" na camisa, relatou ter visto dezenas de estudantes gritando ofensas e pedindo que o colega fosse expulso do local. Segundo ele, Deivid estava exaltado e dizia já ter dado voz de prisão a Diego.
Douglas afirma que tentou, ao lado da professora, acalmar os ânimos e esclarecer que Diego não era nazista, mas que a agressão começou assim que o grupo o levou para fora da sala, intensificando-se nas escadas e se prolongando até a área externa do prédio e a praça em frente à instituição. Além disso, o vigilante reconheceu, entre os que cercavam Diego, o aluno Marcus Vinicius Rodrigues da Silva, também alterado, e afirmou que em nenhum momento viu Diego insultar alguém. Para ele, o estudante "somente se defendeu, não agredindo nenhuma pessoa". Cleuber José de Almeida, que subiu ao terceiro andar com Douglas, e Marcelo Souza da Silva, que interrompeu o jantar ao ouvir uma gritaria comparável à de um estádio de futebol, deram depoimentos semelhantes. Cleuber relatou uma confusão de 40 a 50 pessoas na porta da sala, com estudantes gritando "nazista" e "fascista", e que ele e Douglas tentaram conter os ânimos e acionar os protocolos de segurança (ligar para a supervisão da empresa, para a Polícia e para a administração e direção do IFCS) enquanto viam Diego ser empurrado e agredido até a área externa da faculdade.
Marcelo, que só presenciou a parte final da confusão, viu o grupo empurrando e agredindo Diego para fora do prédio e ouviu uma aluna gritar algo como "aqui não admitimos racistas", ou "nazistas", já que não teve certeza de qual das duas palavras foi usada. Nenhum dos três vigilantes conseguiu identificar a maioria dos estudantes envolvidos, e todos relatam que a Polícia Militar só chegou ao local depois que a confusão já havia se dissipado. Sobre a investigação O caso, sob apuração da 1ª DP (Praça Mauá), desde que os vídeos da agressão viralizaram nas redes sociais, reúne versões opostas: o estudante de Direito Deivid Lima diz ter sido vítima de agressões e insultos racistas ao tentar conduzir Diego até a delegacia; já Diego nega apologia ao nazismo, sustenta que a camiseta era de uma banda punk declaradamente antinazista e alega ter sofrido tentativa de homicídio ao ser espancado por dezenas de pessoas. Até o momento, a polícia não encontrou elementos que sustentem a acusação de racismo contra o estudante de História. Segundo o relato feito por ele à polícia, Araújo só teria sido agredido após chamar Deivid Lima de "macaco". As imagens obtidas pela investigação, no entanto, mostram que ele já era agredido desde o momento em que foi retirado da sala por outros alunos. Em nota, a UFRJ informou que os docentes estão prestando os esclarecimentos solicitados pela polícia para a apuração dos fatos e que a universidade abriu uma sindicância para apurar internamente as circunstâncias do episódio.
O Globo