Presidente da Colômbia posa ao lado de cadáveres, e especialistas citam nova era de ‘glorificação da violência’

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Sentado a uma mesa e cercado por autoridades militares e policiais, o presidente da Colômbia, Abelardo De La Espriella, apresenta o que descreve como provas de uma operação militar bem-sucedida. À sua frente, porém, não estão apenas caixas de cocaína ou armas apreendidas. São corpos. Vestindo o mesmo verde-escuro dos militares que o acompanham, o líder colombiano aparece, em vídeo publicado na manhã de quarta-feira no X, caminhando ao lado de sacos funerários brancos que, segundo ele, contêm restos mortais de rebeldes.

Entenda: Bombardeio do governo colombiano mata 20 guerrilheiros em ataque mais letal dos últimos anos no país Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países O vídeo é uma expressão especialmente contundente de uma tática política que vem ganhando espaço nas Américas: líderes que fazem campanha em defesa da lei e da ordem recorrem a imagens de supostos criminosos como uma demonstração pública do poder do Estado. Para especialistas, as imagens refletem uma tendência regional de tratar pessoas classificadas como terroristas como inimigos que não merecem as garantias do devido processo legal.

Imagem divulgada nas redes do presidente Abelardo De La Espriella mostra fileiras de sacos funerários com os corpos de supostos rebeldes mortos em operação militar Reprodução/X Como exemplo, analistas apontam a decisão do governo do presidente americano, Donald Trump, de classificar traficantes de drogas como terroristas e os ataques militares americanos no Caribe, que mataram pelo menos 223 pessoas, como parte dessa mudança. Trump tornou públicos os vídeos de operações contra imigrantes, às vezes acompanhados de músicas populares. O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, divulgou vídeos de detentos tendo os cabelos raspados e sendo conduzidos em marcha para a prisão.

— Quando os EUA estão agindo dessa maneira, fica mais fácil para todos os outros caírem nessa armadilha comportamental — disse Elizabeth Dickinson, vice-diretora para a América Latina do International Crisis Group. — Não é apenas: ‘ele fez algo ruim’, mas ele é uma pessoa ruim e, portanto, merece qualquer punição que decidirmos aplicar. ‘Glorificação da violência’ Adam Isacson, diretor do Washington Office on Latin America, um instituto de pesquisa, disse tratar-se de uma tentativa de fazer as pessoas “se empolgarem não apenas com estatísticas sobre a taxa de homicídios, mas com essas imagens”, de maneira “quase caricatural ou semelhante à luta livre profissional, para apelar aos instintos mais básicos das pessoas”.

Crimes em alto-mar: Após 227 mortes no Caribe e no Pacífico, EUA ampliam ação antidrogas com aval de aliados Na Colômbia, porém, essas imagens têm um peso particular. Durante décadas de conflito armado, a prática dos militares de medir o sucesso pelo número de mortes entre os inimigos produziu um dos mais graves escândalos de direitos humanos do país: soldados mataram quase 8 mil civis e depois os apresentaram como guerrilheiros mortos em combate para inflar o número de baixas inimigas. O legado desse escândalo do início dos anos 2000, conhecido como “falsos positivos”, continua profundamente presente na memória do país.

— A Colômbia tem uma longa história de quase glorificação da violência e das mortes violentas de líderes criminosos — disse Dickinson. — Há um aspecto performático no que está acontecendo aqui. E isso realmente marca uma mudança e um retorno a tempos passados.

Nova era de violência Para comunidades que passaram décadas sofrendo com a violência de grupos armados e do Estado, as imagens transmitem duas mensagens: a de que o governo é capaz de derrotar criminosos, mas também a de que uma nova era de violência em massa pode estar surgindo. Espriella, político de direita apoiado por Trump, chamou a operação de “um golpe letal” contra o controle territorial do grupo e disse que ela foi a operação militar mais bem-sucedida da Colômbia nos últimos 12 anos.

— O tempo em que você podia se deslocar pela Colômbia com salvo-conduto de um governo que brincava de estátua com você acabou — afirmou, acrescentando: — A determinação de erradicá-lo, porque você é um câncer, é absoluta.

Colômbia, um dos mais acessíveis da América do Sul: Veja salários, custo de vida e como funciona a imigração facilitada para brasileiros Espriella disse que 23 pessoas foram mortas e seis foram capturadas, incluindo um líder de um grupo rebelde dissidente conhecido pelo codinome “Tigre”. Ele descreveu como o terceiro homem na hierarquia do grupo, que, afirmou, havia recrutado crianças e atacado integrantes do Exército e da Marinha durante as eleições deste ano. Uma criança recrutada, disse, foi resgatada e colocada sob os cuidados do órgão de proteção à infância do país.

Ainda segundo especialistas colombianos em segurança, as imagens divulgadas pelo mandatário visam demonstrar a abordagem de tolerância zero do governo. Para Dickinson, não é “apenas uma punição em termos da lei e ordem”, mas uma “punição moral”. O aspecto de “celebração” de suas mortes reforça, na avaliação dela, a narrativa de que este é um conflito existencial entre o bem e o mal — e torna difícil enxergar “o quanto essas imagens são poderosas”.

Em 2016, a Colômbia firmou um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o maior grupo rebelde do país, encerrando um conflito de 50 anos com a guerrilha marxista. Mas facções dissidentes que rejeitaram ou abandonaram o acordo, entre outros grupos, continuam atuando em partes do país. No auge do conflito, o governo às vezes divulgava fotografias dos corpos de importantes líderes guerrilheiros, incluindo imagens nas quais os mortos eram apresentados ao lado de altos funcionários do governo. Mas uma imagem do próprio presidente ao lado de corpos representa algo diferente, disse Jorge Restrepo, diretor do Centro de Recursos para a Análise de Conflitos, um grupo de pesquisa colombiano. As identidades dos mortos não foram divulgadas, e a operação ainda não passou pelas investigações exigidas após uma ação militar que resulte em mortes. Ao exibir os corpos como “terroristas” derrotados, disse ele, o governo eliminou as distinções entre combatentes e civis, adultos e crianças e entre usos legais e ilegais da força.

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