Presidente da Bolívia fala em teste à democracia enquanto protestos por sua renúncia entram na quarta semana
Milhares de manifestantes marcharam nesta segunda-feira em La Paz para exigir a renúncia do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, na quarta semana de protestos que provocaram escassez de produtos básicos em cidades importantes do país andino. Em um momento em que a Bolívia passa por aquela que já é considerada a pior crise econômica em quatro décadas, o mandatário de centro-direita que ascendeu ao poder em novembro classificou os atos como um teste à transição do país para uma economia mais aberta e para a democracia boliviana.
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— Há muitos interesses internos e externos em fazer esta democracia fracassar e provocar desordem regional — afirmou Paz em entrevista à rede de TV Wall Street Week, da Bloomberg, no sábado, a partir do Palácio Presidencial. — Esta é uma questão sobre saber se a democracia na Bolívia é viável ou não.
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Paz, que assumiu o cargo após duas décadas de governos socialistas, tem alternando entre tentativas de diálogo com os manifestantes e a mobilização de forças de segurança para reprimi-los. Em viagem à cidade de Sucre, nesta segunda-feira, o presidente anunciou que reduzirá seu salário pela metade — em uma medida quase simbólica, uma vez que o valor corresponde a 24 mil bolivianos (cerca de 17 mil reais) — e fez um novo apelo ao diálogo com as organizações que lideram os protestos. No entanto, descartou dialogar com manifestantes radicais que usem de violência.
— Uma minoria não pode governar, uma minoria não pode abusar de nós e faremos cumprir claramente a Constituição — advertiu o presidente, que já havia anteriormente destacado que o Ordenamento Jurídico boliviano permite o uso de força para contenção de distúrbios sociais.
O governo havia convidado a federação de agricultores de La Paz para negociações no domingo, mas a reunião foi cancelada devido a confrontos entre manifestantes e policiais no sábado. Também tinha sido pré-agendada uma reunião mensal de um conselho socioeconômico para quarta-feira, a fim de discutir legislações econômica de setores-chave, incluindo petróleo e gás, mineração, investimentos e lítio.
Nesta segunda, a praça onde fica o Palácio de Governo estava protegida por centenas de policiais de choque. Novos confrontos foram registrados. O acesso à Plaza de Armas foi cercado pelos agentes e por grades metálicas, cercas e correntes. Vendedores ambulantes comercializavam máscaras e vinagre, para amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo, lançado nas marchas da semana passada. Imagens feitas por fotojornalistas no local mostram a área coberta de fumaça, provavelmente de bombas de efeito moral, e manifestantes usando pedras e fogos de artifício contra os policiais.
Manifestantes exigem renúncia do presidente boliviano, Rodrigo Paz
Marvin Recinos/AFP
Protestos, violência e ameaças
Os protestos começaram no início de maio com um chamado à greve da Central Operária Boliviana (COB), o maior sindicato do país. Os bloqueios de estradas já chegam a cerca de cinquenta pontos no território boliviano. Os manifestantes rejeitam a política econômica liberal de Paz, exigem aumentos salariais e o responsabilizam pela distribuição de gasolina de má qualidade que danificou milhares de veículos.
— O que queremos? Que renuncie! Quando? Agora! — gritavam uma multidão de agricultores, operários e caminhoneiros enquanto detonavam fogos de artifício e seguiam em direção a La Paz a partir da cidade vizinha de El Alto.
Protesto em La Paz reuniu agricultores, operários, caminhoneiros e apoiadores do ex-presidente Evo Morales
Marvin Recinos/AFP
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No sábado, o governo tentou romper bloqueios nas estradas para viabilizar um corredor para a entrada de alimentos, remédios e gasolina em La Paz e El Alto. Outras cidades, como Cochabamba, Potosí e Oruro também enfrentam escassez de produtos básicos.
Os manifestantes retomaram os bloqueios no domingo horas após os confrontos com as forças de segurança. O ministro de Obras Públicas Mauricio Zamora disse ter sido alvo de emboscadas três vezes por manifestantes armados com pedras e explosivos no sábado, dizendo ter sentido que sua vida foi colocada em risco.
À sombra de Evo
Ainda durante a entrevista no sábado, Paz afirmou que há setores que não querem permitir que a Bolívia dê o próximo passo em sua transformação. O presidente assumiu o governo após cerca de 20 anos de governo do Movimiento ao Socialismo (MAS), sigla que por anos foi dirigida pelo ex-presidente Evo Morales.
— O passado não quer dar lugar ao presente e ao futuro, e isso faz parte do conflito que estamos vivendo — disse Paz, que afirmou vislumbrar controlar o déficit fiscal do país, fazer um processo de abertura econômica e dirimir tensões raciais e culturais até o fim de seu mandato. — Nosso governo representa o encerramento de um ciclo de gestão dos últimos 20 anos. Essa transição não será fácil, mas claramente é o caminho certo para liberar as forças produtivas da Bolívia.
Homem usa fogos de artifício durante protesto contra Paz
Aizar Raldes/AFP
Os agricultores, líderes sindicais e apoiadores de Evo Morales que exigem a renúncia de Paz, argumentam que, após seis meses no cargo, o presidente falhou em cumprir sua promessa de resolver a grave crise econômica da Bolívia. O ex-presidente, que se acredita estar escondido dentro do complexo de uma rádio na zona produtora de coca de Chapare, em Cochabamba — seu tradicional reduto político —, pediu a convocação de eleições antecipadas em 90 dias.
O governo dos Estados Unidos anunciou ter começado a fornecer "assistência alimentar emergencial e apoio logístico operacional" à Bolívia, para ajudar pessoas afetadas pela escassez de medicamentos e alimentos causada pelos bloqueios, segundo comunicado do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado americano no sábado. O secretário Marco Rubio afirmou na semana passada que os EUA não permitirão que "criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos em nosso Hemisfério". (Com Bloomberg e AFP)
