Primeira viagem internacional de Delcy Rodríguez, à Colômbia, é cancelada 'devido a força maior'
A primeira visita internacional da presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, desde que assumiu o cargo, foi cancelada abruptamente nesta quinta-feira, poucas horas antes de sua chegada programada à Colômbia. O presidente colombiano, Gustavo Petro, e Rodríguez deveriam se encontrar nesta sexta-feira para discutir o crescente tráfico de drogas, bem como a compra de gás venezuelano e outras áreas de cooperação, em meio à pressão de Washington sobre ambos os governos.
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"Tudo foi cancelado", disse um funcionário do Ministério das Relações Exteriores em Bogotá à AFP, enquanto autoridades começavam a desmontar o palco montado para o encontro em uma das pontes que ligam a cidade colombiana de Cúcuta ao estado venezuelano de Táchira.
O Ministério das Relações Exteriores da Venezuela explicou em um comunicado que a reunião foi adiada "devido a força maior". "Os dois governos decidiram adiar o encontro presidencial para uma data posterior", acrescentou o ministro das Relações Exteriores, Yván Gil, no Telegram.
A ponte onde os dois líderes se encontrariam estava bloqueada para o tráfego, e tudo estava pronto para a primeira viagem internacional de Rodríguez desde a queda e captura de seu antecessor, Nicolás Maduro, em uma operação militar dos EUA em janeiro. Para Jairo Jaimes, um motorista de 63 anos que transporta passageiros na fronteira, "seria bom" se os líderes marcassem outra data para consolidar um "diálogo" entre os dois países.
"Eles precisam resolver as coisas para nós, pobres mortais, que estamos esperando que as coisas mudem", disse ele à AFP.
Uma fonte da presidência disse à AFP que o cancelamento se deu por ameaças à segurança, embora não tenha especificado se os problemas estavam do lado colombiano ou venezuelano. Numerosos grupos operam ao longo da fronteira. Grupos armados financiados pelo narcotráfico, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), o grupo guerrilheiro mais antigo do continente, com 60 anos de atividade.
Um funcionário do gabinete do governador de Norte de Santander, departamento cuja capital é Cúcuta, disse à AFP que as autoridades não receberam "nenhum tipo de alerta de segurança".
"Aliados Funcionais"
Rodríguez e Petro têm agendas diferentes com Washington, mas nenhum dos dois escapa ao escrutínio de Donald Trump, segundo especialistas consultados. Vicente Torrijos, analista político e ex-conselheiro presidencial para as relações entre Colômbia e Venezuela, disse à AFP que Trump pode estar por trás do encontro, com seu interesse em "transformar antigos adversários em aliados funcionais".
Rodríguez está promovendo reformas para reativar a indústria petrolífera e favorecer os interesses dos EUA nesse setor no país com as maiores reservas do mundo. A ex-vice-presidente de Maduro também está tentando se distanciar de aliados históricos como China, Rússia e Irã. Por outro lado, Trump exige que Petro adote uma postura mais dura contra os cartéis de cocaína. Embora tenham amenizado as diferenças durante uma reunião na Casa Branca em fevereiro, trocaram insultos e ameaças.
Petro deveria "ficar de olho", alertou o republicano, que levou Maduro à justiça nos Estados Unidos. Mais cedo, Petro e Trump conversaram por telefone por meia hora, a segunda vez desde que assumiram o cargo.
"Trump desejou boa sorte ao presidente Petro em seu encontro com a Venezuela", disse a presidência colombiana pouco antes do cancelamento.
Em campanha
O encontro marcou uma virada para Petro, cinco meses antes de deixar a presidência e iniciar sua campanha para manter a esquerda no poder. Outrora adversário de Trump e próximo de Maduro, o presidente tenta estreitar laços com o novo governo da Venezuela, cuja ascensão abalou a América Latina.
Após o encontro, Petro intensificou a luta contra o narcotráfico, depois de tentativas frustradas de negociar a paz com grupos guerrilheiros e paramilitares. O presidente tenta apaziguar Washington e manter-se fiel à sua ideologia, mesmo com a esquerda sendo a favorita nas eleições presidenciais de 31 de maio.
Inicialmente, ele chamou a prisão de Maduro de "sequestro", mas mudou de opinião depois de admitir que temia uma operação dos EUA contra ele. Durante o governo de Maduro, o crime organizado usou o território venezuelano como refúgio ao longo de sua fronteira porosa de 2.200 km, uma rota para a migração venezuelana.
