Primeira mulher comandante-geral da PM toma posse em SP
A coronel Glauce Anselmo Cavalli tomou posse nesta quarta-feira, 29, como comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP). Nomeada pelo governador Tarcísio de Freitas, ela é a primeira mulher a assumir o controle da corporação quase 200 anos depois da sua criação, em 1831.
A chegada da coronel Cavalli ao comando da PM-SP ocorre no momento em que o estado registra aumento nos casos de crimes cometidos contra mulheres, incluindo realizados por membros da polícia, como o caso da soldado Gisele Alves Santana. Ela morreu em fevereiro deste ano e o caso a princípio foi registrado como suicídio. No mês passado, seu marido, o tenente-coronel Geraldo Neto foi preso, acusado de ser o autor da morte de Gisele.
Como mostrou O GLOBO em janeiro, São Paulo registrou alta de 8,1% no número de feminicídios em 2025 em comparação com o ano anterior. Foram 266 casos, o que levou o número ao maior patamar da série histórica para esse tipo de crime no estado, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. Em 2024, tinha sido 246 casos. A alta em feminicídios é observada no país como um todo
Em seu discurso de posse, a comandante da PM disse que a violência doméstica será prioridade em sua gestão.
— A Polícia Militar está diuturnamente nas ruas do estado preservando a ordem e os casos de violência doméstica ocorrem, na maioria das vezes, em ambiente familiar, dentro das residências, longe dos olhos dos patrulheiros e das câmeras de vigilância que compõem o Muralha Paulista. A violência doméstica não é algo novo, ela sempre existiu e o estado de São Paulo, atento ao cumprimento do seu dever constitucional, por meio de ampliações de políticas públicas, em um primeiro momento demonstrou interesse em se registrar estes fatos, foram criadas as delegacias de defesa da mulher, deu ouvidos às vítimas por meio das cabines lilás. Sob meu comando, consolidaremos as cabines lilás nos centros de operações da Polícia Militar, ampliaremos o atendimento por videochamadas e abriremos os nossos quartéis para acolher estas vítimas com a implantação dos espaços em salas de operações para garantir acolhimento humanizado em todo o Estado — afirmou a comandante-geral.
Também em discurso, Tarcísio também falou sobre o fato inédito de nomear a primeira mulher para comandar a PM.
— Quase dois séculos depois (de sua fundação), a Polícia Militar de São Paulo, a Força Pública, tem uma mulher no comando, honrando o caminho aberto por 13 mulheres corajosas que ingressaram na Força Pública em 1955. Imagina, naquele tempo, elas entraram e tinham uma missão social, uma missão de fazer um amparo, a assistência, elas não iam combater o crime. Mas esse tempo mudou. Hoje a Polícia Militar conta com 11.700 mulheres, oficiais e praças, e hoje a responsável pelo combate ao crime, a grande comandante, é uma mulher. Uma mulher vai liderar o combate ao crime, e esse combate ao crime exige resposta firme do Estado, e essa resposta sempre virá — disse Tarcísio.
A oficial Glauce Cavalli estava até então na diretoria de logística da polícia. Antes disso, atuou no Comando do Policiamento de Área Metropolitana 2 (CPA/M-2), responsável por três batalhões na Zona Sul. Cavalli também chefiou a Coordenadoria de Assuntos Jurídicos do Comando-Geral e o Centro de Comunicação Social da PM, entre outras funções.
Glauce Anselmo Cavalli, de 50 anos, entrou na polícia em 1997, após se formar na Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Ela também é graduada em Direito e em educação física. Ela assume o lugar do também coronel José Augusto Coutinho, que estava no posto há um ano.
Instabilidade
A troca no comando da PM ocorre em momento de instabilidade institucional da corporação. Como também mostrou o GLOBO, o coronel José Augusto Coutinho, agora ex-comandante-geral, foi citado em uma investigação da Corregedoria da da PM. Seu nome foi mencionado em um inquérito que apura a atuação de policiais como seguranças de supostos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) ligados à empresa de ônibus Transwolff.
Segundo depoimento à Corregedoria, obtido pelo GLOBO, Coutinho tentou convencer um policial suspeito de prestar serviço de segurança para a Transwolff a permanecer na Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a tropa de elite da instituição.
De acordo com a investigação da Corregedoria, sete PMs aderiram de forma “consciente e voluntária” ao esquema e contribuíram para a “continuidade operacional das atividades empresariais utilizadas para a lavagem de capitais”. Ainda segundo a Corregedoria, além de escoltar os diretores da empresa investigada por elo com o PCC, os policiais eram pagos com notas frias.
Ao comentar o caso na semana passada, Tarcísio afirmou que Coutinho, de fato, solicitou a saída, mas sem qualquer relação com a investigação:
— Não tem nada a ver. O coronel Coutinho tem uma reputação ilibada, é uma pessoa que sempre prestou excelente serviço na Polícia Militar. Essas trocas são comuns. Eu acho que o coronel cumpriu muito bem o papel dele, a missão e a gente escolheu o coronel Glauce, que tem uma trajetória muito importante na Polícia Militar (…). Ele pediu [para sair], mas não por causa disso. É absolutamente inconsistente. Ele não tem nada a ver com esse negócio — disse.
Nesta quarta, na posse da nova comandante-geral, Tarcísio agradeceu a Coutinho e enalteceu seu trabalho, que durou cerca de um ano.
