PRF que matou comandante da Guarda de Vitória era investigado por tentar agarrar outra agente dentro de unidade operacional
O policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, identificado como o assassino da comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, já era alvo de uma apuração por tentar agarrar uma colega de farda. A mulher denunciou o caso à PolÃcia Rodoviária Federal (PRF) no ano passado, quando os dois trabalhavam juntos no municÃpio de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.
Em nota, a Corregedoria da corporação confirmou ao GLOBO que abriu um procedimento investigativo e adotou medidas administrativas para manter o distanciamento entre os dois agentes no ambiente de trabalho. "A apuração, que poderia resultar na demissão do servidor, está em fase final de conclusão", acrescentou a PRF.
Detalhes da denúncia foram obtidos pela TV Vitória/Record. Os dois estavam em serviço quando foram a uma Unidade Operacional (UOP) a 50 quilômetros da base onde eram lotados. Diego disse que usaria o banheiro do local e não respondeu contatos da colega por WhatsApp. Tempos depois, o policial pediu que a mulher entrasse na UOP para buscá-lo. Dentro da unidade, a mulher encontrou Diego já sem o colete da PRF. Ele, então, tentou agarrá-la.
— E ele veio tentando me beijar. Eu botava a mão na frente da boca dele e falava 'Diego, eu não quero' — relatou.
Ainda de acordo com a denúncia, Diego tentou arrastar a mulher para um banheiro e tirou o cinto de guarnição dela enquanto ela dizia repetidamente para que os dois fossem embora. Ela conseguiu sair do banheiro, mas foi seguida pelo policial, que a teria imprensado contra a parede e tentado tirar o cinto da calça dela enquanto tentava beijá-la e passava as mãos por seu corpo. A vÃtima ameaçou atingir Diego com a chave da viatura, que estava em seu bolso.
— Eu falei para ele: 'Diego, eu vou furar você, porque vou precisar furar você para isso parar. Para com isso'. Aà ele se transtornou ainda mais, transformou o semblante dele. Como se tivesse ficado revoltado com aquilo. Ele meteu a mão na minha perna, na minha bunda — contou.
A mulher destacou que Diego só parou quando ela disse claramente que aquilo era uma tentativa de crime.
— Porque ele tentava abrir [a minha calça], eu colocava a mão, e ele tirava a minha mão de novo. Eu falei assim: 'Diego, para com isso, isso é estupro. Você vai me estuprar aqui?'. Foi nesse momento que ele parou — recordou.
Na sequência, os dois foram embora. A mulher disse ter entrado em contato com o chefe do departamento logo depois. Diego atuava em Campos dos Goytacazes desde 2020.
Autor de feminicÃdio
Na madrugada desta segunda-feira (23), Diego matou a ex-namorada Dayse Barbosa e, em seguida, tirou a própria vida. Titular da Delegacia de HomicÃdios e Proteção à Mulher, a delegada Raffaella Aguiar afirmou que Diego agia de forma controladora e não aceitava o fim do relacionamento com a comandante da Guarda.
O crime foi cometido na casa da vÃtima, no bairro CaratoÃra, na capital capixaba. Dayse foi baleada na cabeça. Raffaella Aguiar, que presidirá o inquérito, destacou que a comandante não registrou ocorrências contra Diego nem relatou situações a colegas de farda. No entanto, após a morte, a polÃcia recebeu relatos sobre o comportamento abusivo do PRF na relação.
— As primeiras informações são de que ele não aceitava o fim do relacionamento. Não tinha nada formalizado. Agora, depois que aconteceu o crime, começaram as pessoas a comentar que ele era ciumento, possessivo, extremamente controlador. É importante para que outras mulheres percebam que a violência não começa naquele momento do disparo que ceifou a vida dela. A violência começa naquele primeiro controle — disse.
Como exemplo, a investigadora destacou que as mulheres devem ficar atentas a tentativas de controle de "você não vai sair com essa roupa", "você não vai conversar com fulano", entre outras situações.
— Você tem que perceber que aquele ato de você perceber essa violência e procurar ajuda não é um ato de fraqueza, mas um ato de coragem. Se ela tivesse buscado ajuda antes, até mesmo com os amigos dela da Guarda, talvez não terÃamos chegar a esse fim fatÃdico — destacou Raffaela.
Segundo a delegada, os vestÃgios colhidos na cena do crime sugerem que ele planejou o ato.
— Ele levou ferramentas para romper a porta, levou uma escada. Ele arrombou a porta da casa dela. Então nisso tudo você vê um planejamento para que ele pudesse matá-la — acrescentou.
Em entrevista à TV Tribuna/Band, o pai de Dayse, Carlos Roberto Trindade Teixeira, disse que o relacionamento da filha com Diego era marcado por discussões.
— Ele ameaçava ela. Já tinha quebrado o trinco do portão, há cerca de cinco meses, pegou a arma dela para ameaçar a Dayse. Eu consegui intervir e ele foi embora, mas o relacionamento deles era marcado por discussões e violência. Ele era uma pessoa muito temperamental. Eu aconselhava ela para terminar, mas ela não me ouvia — disse.
Segundo o pai, Diego fez ameaças cerca de dois dias antes do crime, o que levou a agente a trocar as fechaduras da casa. Ele teria usado uma escada para invadir a residência.
Horas antes de ser morta, Dayse compartilhou nos stories do Instagram um vÃdeo da atriz Monica Martelli sobre a autonomia financeira das mulheres e a trajetória da independência feminina.
— Quando você tem independência financeira, você é dona da sua vida. Se você está num casamento ruim e tem dinheiro, você pega a sua mala e vai embora — diz a atriz, em trecho da gravação.
Em nota, a Prefeitura de Vitória manifestou "profundo pesar" pela morte da comandante da Guarda, cuja trajetória, segundo o poder municipal, "foi marcada por ética, dedicação, sensibilidade, coragem e compromisso com a segurança pública e o bem-estar da população".
"Profissional exemplar, Dayse Barbosa destacou-se também como por sua firme atuação na defesa dos direitos das mulheres, contribuindo de forma significativa para o enfrentamento à violência e para a construção de uma sociedade mais justa e segura. Sua partida deixa um legado de respeito, força e compromisso com o serviço público", destacou o órgão, que prestou solidariedade a parentes e amigos diante do que chamou de "perda irreparável".
A prefeitura decretou luto oficial de três dias. Pedagoga e pós-graduada em Segurança Pública Municipal, Dayse Barbosa deixa uma filha.
