'Professor, em quem você vai votar?'; 'O que está acontecendo na Palestina?': noticiário desperta interesse de alunos e muda planejamento das escolas

 

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Nos últimos anos, eventos classificados como históricos ou inéditos se sucedem diante dos olhos de todos, levando até a questionamentos de como os livros de História do futuro darão conta de interpretar tanta coisa importante ocorrida num período tão curto de tempo. Nas escolas, os estudantes também já lidam com essa questão, procurando entender melhor tudo o que ouvem falar sobre a época em que vivem, das modificações no tabuleiro geopolítico às mudanças climáticas. Atentas ao interesse, muitas incrementam os conteúdos sobre atualidades, como forma de preparação de cidadãos informados e com senso crítico, e não só focadas em seu desempenho no vestibular.

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Professor de geografia da unidade da Taquara do Elite Rede de Ensino, Matheus Crivano diz que ouve cada vez mais perguntas como “Professor, por que a Rússia está atacando a Ucrânia?”, “O Trump pode invadir a Venezuela?” ou “Teremos uma Terceira Guerra Mundial?”.

— A escola tem que ser este porto seguro do aluno. Se não tirar uma dúvida comigo, ele vai tirar no TikTok ou no Instagram, em páginas que não necessariamente são confiáveis. Tenho compromisso com a confiança que os pais depositam em nós. Quando falamos de geopolítica, digo para esquecerem essa torcida de redes, que isso não é Fla-Flu. Neste ano de eleição, já sei que vão me perguntar em quem eu vou votar. Para explicar, lido com o processo histórico. E deixo para eles decidirem ou formularem as suas próprias opiniões. A escola é um organismo vivo, mas eu tenho que ter neutralidade —observa ele, que trata ainda de atualidades em outras áreas. — Quando vou dar aula de climatologia, não tem mais como não falar do que houve no Rio Grande do Sul em 2024 e o que poderia ter evitado as enchentes.

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Anualmente, Crivano vai de sala em sala para convidar os alunos a participarem da Olimpíada Brasileira de Geografia, com temas desta natureza. Ele sabe que ela é menos popular que a de Matemática, mas ainda assim consegue engajamento. Em 2025, formou dez equipes de três alunos. Quatro ganharam medalhas de prata; e duas, de bronze. Uma homenageou o professor e competiu com o nome de Crivaninhos.

—Me reúno com os alunos, fico depois da aula para estudarmos as provas anteriores. Lembro que uma medalha pode ser critério de desempate no ingresso em algumas universidades — explica.

O professor Matheus Crivano com alunos do Elite que ganharam medalha na Olimpíada Brasileira de Geografia

Divulgação/Elite

Captando este interesse e reconhecendo a importância do tema, muitas escolas fazem simulações de reuniões da ONU com seus alunos. No Centro Educacional Espaço Integrado (CEI), os estudantes recebem ainda colegas de outras instituições, além de também participarem das simulações de outras escolas, promovendo um intercâmbio de ideias ainda mais rico. Os alunos organizam o evento ao lado do professor de filosofia Leandro Santos. Ele vê o interesse pelo debate nascer ainda na sua aula, já que costuma promover dinâmicas do tipo como avaliação, analisando a argumentação dos alunos e outros critérios. Nelas, temas atuais também são debatidos, e os estudantes devem defender um lado ou outro.

— Alguns anos atrás, começou uma onda na Inglaterra de derrubarem estátuas de figuras questionáveis. Debatemos na avaliação o que se fazer com elas. Deixar em um lugar privado? Politizar esse monumento? Colocar em museu? — conta ele, que também já debateu em sala aborto e legalização da maconha. — São temas sobre os quais eles conseguem pesquisar e vão achar com facilidade argumentos favoráveis e contrários.

Alunos do CEI fazem simulações de reuniões da ONU e até visitam outros colégios para participar de suas dinâmicas

Divulgação/CEI

Para o vestibular, as atualidades são estudo indispensável, vide o peso que a redação tem no Enem, por exemplo. Mesmo fora das disciplinas que naturalmente debatem esses temas (geografia, história e redação), outras áreas têm focado nos acontecimentos que sacodem o planeta atualmente.

— As terras-raras, tão faladas hoje, são um grupo de elementos químicos que o aluno aprende em tabela periódica, estuda no dia a dia, e também ganharam força no conteúdo. Tudo está ligado a conhecimento de vida. Terras-raras têm relação com a economia do mundo — exemplifica Sand Jorge Moyses Luiz, coordenador geral pedagógico do Colégio Qi, com unidades na Barra Olímpica, no Recreio e na Freguesia.

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Sand faz reuniões com coordenadores de diferentes disciplinas, nas quais também discutem que temas merecem ser abordados em sala. Os que podem gerar polêmica também passam por ele, para alinhar bem a abordagem.

— Eu já dirigi duas escolas judaicas, por exemplo. Então imagine como o tema Israel e Palestina pode ser delicado. Não dá para esconder o assunto, mas também não é uma tarefa simples — explica ele, que pontua também critérios para um tema ser trabalhado com os alunos. — Primeiro, a relevância para a vida do ser humano e para o planeta. Segundo, ter informações confiáveis disponíveis. Formamos cidadão que transformam informação em conhecimento. O terceiro não é decisivo, mas importante: que ele seja atrativo para o aluno.

Aluno da unidade do Qi da Barra Olímpica em aula de redação

Divulgação/Qi

Tudo isso é um desafio para não se tratar superficialmente os temas, em especial os mais complexos. No Cubo Global School, o diretor da casa e professor de história Paulo Rogério Andrade lançou mão de uma dinâmica para que os alunos não tivessem uma visão simplista do conflito entre Rússia e Ucrânia.

— Este princípio pode ser aplicado a diferentes situações da atualidade. Dividimos a turma em três grupos, e cada um analisou o tema por uma perspectiva. Um fez a análise histórica, discutindo as disputas ao longo do tempo. Outro pesquisou os aspectos econômicos do conflito. E o terceiro se dedicou aos aspectos humanitários — conta.

*Esta reportagem integra o conteúdo do especial Educação publicado em 01/02 pelo GLOBO-Barra

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