Presidente do PT critica possível classificação de CV e PCC como terroristas: 'Brasil não é puxadinho do Trump'

 

Fonte:


O presidente do PT, Edinho Silva, criticou a possibilidade de os Estados Unidos classificarem as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Em um vídeo divulgado nas redes sociais na noite desta segunda-feira, o líder partidário defendeu que a iniciativa comandada pelo presidente Donald Trump representa um risco à soberania brasileira, já que autoriza intervenções no país e a aplicação de sanções econômicas em caso de ameaça aos americanos.

Entenda: Especialistas avaliam risco à soberania nacional e impacto político interno se EUA classificarem PCC e CV como terroristas

Leia também: Governo Lula teme risco à soberania e tenta evitar que EUA classifiquem facções como PCC e CV como terroristas

Edinho direcionou sua declaração ao "povo brasileiro", como uma forma de "estabelecer a verdade" e tentar explicar "o que está por trás" da proposta. Segundo ele, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) possui alianças em diversos países na luta para acabar com o crime organizado, e "respostas simples" — como definiu a mudança de nomenclatura — não resolvem problemas "que exigem firmeza e inteligência".

— Em defesa da soberania do Brasil e da nação brasileira: o Brasil não é um puxadinho do Trump — argumentou. — Depois de 2001, quando ocorreu o ataque terrorista às Torres Gêmeas, o governo americano mudou sua legislação. Passou a estabelecer que eles podem atuar em qualquer território, em qualquer país, para enfrentar organizações terroristas, quando elas, de alguma forma, afetam seus interesses — completou.

O presidente petista lembrou das ações da Polícia Federal que culminaram na deflagração da Operação Carbono Oculto, voltada para combater um esquema bilionário de sonegação fiscal, fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis vinculado ao PCC.

Ele também lembrou da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, proposta pelo governo e aprovada na semana passada pela Câmara dos Deputados. Como 487 votos a favor do texto e apenas 15 contrários, os parlamentares endossaram, entre outras medidas, a possibilidade de que autores de crimes graves, como integrantes de facção, sejam impedidos de progredir de regime.

— Nós sabemos que o PCC e o Comando Vermelho são organizações criminosas. São traficantes que atuam no Brasil e, inclusive, em boa parte do mundo. Como são todas as organizações criminosas do mundo, inclusive as dos Estados Unidos. E é por isso que estamos tomando medidas para derrotar o PCC e o CV — afirmou Edinho. — Nós não somos um anexo dos interesses americanos.

Initial plugin text

Impacto político

Especialistas ouvidos pelo GLOBO, em reportagem divulgada nesta terça-feira, ecoaram a mesma preocupação de Edinho. Eles apontaram que a acusação de "narcoterrorismo" pode ter consequências imprevisíveis em temas de soberania nacional, além de destacaram também os desdobramentos na política interna brasileira.

No governo, há uma movimentação para convencer os Estados Unidos a ampliar a cooperação policial e de inteligência no combate ao crime organizado transnacional, numa tentativa de frear a investida de Trump. Esse será um dos principais temas a serem tratados no encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, ainda sem data definida, em Washington. O assunto foi tratado, na noite de domingo, em uma conversa telefônica entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

A iniciativa teria partido do chanceler de Lula, que estaria preocupado com a notícia de que o governo dos EUA em breve tomara uma decisão a respeito. Perguntados, interlocutores bem informados disseram que ficou combinado que "as conversas continuam".

O que muda com a classificação de organização terrorista nos EUA:

Permite ao governo americano adotar medidas legais, financeiras e operacionais específicas contra o grupo enquadrado.

Autoriza bloqueio de ativos financeiros, proibição de transações e restrições migratórias contra integrantes ou associados.

Torna crime, nos Estados Unidos, qualquer forma de apoio material ao grupo, incluindo dinheiro, treinamento, serviços ou fornecimento de equipamentos.

Amplia o uso de instrumentos de inteligência e das capacidades operacionais do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, inclusive em ações unilaterais, dependendo da forma de aplicação da legislação.