'Princesa da Coreia do Norte': como a construção da imagem da filha de Kim Jong-un dá pistas sobre a sucessão no regime
Em setembro do ano passado, durante viagem do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, à China, uma das passageiras do trem blindado rivalizou em atenção com o “querido e respeitado marechal”: Kim Ju-ae, sua filha de cerca de 13 anos, e que teria, de acordo com a inteligência da Coreia do Sul, sido escolhida sua sucessora. Um processo que não foi consolidado oficialmente e que passa por uma minuciosa construção de sua imagem pública ao longo do tempo.
País tem cerca de 60 ogivas: Agência de Energia Atômica da ONU alerta para aumento 'muito significativo' na capacidade nuclear da Coreia do Norte
Tensão na Ásia: Coreia do Sul acusa Coreia do Norte de lançar cerca de dez mísseis não identificados em direção ao Mar do Japão
A primeira aparição da provável sucessora foi em 2022, em foto ao lado do Kim Jong-un, usando um casaco estiloso branco. A imagem evocou o sentimento de afeto entre pai e filha, e ao fundo, trazia um dos mísseis balísticos testados naquele dia. No ano seguinte, usando um casaco de frio com gola de pele, acompanhou exercícios militares. Em Pequim e eventos internos, vestiu ternos formais, similares aos da mãe, Ri Sol-ju. Itens de alta costura, de marcas como Dior, são observados com frequência, assim como peças com transparências, ditadas como “antissocialistas” aos cidadãos comuns.
— Como Ju-ae ainda é muito jovem, sua idade pode ser vista como uma possível fraqueza para uma futura líder. Parece que o regime a está vestindo com roupas formais semelhantes às usadas por sua mãe como forma de mascarar sua juventude e projetar uma imagem mais madura — disse Cheong Seong-chang, vice-diretor do Instituto Sejong, em entrevista ao serviço coreano da rede BBC.
Primeira aparição pública de Kim Ju-ae, segunda filha de Kim Jong-un, em 18 de novembro de 2022
Agência Central de Notícias da Coreia
Gradualmente, outro modelo passou a integrar seu vestuário: as jaquetas de couro, também preferidas de seu pai. Ela foi vista com essas peças quando realizou disparos com rifle, em fevereiro, e quando dirigiu um tanque, em março, dentre outras ocasiões. Uma escolha que já determina seu status.
— Usar roupas de couro de alta qualidade é uma forma de ostentar um status especial — diz Cheong à BBC. — Roupas de couro não são tão comuns entre os norte-coreanos. Marcas de luxo, jaquetas de couro e casacos de pele são peças preciosas que não podem ser usadas por norte-coreanos comuns.
Esta foto, tirada em 11 de março de 2026 e divulgada pela Agência Central de Notícias da Coreia do Norte (KCNA) em 12 de março de 2026, mostra o líder norte-coreano Kim Jong Un (à direita) e sua filha Kim Ju Ae (segunda à direita) inspecionando a produção de um novo tipo de pistola em uma importante fábrica de munições subordinada ao Segundo Comitê Econômico
KCNA VIA KNS / AFP
Nascida por volta de 2013, Kim Ju-ae teve a existência revelada através do ex-jogador de basquete americano Dennis Rodman que, após uma viagem à Coreia do Norte naquele ano, disse ao jornal britânico Guardian ter segurado “o bebê Ju-ae”. Seu nome jamais foi mencionado na imprensa oficial — os termos “filha respeitada” ou “querida filha” já foram usados —, tampouco sua data de nascimento.
Em 2023, um ex-agente do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul (NIS) disse ao jornal Korea Times que o nome real da adolescente seria outro, “Eun-ju, não Ju-ae”. Um relatório interno obtido pelo jornal Choson afirmou que o nome era Kim Ju-hae (em coreano, uma grande diferença fonética). Ela teria outros dois irmãos, jamais vistos ou citados em público.
— Na Coreia do Norte, falar publicamente sobre a árvore genealógica ou a genealogia do líder é proibido, e aqueles que quebram essa regra são levados para um campo de prisioneiros — afirmou ao Korea Times An Chan-il, primeiro norte-coreano a obter um doutorado na Coreia do Sul. — Proibir o acesso a informações sobre a família real faz parte da cultura do culto à personalidade. Na Coreia do Norte, as pessoas não devem falar publicamente sobre a vida pessoal de seu líder ou de seus filhos.
