Presidente do Irã pede desculpas 'a todos afetados' por violência em protestos, sem citar papel de forças de segurança

 

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O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, fez um pedido de desculpas “todos os afetados” pela violência nos protestos contra o regime, iniciados no final do ano passado que que teriam, de acordo com grupos de defesa dos direitos humanos, deixado mais de seis mil mortos. Embora não tenha reconhecido o papel das forças de segurança na repressão, Pezeshkian se disse “envergonhado”, e pediu união em um momento de instabilidade nas ruas e de ameaça de nova ofensiva militar dos Estados Unidos.

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Em declarações no dia em que a República Islâmica marcou seu aniversário de 47 anos, o reformista Pezeshkian disse estar ciente do “grande sofrimento” sentido pela população desde o início dos distúrbios nas cidades iranianas. Ele, contudo, não mencionou a ação das forças de segurança, incluindo membros da Guarda Revolucionária, nas agressões, prisões e mortes.

— Estamos envergonhados perante o povo e temos a obrigação de auxiliar todos aqueles que foram afetados nesses incidentes. Não buscamos confronto com o povo — disse Pezeshkian, em discurso durante as celebrações, em Teerã. — Não tenho dormido muitas noites e estou muito triste por termos chegado a esta situação, mas não temos outra escolha senão ficar e reconstruir o país.

No final do ano passado, quando surgiram os primeiros protestos contra a deterioração das condições de vida, Pezeshkian adotou uma postura conciliadora, determinando que seus ministros e secretários ouvissem as demandas populares. O Irã enfrenta um cenário catastrófico, com a moeda local, o rial, derretendo diariamente, a inflação acima de 50% ao ano e um bloqueio financeiro ligado às sanções internacionais.

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Levantes centrados na economia são relativamente comuns no Irã, com episódios de violência envolvendo manifestantes e as forças de segurança. Mas neste ciclo, apesar das declarações apaziguadoras do presidente — que no sistema político local não tem tantos poderes —, o regime respondeu com uma fúria que não se via há décadas.

Segundo levantamento do serviço persa da rede BBC, foram empregados desde facões e porretes até metralhadoras de combate nas ruas. Em comunicado, a ONG Anistia Internacional acusou as autoridades ucranianas de “assassinatos ilegais em massa numa escala sem precedentes para esmagar o levante popular que exigia o fim do seu regime repressivo”, como parte de “uma repressão militarizada e coordenada para impedir novas dissidências e ocultar os seus crimes”.A agência de defesa dos direitos humanos HRANA, baseada nos EUA, estimou que mais de 6 mil pessoas morreram. Números independentes, citando autoridades locais, apontam para até 30 mil mortos.

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Nas declarações, Pezeshkian pediu união ao povo neste momento de dificuldades, talvez um dos mais delicados para a República Islâmica desde a guerra contra o Iraque, entre 1980 e 1988: enquanto fogos de artifício em homenagem ao aniversário estouravam sobre Teerã, pessoas gritavam “Morte ao Ditador” de suas janelas, um ato direcionado ao líder supremo, Ali Khamenei.

— A ferida que foi criada na sociedade é uma ferida amarga, e o trabalho do médico é curá-la. Não é aprofundá-la e infeccioná-la. Inimigos e estrangeiros estão tentando destruir nosso país — disse o presidente. — Estamos unidos em solidariedade diante de todas as conspirações contra nossa nação. Devemos continuar lado a lado.

No começo do ano, o presidente dos EUA, Donald Trump, esteve perto de lançar um ataque militar contra o Irã, como forma de “apoiar os manifestantes”, e que teria entre seus objetivos enfraquecer o regime e abrir caminho para sua queda. Trump foi dissuadido por países da região a mudar de ideia, e agora sinaliza acreditar na diplomacia.

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Representantes dos EUA e do Irã negociam os termos de um novo acordo, centrado no programa nuclear do país, e chegaram a se reunir indiretamente na semana passada, em Omã. A Casa Branca levou à mesa uma proposta ampla, que inclui a suspensão do programa nuclear, acusado de ter fins militares, limites ao programa de mísseis balísticos e o fim da rede de milícias aliadas a Teerã no Oriente Médio. Os iranianos, ao menos publicamente, dizem estar dispostos apenas a discutir o programa nuclear, e se mostraram abertos ao envio de material enriquecido ao exterior e a diluir seu urânio enriquecido.

— Se as negociações em curso com os Estados Unidos forem bem-sucedidas, poderão ser expandidas e estendidas a outras áreas também. No entanto, neste momento, não posso afirmar com certeza se esse caminho levará a negociações sobre outras disputas com os Estados Unidos ou não — afirmou o chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani, à rede al-Jazeera, durante visita ao Catar.