Para quem mora em Botafogo ou precisa passar pelo bairro, atravessar a região nos horários de pico pode exigir paciência.
Na saída das escolas, em ruas de grande circulação ou no caminho para casa depois do trabalho, moradores relatam retenções que transformam trajetos curtos em longas esperas.
A percepção aparece no resultado de uma enquete promovida pelo GLOBO semana passada: o trânsito foi escolhido como o principal problema do bairro, com 44,12% dos votos, mais que o dobro do segundo colocado, roubos e furtos em ruas e estabelecimentos comerciais, com 21,50%.
Outros problemas votados foram população em situação de rua (16,75%), ocupação irregular de calçadas (6,20%), barulho provocado por bares e restaurantes (5,07%), pouca iluminação pública (3,30%) e cobertura vegetal (3,06%).
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Para entender o que está por trás dos congestionamentos e quais medidas poderiam melhorar a circulação, O GLOBO-Zona Sul ouviu moradores, representantes da associação do bairro e especialistas em urbanismo e mobilidade.
Para a presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab), Regina Chiaradia, os horários de entrada e saída das escolas estão entre os momentos mais críticos.
Ela cita as ruas Eduardo Guinle, Sorocaba e São Clemente:
— Se você parar ali e filmar cinco minutos, vai entender por quê.
Na São Clemente, os pais chegam a estacionar no corredor azul, prejudicando a fluidez do trânsito.
Regina defende a presença de guardas municipais nos acessos às escolas, com fiscalização sistemática e aplicação de multas a quem parar irregularmente.
Fila de carros se forma na Rua Eduardo Guinle para acessar uma escola, dificultando a passagem dos ônibus
Arquivo pessoal/Maria Vitória Cantidiano
Morador de Botafogo, o administrador Igor Lourenço também aponta a rotina escolar como um dos principais gargalos.
Segundo ele, carros que buscam alunos ocupam a faixa do BRS e às vezes bloqueiam cruzamentos.
Ele critica ainda a parada irregular de veículos na Rua Voluntários da Pátria.
— Ao ocupar a faixa de ônibus, alguns cruzamentos são fechados, e assim temos um efeito cascata que se reflete em todo o bairro — afirma.
Lourenço propõe que as escolas adotem alternativas para embarque e desembarque, como áreas internas, ruas adjacentes e horários escalonados.
Professora do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (Prourb) da UFRJ, a urbanista Fabiana Izaga explica que a localização e o crescimento de Botafogo ajudam a entender a pressão sobre as ruas.
O bairro reúne moradia, comércio, serviços, educação e lazer e também concentra fluxos de passagem para outras áreas da Zona Sul.
Segundo ela, as ruas São Clemente e Voluntários da Pátria formam importantes eixos de circulação, enquanto a estação de metrô de Botafogo tem papel estratégico.
— A prioridade ao transporte público sobre trilhos permitiria reduzir a presença do automóvel particular e dos ônibus e, ao mesmo tempo, redistribuir o espaço viário em favor dos pedestres — diz.
Urbanista e analista de mobilidade urbana, além de moradora de Botafogo, Cléo Nicolau Adário Lima Nascimento também defende a priorização do transporte público.
Ela observa que as faixas do BRS no bairro não são segregadas, o que gera conflitos entre ônibus, carros, bicicletas e motos.
— Se houvesse pontos de priorização semafórica para esses modos de transporte, já contribuiria para uma melhor fluidez do trânsito — opina.
Cléo também defende rever vagas de estacionamento para ampliar calçadas e a infraestrutura cicloviária, além de organizar áreas de carga e descarga e espaços para embarque e desembarque de táxis e aplicativos.
Sinais inteligentes também são apontados como alternativa.
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Para o advogado especialista em trânsito Márcio Dias, a própria configuração das ruas contribui para os congestionamentos.
Ele destaca a Voluntários da Pátria e a Mena Barreto, que recebem fluxo intenso de veículos por funcionarem como caminhos de ligação entre diferentes pontos da região.
— As vias são estreitas e recebem um fluxo muito grande de veículos.
O melhor cenário é investir em transporte público e aliviar os gargalos, como embarque e desembarque, e na sincronização dos sinais — afirma.
Além dos problemas apontados pelos especialistas, moradores relatam situações específicas que dificultam a circulação.
Moradora e responsável pela página no Instagram @ViverBotafogo, Cris Costa conta que recebe reclamações de diferentes pontos do bairro.
Entre elas, a parada de táxis e carros de aplicativos na Voluntários da Pátria e no entorno de um ponto de ônibus próximo a um shopping.
— O ponto de ônibus está sendo diariamente invadido por motoristas de aplicativos e táxi, obrigando ônibus a pararem longe da calçada e pessoas idosas e crianças a se arriscarem para subir no transporte público — relata.
Cris também diz receber queixas sobre a Rua Muniz Barreto após a implantação da ciclofaixa.
Uma das propostas para ampliar as alternativas de transporte é a expansão do VLT ou de VLP até Botafogo.
A Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar) informa que a medida segue em fase de estudos.
A prefeitura afirma que os locais apontados pelos moradores estão devidamente sinalizados conforme o Código de Trânsito Brasileiro e as resoluções do Conselho Nacional de Trânsito.
O trecho da Voluntários da Pátria citado conta com fiscalização por videomonitoramento, acrescenta.
Ainda segundo o município, este ano a Guarda Municipal já aplicou 9.470 multas por infrações de trânsito em Botafogo, incluindo estacionamento irregular, e o bairro é contemplado pela Operação Volta às Aulas.
Em agosto, lembra, uma operação conjunta de Secretaria de Ordem Pública, Guarda Municipal e Subprefeitura da Zona Sul apreendeu 78 cones usados para reservar irregularmente vagas públicas no bairro e também no Flamengo e no Catete.
Sobre a Rua Muniz Barreto, a prefeitura afirma que o estacionamento foi deslocado para junto da pista, mantendo a mesma oferta de vagas e as duas faixas de circulação.
A CET-Rio monitora a via desde maio e realiza intervenções corretivas quando necessário.
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