Presença de grupos criminosos no cotidiano 'vai além da dinâmica de negócios ilícitos', diz diretora do FBSP
Uma nova pesquisa Datafolha indica que quatro em cada dez brasileiros dizem perceber a atuação do crime organizado no bairro onde vivem. De acordo com o levantamento “Os gatilhos da insegurança”, estima-se que 68 milhões de brasileiros moram em áreas com presença de facções e milícias.
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A pesquisa aponta que a influência do crime organizado muda a dinâmica dos bairros e afeta diretamente a rotina dos moradores. Por exemplo, 81% dos entrevistados têm medo de ficar no meio de confrontos armados, enquanto 75% evitam determinados locais do bairro. Já 96% têm medo de passar por alguma situação de violência e 57% mudaram algum hábito por conta disso.
A pesquisa foi encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios do país. Em entrevista ao Estúdio CBN desta segunda-feira (11), Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP, explica como a população tende a perceber a proximidade do crime organizado no cotidiano.
“Uma coisa é você perceber que existe um grupo criminoso vendendo droga no bairro em que você mora. Agora, 80% dessa população que reconhece a presença do crime organizado diz que a presença desses grupos armados regula o cotidiano. Então, estamos falando de uma governança criminal. Por exemplo, uma mulher que sofre violência doméstica e mora em um bairro com a presença do crime organizado, como ela vai denunciar uma violência doméstica em uma delegacia, e a polícia vai entrar, se ela tem medo do próprio crime se vingar dela ou dela sofrer algum tipo de retaliação porque buscou o Estado? Então, isso tem impactos brutais no cotidiano da população, porque vai muito além da dinâmica desses negócios ilícitos que esses grupos criminosos operam”, explica.
Segundo a pesquisa, 41% das mulheres deixaram de sair à noite no último ano por medo da criminalidade. O percentual é menor entre os homens, de 30%. O levantamento mostra ainda que as mulheres relatam níveis de insegurança muito maiores do que os homens em praticamente todos os cenários analisados.
Para além de impactos subjetivos – como o receio de sair de casa em determinados horários por medo de sofrerem algum roubo ou furto – ou ao pautar o debate eleitoral, a mudança do comportamento de tais indivíduos no cotidiano também resvala economicamente na sociedade.
“Há uma restrição de hábitos. Essas pessoas deixam de ir a bares ou restaurantes, por exemplo, e deixam de consumir efetivamente, causando um prejuízo econômico para a nossa sociedade. Isso tudo por conta do risco que elas acham que correm ao adotar práticas que deveriam ser comuns. Mas, especialmente nas grandes cidades, (esses hábitos) são cada vez mais determinados por essas dinâmicas de violência”, diz.
Apesar das classes D e E sofrerem com os mesmos crimes que as classes A e B – como golpe, fraude e crime patrimonial –, a população brasileira de baixa renda tem uma relação muito mais direta com a violência física.
“Há 10 ou 15 anos, quando já conversávamos sobre esses temas, falávamos que o crime patrimonial era algo que se concentrava no centro expandido. Mas, hoje, uma pessoa que mora na periferia está muito mais vulnerável quando circula pela cidade do que no centro. Então, infelizmente, essa difusão faz com que as classes D e E tenham mais medo, mas que também estejam mais vulneráveis e sofram mais do esses crimes do que os mais ricos”, explica.
Ouça a entrevista:
