Prestes a completar 78 anos, Claudya lembra como música de 1973 foi parar na trilha de 'Velozes e furiosos 5'
Claudya nasceu no Engenho Novo (Zona Norte do Rio) e tinha um tio que morava em Santa Cruz (na Zona Oeste) e gostava de fazer saraus. Num desses, quando estava com 6 anos, ouviu do tio um pedido para cantar. Escolheu uma música que sua mãe gostava de cantar: “Maringá”, de Joubert de Carvalho.
— Quando terminei, o pessoal aplaudiu. Eu pensei: “que coisa linda é aplauso!”. Achei sensacional — recorda.
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Pode-se dizer que foi o ponto de partida de sua relação com a música, que se tornaria profissional a partir dos 17 anos. Ela celebra os 60 anos de carreira completados em 2025 com um show no Teatro Rival, na Cinelândia, neste sábado (9), às 19h30. No domingo (10), faz 78 anos de idade.
O espetáculo, que tem direção musical do genro Alexandre Vianna e no qual é acompanhada por nove músicos, se chama “Deixa eu dizer” (composição de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza) porque esta é a sua gravação mais conhecida, feita em 1973. O rapper Marcelo D2 a sampleou em 2008, unindo à sua “Desabafo”, e a faixa fez tanto sucesso que foi incluída até na trilha do filme blockbuster “Velozes e furiosos 5”. Tem mais de mais de 175 milhões de reproduções no Spotify. A versão de Claudya tem mais de 23 milhões.
— O D2 fazia um grande sucesso na época. Ele me trouxe novamente para a cena e para a nova geração. A música é fantástica, mas agradeço ao Marcelo. Virou minha música de trabalho — festeja Claudya.
Numerologia
O repertório do show é extraído dos discos que gravou nos anos 1970: “Você, Cláudia, você” (1971), “Jesus Cristo” (1971), “Deixa eu dizer” (1973), “Reza, tambor e raça” (1977) e “Pássaro emigrante” (1979). Estão na lista gravações que tiveram repercussão, como a de “Jesus Cristo” (Roberto e Erasmo Carlos) e a de “Com mais de 30” (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle).
Como dá para perceber, a inclusão do “y” no nome só aconteceu mais tarde, por sugestão de um numerólogo. E Cláudia já era um nome artístico, escolhido por ela — em alusão à estrela do cinema italiano Claudia Cardinale e porque o nome estava em alta — após considerarem que Maria das Graças não era nome de cantora.
Isso aconteceu na segunda metade da década de 1960, quando ela, já radicada em São Paulo, participou de festivais e de programas de TV como “Ensaio geral”, na TV Excelsior, com Sidney Miller, Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros.
Ao participar de “O fino da bossa”, da Record, viveu o momento que quase sepultou sua então iniciante carreira: foi praticamente humilhada pela apresentadora, Elis Regina. Ronaldo Bôscoli, que mais tarde se tornaria marido de Elis, havia concebido para Claudya o show “Quem tem medo de Elis Regina?”. A novata não topou, o título virou “Cláudia: não se aprende na escola”, mas a história se espalhou.
— Se eu falasse que não atrapalhou, estaria mentindo — diz. — Como sou muito teimosa, uma taurina teimosa, insisti. Mas tinha tudo para desistir. Tudo ficou difícil, as portas se fecharam, me colocaram numa situação que não era a que eu tinha previsto para mim: a de oportunista, que queria o lugar da Elis. Nunca quis o lugar de ninguém. Queria cantar, trabalhar e ganhar meu dinheiro. Era arrimo de família.
Ela nunca falou outra vez com Elis. Não vê problema em comentar o assunto, mas é claro que prefere falar de outras coisas. Uma delas é seu enorme sucesso em “Evita”, a versão brasileira, estreada em 1983, da ópera pop de Andrew Lloyd Webber. Interpretou a protagonista, mítica primeira-dama da Argentina, ao longo de um ano — com Mauro Mendonça, Carlos Augusto Strazzer e um grande elenco — no Teatro João Caetano, no Rio, sempre com lotação esgotada.
— “Evita” foi de suma importância na minha carreira. Avisei ao (diretor) Maurício Sherman que não era atriz. Ele me falou: “Prefiro uma cantora que não seja atriz a uma atriz que não cante” — conta ela, que não vai interpretar no show o número principal do musical, “Não chore por mim, Argentina”, porque, afinal, o repertório é apenas dos anos 1970.
Claudya já gravou discos por encomenda, mas diz se orgulhar de todos. Também já gravou músicas por exigência de produtores.
— Sempre acontece: uma música ou outra que a gente não tenha muita empatia. Mas sempre procurei fazer o melhor com elas. Ficaram muito boas — acredita.
Também considera boas as canções que compôs. Teve de enfrentar preconceitos para botá-las em discos nos anos 1970.
— Achavam que a cantora deveria ser só cantora. Eu achava isso terrível. Um produtor me disse: “Não é de bom tom você também compor. Põe pseudônimo”. Eu pus em algumas músicas — lembra.
Atualmente, o que quer mesmo é cantar, enquanto puder.
— Quero que Deus me dê essa sorte de cantar até o ponto em que ainda possa cantar. Quando não der mais, vou parar. A minha vida é o palco, a música — afirma.
Claudya está incluída na programação do festival Rock the Mountain, que acontecerá em novembro em Itaipava, na região serrana do Rio. E sonha fazer um álbum de canções inéditas, especialmente de autores de novas gerações.
