Primeira semana de Cavaliere na Prefeitura do Rio ainda segue linha de Paes, mas já indica estilo próprio

 

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Uma semana depois de assumir a Prefeitura do Rio, Eduardo Cavaliere começa o governo com traços muito próximos aos de Eduardo Paes, mas já dando sinais de que quer imprimir uma identidade própria à gestão.

Na avaliação de especialistas da área de gestão pública, esse tipo de transição tradicionalmente costuma misturar continuidade administrativa com tentativa de afirmação política, sendo esse um cenário natural.

De um lado, o novo prefeito precisa manter em andamento projetos, contratos e políticas que já estavam em curso. Até porque, esse pode ser um ativo importante para o ex-prefeito Eduardo Paes, que vai se candidatar ao governo do estado no pleito de outubro.

Do outro, Cavaliere também precisa aproveitar os primeiros meses de mandato pra mostrar comando, pra sinalizar prioridades e se apresentar à cidade como alguém que não está apenas ocupando o cargo interinamente, já que em 2028, será a vez dele disputar a eleição municipal como o cabeça de chapa, com a vantagem de já estar no cargo.

Na avaliação da coordenadora da especialização em Gestão Pública da UFRJ, Rosângela Luft, o novo prefeito pode até lançar sinais políticos importantes logo na largada, mas esbarra em limites técnicos, jurídicos e administrativos para transformar anúncios em medidas concretas.

Na análise dela, as decisões não dependem só de vontade política. Elas passam por trâmites, negociações e tempo de implementação.

​"É natural que o prefeito Eduardo Cavaliere queira marcar o seu espaço e se colocar, política e simbolicamente, como alguém que decide por conta própria, e não apenas como uma continuidade da gestão anterior. Como as decisões do poder público municipal não são apenas políticas, mas estão conectadas a processos que demandam tempo e envolvem diferentes atores — além de limites financeiros, jurídicos e técnicos —, o prefeito enfrenta limitações. No entanto, ele possui tempo suficiente para influenciar as políticas e ações do governo municipal neste período restante de gestão".

Um dos pontos que mais chamaram atenção nessa primeira semana foi a proposta de usar o Jaé também no sistema de estacionamento rotativo da cidade.

A prefeitura informou que vai apresentar em 30 dias um plano operacional para implementar a medida, que tem como objetivo substituir os talões físicos e tentar reduzir cobranças irregulares feitas por flanelinhas.

Mas a professora lembra que o contrato do Jaé foi desenhado para um escopo específico, ligado à bilhetagem digital no transporte, e que a inclusão de uma nova função exigiria ajustes formais, com discussão sobre aditivo contratual, redefinição de obrigações e reequilíbrio do acordo.

​"A ideia de estender o estacionamento rotativo para o consórcio que opera a bilhetagem digital Jaé envolve um contrato que possui, atualmente, um escopo limitado. Caso ocorra uma ampliação, será necessária uma discussão sobre aditivos contratuais, redefinição de direitos e obrigações, além do reequilíbrio do contrato. Esse não é um processo simples; envolve uma série de negociações e diversos atores. Portanto, é uma medida que precisa de debate e tempo para avançar e ser efetivamente decidida".

Rosângela Luft também apontou que um dos temas mais sensíveis desse começo de gestão segue sendo o sistema de ônibus municipais.

Segundo ela, esse é um processo herdado da administração anterior, mas que vai exigir acompanhamento e continuidade para que as mudanças prometidas realmente avancem.

A transição prevista no Sistema Rio, com substituição de empresas e novas etapas de licitação, como uma frente decisiva pra qualidade do transporte oferecido à população.

Outro ponto destacado é a Força Municipal. Para a professora, o braço armado da Guarda Municipal, com atuação mais voltada à segurança pública, já começa a ser percebida nas ruas.

Ao mesmo tempo, ela avalia que esse novo desenho ainda levanta dúvidas sobre o papel da corporação e sobre a relação dela com as demais forças de segurança que atuam na cidade.

No balanço da especialista, a primeira semana de Eduardo Cavaliere aponta mais pra uma política de continuidade, ainda que isso não signifique ausência de marca própria.