O presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, alertou que a inflação não está desacelerando de forma significativa e afirmou que os formuladores de política monetária precisam ter confiança de que isso está acontecendo.
Caso contrário, o banco central americano “tem trabalho a fazer”.
Após o discurso, o dólar ampliou a alta e a Bolsa passou a cair no Brasil.
A moeda americana está cotada a R$ 5,21, valorização de 1%.
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Em um discurso abrangente — o primeiro desde que assumiu a presidência do banco central dos EUA, em maio — Warsh reiterou que os formuladores de política monetária levarão a inflação de volta à meta de 2%, que, segundo ele, é uma '"meta firme e fixa'".
— Este é o meu padrão: precisamos ter confiança de que a inflação subjacente está caminhando claramente e em velocidade suficiente para o nosso objetivo.
Caso contrário, temos trabalho a fazer.
Esse é o nosso trabalho — disse Warsh na conferência anual do Fed, em Jackson Hole, Wyoming, nesta sexta-feira.
Warsh acrescentou que as condições financeiras atualmente não são restritivas e que as taxas de juros são a “principal ferramenta” do Fed para cumprir seu mandato, embora tenha evitado sinalizar que apoiaria uma alta dos juros quando as autoridades do Fed se reunirem em setembro.
— Estou aqui hoje comprometido com uma disciplina, não com uma decisão — disse ele.
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Apesar de dizer que uma decisão não está tomada, o mercado interpretou a fala de Warsh como uma sinalização de que a taxa de juros pode subir na próxima reunião do Fed, em setembro.
O consenso entre os operadores para o encontro passou de uma manutenção de juros para um aperto monetário de 0,25 ponto percentual.
A taxa está entre 3,50% e 3,75% ao ano.
Nos EUA, os juros funcionam com uma banda.
Segundo o CME FedWatch Tool, que compila dados a partir dos futuros dos Fed funds, os operadores, no momento, precificam 55,5% de chance de alta da taxa na reunião do Fed em setembro, ante 44,5% de manutenção.
Até ontem, as chances eram de 35,4% e 64,6%, respectivamente.
Títulos do Tesouro de longo prazo caem
Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos com vencimento em dois anos subiram até nove pontos-base, para 4,32%, enquanto os rendimentos dos títulos de 30 anos recuaram dois pontos-base, para 5,17% — movimentos que sinalizam uma expectativa de que o Fed talvez precise elevar as taxas de juros de curto prazo.
— O presidente Warsh deu aos mercados o que eles queriam, que eram mais detalhes sobre sua visão a respeito dos dados atuais, especialmente da inflação — disse Omair Sharif, presidente da Inflation Insights LLC.
— É claro que ele não revelou suas cartas em relação a quaisquer futuras medidas de política monetária.
Nesse sentido, isso parece ser uma situação vantajosa tanto para Warsh quanto para os mercados.
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Bloomberg
Warsh prosseguiu dizendo que, com a inflação acima de 2%, o foco predominante do Fed agora está voltado para os preços.
E deixou claro que os dados recentes não são inteiramente animadores.
— Embora os índices de PCE (que mede o consumo das famílias) e CPI (que mede a inflação) deste verão (no Hemisfério Norte) tenham vindo melhores do que o esperado, eles não me dizem que as tendências subjacentes tenham melhorado de forma significativa.
Os preços de mercado demonstram confiança de que vamos garantir a estabilidade de preços.
E posso assegurar a vocês: eles estão certos — disse Warsh.
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O Fed deverá receber os dados de inflação ao consumidor referentes a agosto em 11 de setembro, um relatório que poderá ser decisivo para a próxima reunião, marcada para os dias 15 e 16 de setembro.
Richard Clarida, ex-vice-presidente do Fed, disse à Bloomberg Television que agora todas as reuniões do Fed estão “em aberto”, o que significa que uma mudança na taxa de juros é possível.
Se os dirigentes do Fed não observarem uma melhora na inflação, acrescentou, “eles estão preparados para elevar os juros”, disse Clarida.
Nova clareza
As declarações de Warsh, muito aguardadas, ocorreram em meio a críticas à sua estratégia de comunicação mais contida, que, segundo economistas e participantes do mercado, carecia de clareza sobre as perspectivas de curto prazo para a economia e a política monetária.
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Seus comentários pareceram responder a essas preocupações, indo mais longe do que havia feito anteriormente ao apresentar sua visão sobre a economia e as prioridades de política monetária do Fed sob sua liderança.
— Vamos ser igualmente claros sobre outro aspecto do objetivo: a estabilidade de preços não acontece por si só, nem a inflação necessariamente retorna à média por conta própria.
É função do Fed garantir preços estáveis — disse ele.
A conferência anual do Fed, banco central americano, ocorre todos os anos no resort Jackson Lake Lodge, na região de Jackson Hole
David Paul Morris/Bloomberg
Os economistas estão divididos quanto à necessidade de o Fed elevar as taxas de juros nos próximos meses, em uma tentativa de conter a inflação, que continua acima da meta de 2% do banco central.
Em sua reunião de política monetária de julho, o Fed manteve as taxas de juros inalteradas.
No entanto, vários dirigentes foram favoráveis a uma alta dos juros, e muitos indicaram que um aperto da política monetária seria necessário caso a inflação não recuasse, segundo a ata da reunião.
Warsh foi amplamente criticado por seu desempenho em uma entrevista coletiva após a reunião, na qual, segundo seus críticos, não conseguiu explicar claramente a justificativa do comitê para manter as taxas inalteradas.
Ele também evitou qualquer indicação de que o comitê pudesse ter de elevar os juros nos meses seguintes e sugeriu que a meta de inflação do FOMC, o comitê de política monetária do Fed, poderia ser alterada.
Os investidores reagiram elevando os rendimentos dos títulos de prazo mais longo para o nível mais alto em quase duas décadas, um possível sinal de que a confiança no compromisso do Fed com sua meta de inflação de 2% está diminuindo.
Warsh aproveitou seu discurso para explicar sua decisão anterior de abandonar os sinais sobre a direção das taxas de juros no curto prazo, uma prática conhecida como forward guidance (orientação futura).
Segundo ele, essa estratégia pode desempenhar um papel importante durante uma crise, mas, em outras circunstâncias, pode ser enganosa para famílias e empresas.
Ele rebateu os apelos para que apresentasse explicitamente sua própria perspectiva de curto prazo para a política monetária e afirmou que os mercados precisam formar suas próprias opiniões sobre a economia.
— Eu gostaria que nossa compreensão da economia fosse tão precisa a ponto de fornecer uma resposta mecânica, testada e comprovada — afirmou Warsh.
— Mas nosso conhecimento simplesmente não chega tão longe — pelo menos ainda não — e os fatores mais relevantes para a condução adequada da política monetária mudam ao longo do tempo.
A decisão de julho marcou a quinta reunião consecutiva em que os dirigentes optaram por manter as taxas de juros inalteradas, após três cortes realizados no fim de 2025.
Desde aquela decisão, novos dados têm apontado, de modo geral, para uma desaceleração da atividade econômica, o que reduziria a pressão sobre o Fed para elevar as taxas.
As vendas no varejo caíram em julho no ritmo mais acentuado em mais de um ano, enquanto a inflação subjacente permaneceu moderada.
Ao mesmo tempo, os empregadores reduziram inesperadamente o número de postos de trabalho em julho, e os dados sobre contratações dos dois meses anteriores foram revisados para baixo.
