Presidente do Banco Central reforça 'cautela' na política de juros
Nesta segunda-feira (dia 6), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou o sinal de “cautela” na condução da política de juros, ao fazer discurso em evento na sede da Fundação Getulio Vargas (FGV).
– No BC, usei a palavra “cautela” mais vezes do que usei em toda a minha vida. Mas, no BC, a palavra cautela vem acompanhada da palavra “serenidade” – disse Galípolo, na abertura do XII Seminário Anual de Política Monetária do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), que falou sem acompanhar discurso escrito.
Segundo o banqueiro central, a menção à serenidade deve-se ao fato de que a cautela serve para “entender melhor” o cenário e tomar decisões “mais seguras”.
Cautela ajuda a enfrentar guerra, diz BC
Para Galípolo, o momento atual da política de juros se beneficia da “cautela”, porque “medidas mais cautelosas nos permitiram enfrentar” o que chamou de mais um “choque de oferta”, de 2020 para cá, “de forma mais confortável”. Segundo Galípolo, essa forma mais confortável inclui crescimento econômico “mais próximo do potencial” e taxa de câmbio comportada.
– É lógico que, de outro lado, há preocupação, decorrente de ainda termos um mercado de trabalho bastante apertado e expectativas de inflação que já estavam desancoradas. Aqui no Brasil tem um tema interessante: as expectativas estão andando (subindo) também nos horizontes mais longos, notadamente ali em 2028. Vale, para quem está aqui na academia, tentar entender um pouco quais são as razões que estão por trás de um movimento desses, num prazo um pouco mais longo, diante de um choque de oferta como esse (o efeito da guerra nas cotações do petróleo) – completou o presidente do BC.
Na semana passada, Galípolo já havia afirmado que o BC tem mantido uma posição conservadora na condução da política de juros. A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, iniciada na virada de fevereiro para março, atingiu em cheio a rota já traçada pelo BC.
Isso porque o encarecimento dos combustíveis, diante da escalada nas cotações do petróleo decorrente do conflito, pode espalhar aumentos de custos pela economia, pressão inflacionária que não estava no cenário.
Em janeiro, o BC havia sinalizado que começaria a cortar a Taxa Selic (a taxa básica de juros, hoje em 14,75% ao ano) na reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom). Os juros estão nos maiores níveis em duas décadas e contribuíram para estagnar a economia no segundo semestre do ano passado.
Com o início da nova guerra, economistas e investidores passaram a duvidar das condições para seguir com o plano anunciado em janeiro. Os preços dos combustíveis dispararam logo no início de março.
Mesmo assim, o Copom decidiu cortar a Selic, embora o corte tenha vindo menor: antes da guerra, esperava-se uma redução inicial de 0,5 ponto, mas o BC cortou a taxa básica em apenas 0,25 ponto.
A reviravolta também mudou as projeções para o ciclo de baixa como um todo. Antes da guerra, economistas estimavam que a Selic chegaria ao fim do ano em 12%, segundo o Boletim Focus, pesquisa sobre projeções que o BC faz com analistas de mercado. A edição mais recente do Focus, divulgada nesta segunda-feira, já aponta para uma Selic em 12,5% no fim do ano.
Em parte, como reação ao aumento das projeções para o IPCA, o principal índice de inflação do país, calculado pelo IBGE. Antes da guerra, as projeções apontavam para uma alta de 3,91% no índice este ano, pouco acima da meta perseguida pelo BC, de 3,5% no acumulado em 12 meses.
No Focus divulgado nesta segunda-feira, as projeções para o IPCA de 2026 já estão em 4,36%, já perto do teto da meta, que é de 4,5%, considerando a margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menor.
Arminio: e o desequilíbrio das contas?
O ex-presidente do BC Arminio Fraga, sócio da Gávea Investimentos, que também participou do seminário na FGV, ressaltou o peso da política fiscal, diante da atual perspectiva de desequilíbrio nas contas públicas.
Embora, no que se refere à política de juros, haja confiança de que o BC está estudando os cenários para a inflação e agindo “dentro da cartilha”, a economia brasileira estaria mais preparada para resistir ao choque da guerra nas cotações do petróleo se as contas públicas estivessem no azul.
– O que falta é uma política fiscal é que facilite um pouco a vida do Banco Central, e isso nós não temos tido já há um bom tempo. Em última instância, cria fragilidade, começa a afetar começa a afetar a saúde das empresas começa a afetar inclusive a própria saúde do Estado brasileiro – disse Arminio, após participar de uma mesa no seminário.
O governo brasileiro teria espaço para agir se as contas estivessem equilibradas, completou o ex-presidente do BC:
– Você tendo uma reserva de crédito, uma reserva de credibilidade que reduza os prêmios de risco, fica mais fácil.
Arminio já havia citado os desequilíbrios crônicos nas contas públicas como um dos motivos para a economia brasileira ser campeã mundial em termos de juros altos. Ao responder uma pergunta, o eocnomista ponderou que os juros são cronicamente elevados por uma série de motivos, mas “o papel do Estado, na política fiscal, no endividamento” está no “topo da lista”:
– A dificuldade de viver com prioridades, metas, disciplina de poupança, inclusive do Estado, não é um tema fácil.
