O principal terminal de exportação de petróleo do Cazaquistão foi fechado nesta quinta-feira, pela terceira vez no mês, suspendendo o carregamento de navios após drones ucranianos atingirem duas embarcações no local e nas proximidades do porto russo de Novorossiyk.
O Consórcio do Oleoduto do Cáspio (CPC, na sigla em inglês), proprietário do terminal e do oleoduto que transporta petróleo cazaque através da Rússia até o Mar Negro, fez o anúncio apenas dois dias depois da retomada do carregamento de petroleiros no local, após uma suspensão de uma semana.
As repetidas interrupções na infraestrutura do CPC, responsável por 80% das exportações de petróleo do Cazaquistão, evidenciam a crescente ameaça que a guerra da Rússia na Ucrânia representa aos interesses econômicos do país, , bem como aos das gigantes americanas Chevron e Exxon, que possuem grandes investimentos no Cazaquistão.
As suspensões anteriores de carregamento para exportação obrigaram o país da Ásia Central, um dos dez maiores exportadores de petróleo do grupo Opep+, a reduzir temporariamente sua produção, já que não dispõe de uma rota alternativa simples para enviar seu petróleo aos mercados internacionais.
No incidente mais recente, o CPC informou que dois navios petroleiros — o Nissos Sifnos, de bandeira das Ilhas Marshall, e o Marathi, de bandeira da Ilha de Man — foram atacados por drones ucranianos durante a madrugada, provocando um incêndio no Nissos Sifnos.
Segundo o consórcio, o Nissos Sifnos foi atingido enquanto carregava petróleo no terminal do CPC.
O Ministério da Energia do Cazaquistão confirmou os ataques, embora não tenha apontado a Ucrânia como responsável.
As forças de drones da Ucrânia afirmaram ter atingido quatro navios petroleiros russos nos mares Negro e de Azov durante a madrugada, mas não especificaram onde ocorreram os ataques.
Pelo menos cinco navios petroleiros que anteriormente indicavam o terminal do CPC como destino mudaram sua rota para a Turquia, a Espanha ou passaram ao status de "for orders" ("aguardando instruções"), segundo dados de navegação da LSEG analisados pela Reuters nesta quinta-feira.
O Cazaquistão condenou ataques anteriores que afetaram instalações do CPC, enquanto Kiev os defendeu como parte de sua campanha contra infraestruturas que sustentam o esforço de guerra da Rússia, afirmando que suas ações não têm como alvo o Cazaquistão, cujo petróleo constitui a maior parte da carga transportada pelo consórcio.
Com cerca de 20 milhões de habitantes e compartilhando com a Rússia a mais longa fronteira terrestre do mundo, o Cazaquistão é a maior economia da Ásia Central e um importante produtor de energia e minerais, responsável por cerca de 2% da oferta mundial diária de petróleo.
A maior parte de suas exportações é destinada à Europa.
Assim como em outros países da Ásia Central, a guerra provocou choques inflacionários periódicos, mas também impulsionou um rápido crescimento econômico devido ao redirecionamento de rotas comerciais pelo Cazaquistão, cujo principal parceiro comercial continua sendo a Rússia.
O oleoduto do CPC, com 1.510 quilômetros de extensão, é um dos mais longos do mundo.
Sua construção começou em 1999, e empresas americanas, incluindo Chevron e Exxon, responderam por quase metade dos US$ 2,6 bilhões investidos no projeto, que liga o gigantesco campo petrolífero de Tengiz, no Cazaquistão, à costa russa do Mar Negro.
Na época, o governo americano saudou o projeto como uma demonstração de que EUA, Rússia e os países da Ásia Central cooperavam para promover prosperidade e estabilidade na região.
Os maiores acionistas do consórcio são a russa Transneft, a cazaque KazMunayGas e a americana Chevron.
O ministro da Energia do Cazaquistão, Yerlan Akkenzhenov, reuniu-se com a embaixadora dos EUA, Julie Stufft, em um encontro no qual foi dada "atenção especial" à segurança energética regional, ao funcionamento confiável da infraestrutura de exportação e à estabilidade do abastecimento dos mercados globais, informou o ministério nesta quinta-feira.
Na quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Cazaquistão informou que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, conversou por telefone com seu homólogo cazaque, Yermek Kosherbayev, ocasião em que discutiram a situação do CPC.
As alternativas do Cazaquistão ao CPC — rumo ao oeste, atravessando o Mar Cáspio até o Azerbaijão e depois à Turquia, ou rumo ao leste, por oleodutos até a China — são limitadas por restrições de capacidade.
Equilíbrio delicado
Nos últimos quatro anos e meio, o Cazaquistão vem mantendo um delicado equilíbrio diplomático em relação à guerra na Ucrânia: recusa-se a apoiar a Rússia, apesar de ser formalmente sua aliada, mas também condena os ataques ucranianos contra a infraestrutura do CPC.
Em uma reunião com o presidente russo, Vladimir Putin, no último fim de semana, o presidente cazaque, Kassym-Jomart Tokayev, sugeriu publicamente que Putin "congelasse" a guerra na Ucrânia e buscasse negociações de paz, proposta posteriormente rejeitada pelo Kremlin.
Na mais recente conversa divulgada entre Tokayev e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, em agosto de 2025, o líder cazaque reiterou o apoio do país à integridade territorial da Ucrânia, mas aconselhou Zelensky a aceitar um acordo de paz com a Rússia, afirmando: "Uma paz ruim é melhor do que uma boa guerra."
