Privacidade e desejo de 'virar adulto': o que leva cada vez mais brasileiros a morar sozinhos?
O Marcelo Cunha morou com os pais, depois dividiu o apartamento com a namorada, mas em 2024 percebeu que era a hora de ter o próprio espaço.
A decisão veio principalmente por causa do trabalho. O Marcelo é engenheiro de projetos e precisa de silêncio para fazer reuniões online e também de liberdade para gravar conteúdos para a internet.
'Por conta da quantidade de reuniões que eu tinha no trabalho e por eu gravar conteúdo para a internet, precisava de privacidade. Finalizando em 2024, eu vim de fato morar sozinho e me mantenho morando sozinho pelo mesmo motivo, por questões de privacidade, para que eu possa trabalhar em sossego, em silêncio. Atualmente, acho que, de fato, o que mais preocupa um jovem de 30 anos são os custos. É tudo muito caro morar no Rio de Janeiro.'
A história do Marcelo reflete uma tendência no paÃs. Hoje, um em cada cinco domicÃlios brasileiros é ocupado por apenas uma pessoa. Segundo o IBGE, são mais de 15 milhões e meio de pessoas morando sozinhas - mais que o dobro do registrado em 2012.
Imóvel
Pixabay
E, assim como no caso do Marcelo, ter mais privacidade aparece como principal motivo para essa escolha. Uma pesquisa da empresa de monitoramento domiciliar Verisure mostra que 59,2% dos entrevistados dizem morar sozinhos por essa razão.
A vontade de experimentar uma nova rotina também está entre os fatores mais citados. Foi o que levou o designer Vitor Stenner a sair da casa dos pais. Ele queria viver essa experiência antes de dar um passo ainda maior: morar no exterior.
'Queria morar fora, e como é que eu ia morar fora do paÃs, completamente sozinho em outro lugar, sem nunca ter nem primeiro morado sozinho aqui, com rede de apoio, e ver se eu ia curtir essa vida? Eu acho que a partir de uma certa idade, todo mundo precisa morar sozinho. Quase ninguém tem dinheiro, e quando tem, tem que morar em apartamento minúsculo, que é o meu caso. Mas todo mundo deveria poder morar sozinho, porque é você ser adulto de verdade, eu acho.'
Assim como o Vitor, a arquiteta Barbara Ferraz também tinha vontade de passar por essa experiência de morar só, mas esbarrava nos custos. Afinal, isso significa arcar sozinho com despesas como aluguel, condomÃnio, contas de luz, gás, internet e ainda lidar com imprevistos.
Ela conseguiu tirar o plano do papel ao encontrar um apartamento que cabia no orçamento.
Apesar de estar satisfeita com a nova vida, afirma que a segurança virou uma preocupação.
"Cabia no meu bolso porque o apartamento era o mesmo preço de eu dividir com outra pessoa. A localização era muito boa, então achei uma ótima oportunidade, mas ao mesmo tempo foi muito difÃcil o medo de morar sozinha, o medo de ser uma mulher que mora sozinha, de alguém invadir o apartamento. Se eu passar mal, o que vai acontecer?"
Segundo a pesquisa da Verisure, a segurança da casa está entre as principais preocupações de quem mora sozinho, ao lado de questões financeiras e do medo da solidão - todas citadas por quatro em cada dez entrevistados.
Para o diretor de marketing da empresa, Rodrigo Monteiro, esse resultado chamou atenção.
"Os dados confirmaram o que a gente já imaginava, que morar sozinho é uma tendência forte, já que havia registrado um salto de 52% nos últimos 12 anos aqui no Brasil. Mas a grande surpresa foi ver que o medo das invasões, de assaltos, violência, superou as preocupações que a gente considera como clássicas, como o medo da solidão e as dificuldades financeiras."
Mesmo com os desafios, quem escolhe morar sozinho faz questão de destacar que isso não significa viver isolado. Tem gente que recebe amigos e familiares com frequência, mas há também quem encontre companhia de outras formas.
O guia de turismo Luiz Rocha, por exemplo, resolveu a questão adotando três gatas.
"Eu me mudei e comecei a morar sozinho para ter mais liberdade dentro da minha casa, de poder me vestir mais confortável e também por conta de pets. Eu morava na casa da minha mãe, que não tinha tela, não tinha proteção [porque] ela nunca se interessou em ter gatos. Eu me mudei e adotei duas gatas, agora eu tenho três."
O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves afirma que a decisão de morar sozinho faz parte de mudanças mais amplas na sociedade, como a flexibilização do casamento, a queda na natalidade e o avanço da urbanização.
'Antigamente, o casamento era quase universal. A sociedade cobrava. Isso vem mudando. O casamento não é mais uma coisa que todo mundo vai seguir esse padrão. A maioria ainda segue, mas cada vez mais tem um número muito grande de pessoas que não estão casando e que não estão tendo filho.'
Independentemente do motivo, só nos últimos 13 anos, mais de 8 milhões de brasileiros passaram a morar sozinhos - e a tendência, segundo especialistas, é que esse número aumente cada vez mais.
