Priscilla Rozenbaum estreia peça inspirada em Godard e relembra casamento com Domingos Oliveira: 'Não tem como ele não estar comigo'

 

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No clássico "O demônio das onze horas", filme de Jean-Luc Godard (1930-2022) lançado em 1965, Jean-Paul Belmondo e Anna Karina vivem Ferdinand e Marianne, dois amantes na casa dos 30 anos que embarcam numa viagem de fuga em busca de uma vida com mais sentido. Em "Coração na boca", peça inspirada na obra que estreia nesta sexta-feira (13) no CCBB do Rio de Janeiro, Priscilla Rozenbaum e José Karini interpretam um casal de 60 anos que, a partir do filme, debate sobre pulsão de vida, liberdade e maturidade, e se questiona até quando é possível viver com prazer.

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Com dramaturgia assinada pelos atores junto do diretor Felipe Vidal, o espetáculo se apropria do estilo de narrativa fragmentada característica da Nouvelle Vague para mesclar elementos da vida e da obra de Godard às histórias dos próprios atores, além de outras referências.

— O Godard lia umas coisas, copiava e metia nos filmes. A gente fez com a obra dele o que ele fazia com a dos outros. Pegamos toda a filosofia do Godard e misturamos, usando como base o "Pierrot le fou" [título original de "O demônio das onze horas"] — explica Priscilla.

José Karini e Priscilla Rozenbaum em cena de "Coração na boca", em cartaz no CCBB

Divulgação/Dalton Valério

Sem se propor a adaptar o longa, a peça se apropria da obra e das discursões filosófico-existenciais levantadas pelo cineasta suíço para debater sobre amor, desejo e propósito a partir do ponto de vista dos atores. Numa narrativa não linear, Ferdinand, Marianne, Priscilla, José e o próprio Godard são personas que se alternam junto a um caldeirão de referências a artistas contemporâneos do diretor, de Domingos Oliveira (1936-2019), dramaturgo, cineasta e marido de Priscilla, ao poeta e letrista Antônio Cícero (1945-2024).

— Tem uma referência ao Domingos muito forte na peça, além de um poema dele. Foram 38 anos de parceria no teatro e no cinema, escrevendo e dirigindo juntos. Não tem como ele não estar comigo no palco — conta a atriz. — E ele era totalmente da geração do Godard. Dizia que Truffaut o ensinou a botar músicas românticas em cenas cotidianas e que Godard o ensinou que a vida é descontínua, assim como o corte deve ser no cinema.

Em defesa do bem viver

Idealizador do espetáculo, José Karini conta que o desejo de montar a peça veio de uma intuição enquanto assistia a "O demônio das onze horas".

— Percebi que a Pri tem um lugar de atriz que orna muito com a Anna Karina. E a partir dali pensei que poderia ser um projeto interessante para fazermos juntos. A gente está muito colocado na narrativa. Nossa forma de pensar a vida, a arte, o teatro, o cinema, tudo nosso está em cena — diz o ator, que reencontrou a amiga na montagem.

Cena do filme "O demônio das onze horas" (1965), de Jean-Luc Godard

Divulgação

Assim como Priscilla, José conta que aspectos de sua vida pessoal, como a morte recente do pai, atravessam a encenação e a construção da dramaturgia. No entanto, o foco está menos nas histórias pessoais de cada um e mais nas discussões abrangentes que a montagem levanta.

— A partir dessa premissa de ter atores na faixa dos 60 com personagens de 30, surge uma discussão sobre o tempo, a vida, a existência. Quanto tempo a gente mantém o coração na boca, como fazer isso e até quando conseguimos fazê-lo de fato. Para além de trazer algo de suas histórias pessoais, eles [Priscilla e José] se colocam como pessoas a favor da vida, da euforia de viver — comenta o diretor Felipe Vidal.

Para José, a montagem é também uma oportunidade de entrar no debate urgente sobre o etarismo:

— A peça é uma forma de reafirmar a possibilidade de se ter uma vida potente aos 60 anos. Isso trazendo o contexto e a filosofia dos anos 1960. O 60 está muito presente nesse nosso caleidoscópio.

Provando que o discurso do elenco está alinhado à realidade, Priscilla finaliza:

— Eu só consigo viver com coração na boca. No dia que eu não tiver mais o coração na boca eu não sei... Encaro a vida por este motor. Costumo brincar que, para mim, as segundas-feiras nunca chegam.

Serviço

Onde: CCBB, Centro.

Quando: de 13 de março a 26 de abril.

Que horas: qui a sáb, às 19h; dom, às 18h.

Quanto: R$ 30.

Classificação: 14 anos.