Principal acusado pelo movimento Me Too, produtor Harvey Weinstein diz que prisão é 'um inferno' e nega crimes em primeira entrevista atrás das grades
Em sua primeira grande entrevista desde que foi preso, o produtor de cinema Harvey Weinstein afirmou que a vida na prisão de Rikers Island, em Nova York, é “um inferno” e negou ter cometido agressões sexuais, apesar das condenações judiciais e das acusações feitas por quase cem mulheres ao longo dos últimos anos.
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Em conversa com o jornalista Maer Roshan, da revista Hollywood Reporter, Weinstein reconheceu que teve um comportamento inadequado em relação a mulheres e que usou seu poder de forma arrogante, mas insistiu que não cometeu crimes.
O produtor Harvey Weinstein entra na Corte Criminal de NY; Na foto, de gravata branca, o seu RP Juda Engelmayer
Scott Heins/Getty Images/AFP
“Acho que tentei ser sedutor e fui longe demais. Foi constrangedor e patético”, afirmou. “Flirts excessivos, situações ridículas. Mau comportamento e estúpido. Sim. Mas não empurrei ninguém. Não forcei ninguém fisicamente.”
Principal acusado pelo movimento #MeToo, que expôs casos de assédio e agressão sexual cometidos por homens em posições de poder em Hollywood, o produtor cumpre penas relacionadas a processos em Nova York e Los Angeles pelos crimes de estupro e abuso sexual. A primeira condenação, de 2020, que resultou em 23 anos de prisão, foi anulada em 2024 por questões processuais, mas um novo julgamento em 2025 terminou com um veredito misto. Em 2023, ele recebeu outra sentença de 16 anos por estupro e outros crimes após julgamento com júri em Los Angeles, que deve ser cumprida de forma consecutiva.
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Aos 73 anos — prestes a completar 74 — Weinstein diz temer morrer atrás das grades. “É inacreditável que, com a vida que tive e tudo o que fiz pela sociedade, não tenham a clemência de me tratar com mais benevolência”, disse. “Seja o que for que achem que eu tenha feito de errado na vida, não recebi a pena de morte. Vou fazer 74 anos em março. Não quero morrer aqui.”
Vida isolada na prisão
O produtor afirma viver praticamente isolado em uma ala médica de Rikers Island devido a problemas de saúde — entre eles diabetes, câncer na medula óssea e uma cirurgia cardíaca recente. A estenose espinal o mantém em cadeira de rodas na maior parte do tempo.
“Passo quase todo o meu tempo na cela. Às vezes, saio na cadeira de rodas só para apanhar ar, mas é apenas meia hora. Estou na cela 23 horas por dia. Não tenho qualquer contacto humano para além dos guardas”, relatou.
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Segundo Weinstein, a notoriedade o torna alvo dentro da prisão. “Outros reclusos podem ir para o pátio. Mas cada vez que estou lá fora, sinto-me sitiado. Vêm ter comigo e dizem: ‘Weinstein, dá-me dinheiro’. ‘Weinstein, dê-me o seu advogado’.”
Harvey Weinstein chega a Corte Criminal de Manhattan, em 2020
Johannes EISELE / AFP
Ele contou também que já foi agredido por outro detento. “Uma vez, enquanto esperava para usar o telefone, perguntei ao rapaz à minha frente se já tinha terminado. Levantou-se e deu-me um soco forte no rosto. Caí no chão, a sangrar por todo o lado.”
O produtor afirmou que sobrevive na prisão com leituras, ligações telefônicas para três de seus filhos e acompanhando notícias de Hollywood. Em um tablet fornecido aos detentos, também assiste a filmes — inclusive produções que ajudou a lançar.
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Defesa e acusações
Desde que as primeiras denúncias vieram a público, em 2017, quase 100 mulheres acusaram Weinstein de conduta sexual imprópria, o que desencadeou uma série de processos civis e criminais e ajudou a impulsionar o movimento global #MeToo.
O produtor, porém, insiste que as acusações são falsas e motivadas por dinheiro. “O que eu estava a fazer de errado não era agressão sexual. Era trair a minha mulher. Eu estava desesperado para manter este segredo dela”, disse.
Ele também negou ter retaliado contra mulheres que rejeitaram avanços. “Sim, houve um desequilíbrio de poder. Sei que posso ser assustador e difícil. Mas isso ainda está muito longe de ser um assédio sexual.”
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Weinstein afirmou ainda que pediu desculpas de forma geral às mulheres com quem se envolveu, mas não por agressão. “Peço desculpa àquelas mulheres. Sinto muito. Não me deveria ter envolvido com elas desde o início. Eu enganei-as. (...) Traí as minhas duas esposas. Isso é imoral. Mas eu não as agredi.”
Legado e arrependimento
Ao refletir sobre sua trajetória, Weinstein disse que gostaria de ser lembrado pelos filmes que produziu, especialmente “Pulp Fiction” e “Shakespeare Apaixonado”.
“Foram os filmes mais icónicos que fiz. Representam os meus dois lados. ‘Shakespeare Apaixonado’ representa todos os filmes de época; ‘Pulp Fiction’ representa todos os filmes cool”, afirmou.
Apesar disso, reconheceu que sua reputação provavelmente ficará marcada pelo escândalo. “Espero que seja pelos meus filmes. Mas não sei. Provavelmente não.”
Na entrevista, Weinstein afirmou que, se pudesse voltar no tempo, escolheria uma vida diferente. “Todos os Óscares e os grandes filmes — ainda me orgulho muito deles. Mas de que me servem agora? Se pudesse fazer tudo de novo, trocava esta ideia sem pensar duas vezes. Uma vida longe dos holofotes, a criar os meus filhos e a estar com a minha família — essa teria sido uma vida muito melhor.”
