Um sindicato que representa os trabalhadores da Micron Technology deflagrou, nesta quinta-feira, a primeira greve na história do setor de semicondutores em Taiwan. O movimento faz parte de uma disputa sobre a divisão dos lucros extraordinários obtidos com o rápido crescimento da inteligência artificial.
O sindicato, que representa os funcionários da Micron na cidade de Taoyuan (norte do país), exige que a fabricante americana de chips de memória siga o exemplo de suas concorrentes sul-coreanas, SK Hynix e Samsung Electronics, implementando um programa regular de participação nos lucros para seus colaboradores em Taiwan.
O sindicato de Taoyuan informou ao “Nikkei Asia” que a empresa não respondeu à proposta de participação nos lucros apresentada durante diversas rodadas de negociação, mediadas pelo governo municipal de Taoyuan. A greve, com duração de 24 horas, teve início às 9h (horário local) desta quinta-feira, em frente à unidade da Micron em Taoyuan.
A Micron está envolvida em negociações que já duram meses com seus funcionários nas unidades de Taoyuan e Taichung, representados por dois sindicatos distintos. Taiwan é um polo de produção fundamental para a empresa americana, respondendo por mais de 60% de sua produção de chips de memória de acesso aleatório dinâmico (DRAM).
Na quarta-feira, a Micron anunciou um acordo com o sindicato de Taichung, prevendo um aumento significativo nos salários dos funcionários. Taichung, na região central de Taiwan, é o centro de produção da Micron para memórias de alta largura de banda (HBM) — um componente essencial nos chips utilizados em computação voltada para inteligência artificial.
Além dos reajustes salariais, os funcionários passarão a receber bônus trimestrais atrelados ao desempenho financeiro da Micron — sendo 50% pagos em dinheiro e 50% em ações —, além de três dias adicionais de licença remunerada e um aumento na contribuição da empresa para os planos de previdência dos trabalhadores, segundo detalhes divulgados pela Micron nesta quinta-feira.
Essas condições serão aplicadas a todas as unidades da empresa em Taiwan. "Agradecemos aos representantes sindicais em Taoyuan pela postura racional e respeitamos seu direito legal de greve.
No entanto, continuamos em diálogo com eles e esperamos chegar a uma solução que seja benéfica para ambas as partes", afirmou Donghui Lu, vice-presidente corporativo de operações de “front-end” da Micron e chefe da Micron em Taiwan, em resposta à greve em curso. A Micron informou que calculará o orçamento para os bônus trimestrais de participação nos lucros subtraindo as despesas de capital projetadas para o trimestre seguinte do lucro líquido do trimestre atual.
Lu afirmou que é raro uma empresa multinacional realizar uma mudança tão significativa em seu sistema de bônus, classificando o fato como um avanço para todo o setor de semicondutores. "Acredito que essas negociações com os funcionários estabeleceram um exemplo positivo para o setor, demonstrando que é possível alcançar progressos significativos por meio de um diálogo construtivo e de esforços de ambas as partes", disse ele.
O principal executivo da Micron em Taiwan acrescentou que o plano de participação nos lucros seguirá, em linhas gerais, princípios alinhados à estrutura global da empresa. No entanto, a Micron aumentará sua contribuição para os fundos de previdência de seus funcionários em Taiwan, passando de 8% para 10% — a maior taxa entre todas as empresas de tecnologia taiwanesas.
A escalada das tensões entre os trabalhadores e as fabricantes de chips de memória ocorre em um cenário de escassez sem precedentes desses componentes, impulsionada pela demanda explosiva por infraestrutura voltada à inteligência artificial. Samsung, SK Hynix e Micron registraram lucros recordes nos últimos trimestres.
Os dois sindicatos que representam os trabalhadores da Micron em Taiwan registraram um aumento expressivo no número de filiados em poucos meses: de pouco mais de 100 pessoas para um total superior a 13 mil. "Os representantes da empresa disseram que nosso salário médio é superior ao praticado por outras empresas do setor, mas, veja só: nossos bônus são muito menores do que os pagos na Coreia do Sul", relatou um gerente da Micron ao “Nikkei Asia”.
"Eles [os representantes da empresa] chegaram a ressaltar que, neste ano, a companhia construiu mais cabines sanitárias para nós." Ainda não está claro qual será o impacto imediato da greve em Taoyuan sobre a produção.
As operações na unidade concentram-se, em grande parte, na fabricação de chips DRAM, enquanto a unidade de Taichung é responsável pela produção de chips HBM, além de outras capacidades avançadas de encapsulamento e testes de semicondutores. A tecnologia DRAM é a base não apenas para os chips HBM, mas também para as memórias LPDDR e DDR, que são utilizadas em aplicações de computação voltadas à inteligência artificial.
Na semana passada, a Micron inaugurou sua segunda fábrica de encapsulamento avançado em Taichung. A Micron conta com cerca de 3 mil funcionários em Taoyuan, dos quais aproximadamente 2.400 são filiados a sindicatos.
Em Taichung, a empresa emprega cerca de 12.300 pessoas, incluindo aproximadamente 11 mil membros do sindicato. Em setembro, a Micron ofereceu aos funcionários um bônus adicional de 1 milhão de dólares taiwaneses (US$ 30.700), além do pacote original, na tentativa de resolver o impasse; no entanto, isso não atendeu às demandas do sindicato por ajustes mais estruturais, como aumentos salariais e um sistema de participação nos lucros.
O presidente de Taiwan, Lai Ching-te, também declarou publicamente esperar que a Micron e seus funcionários consigam chegar a uma solução mutuamente aceitável, que beneficie tanto a empresa quanto os trabalhadores, além de favorecer o ambiente laboral em Taiwan como um todo. No início deste ano, funcionários da Taiwan Semiconductor Manufacturing Co.
(TSMC) em Taiwan também discutiram abertamente a possibilidade de sindicalização e cogitaram uma greve, em meio a um crescente descontentamento com a forma como os lucros da empresa eram distribuídos entre os colaboradores.
Valor