Presidente de Cuba diz que Havana está disposta a dialogar com EUA sem pressões: 'respeito à nossa soberania'
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, afirmou nesta quinta-feira que Havana está disposta a abrir um diálogo com os EUA sobre qualquer assunto, desde que sem qualquer tipo de pressão, no mais recente aceno da ilha comunista a Washington, diante dos avanços promovidos pelo governo do presidente americano, Donald Trump.
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— Cuba está disposta a dialogar com os Estados Unidos, um diálogo sobre qualquer tema que precise ser discutido — disse Díaz-Canel em um pronunciamento televisionado, acrescentando que isso deveria ocorrer "sem pressão" ou "pré-condições".
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O discurso do presidente reitera pontos que a diplomacia cubana já vinha transmitindo nos últimos dias. O vice-chanceler Carlos Fernández de Cossío repetiu durante a semana que o país estava aberto ao diálogo, embora tenha especificado que não há negociações em curso — contrariando uma fala de Trump, que chegou a afirmar que já haveria conversas em andamento.
— Não existe um diálogo especificamente neste momento, mas sim houve troca de mensagens — disse o vice-chanceler na segunda. — Sim, é verdade que houve comunicação entre os dois governos.
Em uma declaração à rede americana CNN, Cossío pareceu traçar uma "linha vermelha" para as conversas, na visão de Havana: a continuidade do regime cubano.
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— Não estamos prontos para discutir nosso sistema constitucional, assim como supomos que os EUA não estejam prontos para discutir o seu, seu sistema político e sua realidade econômica — declarou o vice-chanceler durante entrevista.
A fala coaduna com o exposto pelo presidente cubano no pronunciamento desta quinta. Díaz-Canel afirmou que as negociações poderiam acontecer com respeito aos pilares do governo cubano.
— [As negociações devem] partir de uma posição de igualdade, com respeito à nossa soberania, nossa independência, nossa autodeterminação [e sem] interferência em nossos assuntos internos — disse o presidente.
Desde o ataque americano de 3 de janeiro contra a Venezuela, no qual foi deposto o presidente Nicolás Maduro, principal aliado de Cuba, e Washington assumiu o controle do setor petroleiro venezuelano, Donald Trump tem multiplicado as ameaças contra a ilha. Além de cortar o fornecimento de petróleo venezuelano e o dinheiro de Caracas para a ilha, Trump assinou, nesta quinta-feira, um decreto que contempla a imposição de tarifas extras para países que venderem petróleo para Havana, citando razões de segurança nacional.
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Referindo-se aos EUA como "governo imperial", Díaz-Canel afirmaram que as medidas anunciadas por Trump sob justificativa de asfixiar a economia da ilha, levaram o país a um "desabastecimento agudo de combustível".
Cuba, cuja rede de energia elétrica sofre cortes de fornecimento frequentes devido à infraestrutura antiga ou à escassez de combustível, é extremamente dependente do abastecimento externo para manter suas termelétricas ativas. Um corte de energia atingiu a cidade turística de Santiago, segunda maior do país. A pressão sobre o sistema elétrico é ainda mais relevante em meio a um inverno rigoroso, que fez Havana registrar uma temperatura negativa recorde de 0ºC.
O bloqueio de combustíveis a Cuba é motivo de preocupação internacional. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, afirmou que o país corre o risco de sofrer um "colapso humanitário" se não importar petróleo para suprir suas necessidades. (Com AFP)
