Presidente da COP vê agenda do clima andando em duas frentes paralelas
Em sua primeira entrevista coletiva do ano, o presidente da COP30, a conferência do clima de Belém, se disse otimista com a agenda do clima em 2026, e diz que ela pode caminhar em duas frentes paralelas: uma na frente da diplomacia, outra de natureza mais prática.
André Corrêa do Lago, que publicou uma nova carta aberta hoje, reconheceu que há frustração pela ausência de um plano para encerrar o uso combustÃveis fósseis na decisão oficial tomada pelo encontro, mas diz que os itens já acordados pelos paÃses signatários do Acordo de Paris para o clima têm sido implementados em tempo, e podem continuar a ser.
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"A Agenda de Ação mobilizou mais de 480 iniciativas envolvendo 190 paÃses e dezenas de milhares de atores não estatais", afirmou, sem oferecer ainda uma estimativa de qual impacto essas medidas devem ter na emissão de CO2 e outros gases estufa no planeta.
Apesar de a COP30 ter sido realizada em novembro de 2025, o diplomata brasileiro segue como lÃder do corpo da Organização das Nações Unidas (ONU) que conduz a agenda do clima neste ano. Em novembro ele passa o cargo para o presidente da COP31, que será realizada na Turquia e chefiada pela Austrália.
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Corrêa do Lago diz que a COP30 teve sucesso em usar a diplomacia para avançar no combate à crise do clima, apesar da ausência dos Estados Unidos, que está se retirando do Acordo de Paris.
Na carta, ele diz ver um "multilateralismo de duas camadas", operando na agenda climática. A primeira, que requer decisões por "consenso", tem sido difÃcil de avançar por causa da conjuntura geopolÃtica desfavorável. A segunda, referente à "implementação" de decisões já tomadas, está avançado mais rápido. Segundo Corrêa do Lago, esse modo de trabalho deve se impor agora.
"Nosso regime climático evoluiu de uma máquina para um sistema vivo. E sistemas vivos não sobrevivem apenas pela harmonia, mas pela adaptação moldada por tensão e reação", escreveu. "Responder a essa pressão evolutiva não significa abandonar o multilateralismo; significa permitir que ele amadureça."
Mapa do caminho
Na entrevista, Corrêa do Lago afirmou que foi positivo o movimento paralelo de grupos de paÃses que, mesmo sem consenso na plenária da COP30, avançaram propostas importantes.
Uma dessas iniciativas, lideradas pela Colômbia e pela Holanda, resultou em um grupo de mais de 80 paÃses subscrevendo à proposta (originalmente brasileira) de criação de um "mapa do caminho" para descontinuar o uso de combustÃveis fósseis. Essa medida será discutida em um encontro diplomático paralelo em abril na cidade colombiana de Santa Marta.
— Se nós acreditamos que temos uma necessidade urgente de acelerar o que precisa ser feito para combater a mudança climática, temos que estimular essas coalizões — disse Corrêa do Lago. — Temos que promover e ajudar mais paÃses a se juntarem naquilo que, em um dado momento, vai virar um consenso.
A medida doméstica para avançar essa agenda foi um pedido do presidente Lula, ainda em dezembro, para que o governo brasileiro produza um esboço do tal "mapa do caminho". O prazo de 60 dias determinado para a construção do documento vence em 3 de fevereiro. O presidente da COP30 não deu detalhes ainda sobre o que deve estar incluÃdo nele, e diz que é uma iniciativa separada do encontro na Colômbia.
Pragmatismo diplomático
Desde que foi nomeado para o cargo, Corrêa do Lago buscou usar cartas como a divulgada hoje para liderar a agenda climática das COPs. Essa última missiva foi, de certa forma, uma maneira de prestar contas sobre os resultados do encontro.
Corrêa do Lago comemorou resultados oficiais e informais do encontro, incluindo sua proposta de um "mutirão" diplomático para avançar a agenda, atrasada, de cortes das emissões de CO2. Também. Celebrou que paÃses reiteraram seu compromisso em limitar o aquecimento da Terra a 1,5°C.
A CEO da COP30, Ana Toni, presente na entrevista, lembrou de avanços como a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e de que 120 paÃses entregaram suas promessas de corte de emissão para 2035, ainda que a maioria o tenha feito com atraso.
O que o encontro efetivamente produziu de decisões oficiais foram textos sobre planos de adaptação contra a crise do clima e de "transição justa" do sistema energético, mas nada que tratasse diretamente da agenda de mitigação das emissões gases do efeito-estufa.
Corrêa do Lago, de todo modo, reiterou que para algum avanço continuar sendo obtido, a comunidade global não pode esperar que as "condições polÃticas e socioeconômicas sejam ideais". Ele elogiou o presidente da república, mais um vez, por ter mencionado na conferência seu desejo de ver o "mapa do caminho" contra os combustÃveis fósseis.
— É inútil tentar esperar por algo que não pode acontecer seguindo as regras da COP, mas é extremamente importante ter o compromisso polÃtico de um lÃder como o presidente Lula, que foi capaz de introduzir algo que teve impacto tão grande durante a COP30 — afirmou.
