Previsão de lucro da Netflix fica abaixo do esperado, presidente do conselho anuncia saída e ações despencam

 

Fonte:


A Netflix apresentou uma projeção para o segundo trimestre abaixo das expectativas dos analistas, fazendo com que suas ações despencassem cerca de 9% no pregão estendido desta quinta-feira.

A pioneira do streaming também anunciou que o presidente do conselho e cofundador Reed Hastings deixará o conselho na assembleia anual da empresa, após 29 anos, para se dedicar à filantropia e a interesses pessoais.

No trimestre atual, a Netflix prevê lucro por ação de US$ 0,78 por ação, abaixo dos US$ 0,84 projetados por Wall Street. As estimativas de receita para o segundo trimestre também foram mornas. A empresa informou que espera faturar US$ 12,57 bilhões nos três meses até junho, em comparação com estimativas de US$ 12,64 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Nos três primeiros meses do ano, a receita cresceu 16%, alcançando US$ 12,3 bilhões, acima das estimativas de US$ 12,2 bilhões. O lucro por ação foi de US$ 1,23, superando a projeção de US$ 0,76. O lucro líquido chegou a US$ 5,28 bilhões. Esse resultado foi parcialmente impulsionado por uma taxa de rescisão de US$ 2,8 bilhões paga à Netflix pela Paramount.

“São números excelentes. O que as pessoas queriam era algo ainda melhor”, disse Ross Gerber, CEO da Gerber Kawasaki Wealth and Investment Management, à Bloomberg TV. “Eles não elevaram suas projeções para o ano, o que eu acho que muitos esperavam.”

Os resultados são os primeiros desde que a Netflix desistiu de uma disputa acirrada pelo controle da Warner Bros. Discovery, em fevereiro. As ações da empresa vinham sofrendo durante o conflito de meses com a Paramount Skydance, já que investidores estavam preocupados com o nível de endividamento que a Netflix assumiria em um possível acordo.

Em carta aos acionistas, os coCEOs Ted Sarandos e Greg Peters afirmaram que a Warner Bros. “teria sido um bom acelerador para nossa estratégia, mas apenas pelo preço certo”. A Paramount adquiriu a Warner Bros. por US$ 110 bilhões, e o acordo agora passa por análise regulatória nos Estados Unidos e na Europa, além de enfrentar forte oposição em Hollywood.

Em teleconferência com investidores, Sarandos disse que o processo de negociação ensinou à empresa “muito sobre execução de negócios”. Embora fusões e aquisições continuem sendo “uma ferramenta para alcançar nossos objetivos”, ele afirmou que a decisão de sair da disputa pela Warner Bros. mostra que a empresa “manterá muita disciplina na forma como aborda esse tipo de operação”.

Em Wall Street, também havia receio de que isso fosse um sinal de que a empresa teria ficado sem novas ideias.

Agora, Wall Street busca sinais de que a Netflix consegue manter seus assinantes engajados. A administração afirmou que a retenção de clientes melhorou em todas as regiões no primeiro trimestre. A empresa aumentou os preços das assinaturas em março, elevando o plano padrão sem anúncios em US$ 2, para US$ 20 por mês.

Sarandos e Peters buscaram tranquilizar os investidores, afirmando que continuam confiantes e têm um plano para o futuro, baseado em três prioridades principais: oferecer mais conteúdo de qualidade, implementar novas tecnologias e gerar mais receita com os assinantes. A empresa pretende aumentar os gastos com programação este ano, o que ajuda a explicar por que os lucros do trimestre atual podem decepcionar.

Na teleconferência, Sarandos afirmou que a empresa planeja expandir a programação esportiva globalmente, incluindo grandes eventos como o World Baseball Classic, que gerou ganhos recordes de assinantes no Japão. Ele também disse que a empresa está em negociações para ampliar sua relação com a National Football League.

A Netflix planeja lançar ainda este mês uma experiência atualizada para dispositivos móveis, que incluirá um feed de descoberta de vídeos verticais, facilitando o engajamento dos usuários com o conteúdo. Além de filmes e séries, a empresa está investindo em videogames e podcasts.

Separadamente, a Netflix informou que a remuneração de seus coCEOs caiu no ano passado: Sarandos recebeu US$ 53,9 milhões e Peters, US$ 53,2 milhões.

A saída de Hastings marca o fim de uma era para o pioneiro do streaming. Aos 65 anos, ele forneceu o capital inicial para criar a Netflix como um serviço de envio de DVDs pelo correio e substituiu o cofundador Marc Randolph como CEO em 1999. Ele liderou a empresa durante sua disputa com a Blockbuster Video e foi o principal responsável pela transição para o streaming.

Sob a liderança de Hastings, a Netflix expandiu seus serviços para mais de 190 territórios, superando estúdios de Hollywood e se tornando a empresa de entretenimento mais valiosa do mundo. Ele deixou o cargo de CEO em janeiro de 2023, passando a função para Sarandos e Peters.

“Minha verdadeira contribuição na Netflix não foi uma única decisão; foi manter o foco na satisfação dos membros, construir uma cultura que outros pudessem herdar e aprimorar, e criar uma empresa que pudesse ser amada pelos usuários e extremamente bem-sucedida por gerações”, afirmou na carta aos acionistas.

Respondendo a uma pergunta na teleconferência de resultados, Sarandos disse que a saída de Hastings não estava relacionada à disputa pela Warner Bros.

“Desculpem se alguém estava esperando alguma intriga de bastidores”, disse Sarandos. “Reed foi um grande defensor desse acordo. Ele o apoiou junto ao conselho. “O conselho aprovou o acordo por unanimidade."