Esta foto, tirada em 11 de março de 2026 e divulgada pela Agência Central de Notícias da Coreia do Norte (KCNA) em 12 de março de 2026, mostra o líder norte-coreano Kim Jong Un (C) e sua filha Kim Ju Ae (centro à esquerda) inspecionando a produção de um novo tipo de pistola em uma importante fábrica de munições subordinada ao Segundo Comitê Econômico
KCNA VIA KNS / AFP
Em fevereiro, o NIS afirmou que ela havia sido escolhida como a sucessora de Kim Jong-un. Segundo o diretor da agência, Lee Jong-seok, “esse não foi um julgamento baseado em meras evidências circunstanciais, mas sim em informações de inteligência”.
— Como Kim Ju-ae tem marcado presença em vários eventos, incluindo o aniversário de fundação do Exército Popular da Coreia e sua visita ao Palácio do Sol de Kumsusan, e como foram detectados indícios de que ela expressou sua opinião sobre certas políticas de Estado, o Serviço Nacional de Inteligência acredita que ela agora está apta a ser designada como sucessora — revelou a jornalistas o deputado Lee Seong-kwen, em fevereiro.
Aliança com a Rússia: Kim Jong-un inaugura monumento em homenagem a soldados norte-coreanos mortos na guerra da Ucrânia
Especialistas alertam que o processo de transição — o terceiro desde a fundação do país — ainda não começou pra valer. A ausência das menções na imprensa é um sinal disso, assim como a falta de títulos políticos e militares. A pouca idade sugere que não há pressa. Seu avô, Kim Jong-il, tinha mais de 30 anos quando foi confirmado como sucessor de Kim Il-sung, fundador do país. Kim Jong--un. por sua vez, tinha cerca de 25 anos quando foi definido como futuro líder da Coreia do Norte.
— Kim Ju-ae só poderá ser considerada uma verdadeira sucessora quando o regime iniciar a propaganda oficial e lhe conceder títulos formais por meio dos mecanismos do partido — disse Oh Kyung-sub, do Instituto Coreano para a Unificação Nacional,ao portal NK News.
Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, e sua filha, Kim Ju-ae, caminham enquanto participam de um exercício de lançamento de míssil simulando um ataque nuclear tático no condado de Cholsan, província de North Pyongan em 19 de março de 2023
Agência Central de Notícias da Coreia do Norte (KCNA) via AFP
Há questões sobre a formação acadêmica da provável sucessora. Kim Jong-un, em seus anos de juventude, frequentou uma escola na Suíça, onde usou um nome falso, e prosseguiu seus estudos em instituições de elite na Coreia do Norte, vetadas aos cidadãos comuns. Kim Ju-ae, já conhecida pelos serviços de inteligência de vários países, deve se restringir a aulas e tutores em seu país de origem.
E está à mesa uma questão inédita na linha sucessória: como promover a ideia de que os norte-coreanos serão comandados por uma mulher, quebrando resistências culturais em um país patriarcal onde a misoginia é lugar comum. Hoje, a irmã de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, desempenha um papel importante no sistema, mas subordinada ao líder supremo, agora chamado de chefe de Estado, após mudança na Constituição anunciada na quarta-feira. Ao menos nas redes sociais de países próximos, Kim Ju-ae parece ter "roubado" da tia o título de "Princesa da Coreia do Norte", surgido em 2018.
Irmã de Kim Jong-Un, Kim Yo-Jong foi promovida e ganhou papel de destaque na diplomacia da Coreia do Norte
Odd Andersen/AFP
Apesar da diferença de quase 25 anos entre as duas, os observadores veem como pequenas as chances de disputas internas pelo poder quando Kim Jong-un não estiver mais apto a governar, citando fatores políticos, legais e, especialmente, culturais.
“A sucessão dinástica em regimes autoritários raramente favorece irmãs ou cônjuges. Na Coreia do Norte, doutrinas ideológicas como a ‘teoria da sucessão revolucionária’ e a ‘transferência geracional’ argumentam que o herdeiro deve vir da próxima geração”, escreveu Jaewoo Park, do Comitê para os Direitos Humanos na Coreia do Norte, no livro “A Última Herdeira? Kim Ju-ae”. “Kim Yo-jong, sendo da mesma geração que Kim Jong-un, não se encaixa nesse modelo.”
