‘Presa num corpo que não funcionava’, atleta passou a usar CBD para saúde mental

 

Fonte: Bandeira



Susana Schnarndorf, atleta paralímpica, foi diagnosticada em 2009 com Atrofia de Múltiplos Sistemas. A doença degenerativa, entre outros sintomas, prejudica os movimentos do corpo, causa falhas na regulação da pressão arterial e da bexiga e interrompe a produção de dopamina — a substância química que traz a sensação de prazer. A falta dela está diretamente ligada à depressão. Segundo Susana, foi difícil lidar com a condição no começo.

"Eu não conseguia nem escovar meus dentes direito. Eu fui travando. Para dar um passo, parecia que meu pé tinha concreto. E aí eu comecei a ter incontinência urinária, vários outros sintomas também. Como eu não produzo dopamina, eu tinha bastante depressão química, sabe? Da falta de dopamina. (Eu era uma) Pessoa super ativa, né? Daqui a pouco, eu estava presa dentro de um corpo que não funcionava mais", diz.

Por causa da doença, a atleta deixou de praticar natação convencional e triatlo, mas o amor pelo esporte e pela família foi o combustível que ela usou para ignorar a expectativa de apenas mais alguns anos de vida, seguir em frente e se tornar medalhista paralímpica na natação.

Um psiquiatra que fazia uma pesquisa sobre o canabidiol — derivado da planta Cannabis sativa, a maconha — na USP de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, em 2014, apresentou a substância à Susana. Desde então, a qualidade de vida dela foi transformada.

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"A minha doença causa distúrbio do sono. Eu praticamente não dormia, sabe? O primeiro alívio que me deu: eu consegui dormir pelo menos cinco horas direto. Já melhorou muito meu dia, porque não dormir é horrível. E, na depressão, me ajudou bastante também", conta.

A médica especialista em Cannabis medicinal Carolina Nocetti afirma que o uso do CBD com esses objetivos é mais benéfico do que a utilização de outros medicamentos, que podem causar efeitos colaterais e dependência. Ela também explica que as contraindicações são ligadas a condições específicas dos pacientes.

"Quando a gente usa os canabinoides ao invés de usar medicamentos como o Rivotril ou remédios para dormir, como Zolpidem, a gente tem algo que é uma redução de danos. Então, não só a gente tem o potencial de melhorar a ansiedade e a insônia desses atletas, mas a gente também tem como reduzir os danos causados pelas medicações que eles estão usando para isso", explica.

Hoje, Susana Schnarndorf compete no lançamento de club, prova oficial do atletismo praticada com uma espécie de bastão. A expectativa dela é encerrar a carreira vitoriosa após a Paralimpíada de Los Angeles em 2028.

Novo estudo da Portuguesa mostra benefícios físicos do CBD

O canabidiol também tem benefícios físicos, apontados em um dos estudos mais recentes sobre o tema, feito pela Portuguesa e apresentado no Congresso do Colégio Americano de Medicina Esportiva nesta semana.

A análise foi baseada na aplicação de uma fita adesiva elástica terapêutica com CBD nos músculos extensores das pernas de dez indivíduos fisicamente ativos e submetidos a esforços intensos. A base de comparação foi o uso de uma fita sem a substância. O resultado foi aumento da recuperação da força em 14%, resgate da flexibilidade 17% maior e 32% de redução da dor muscular.

Fita adesiva elástica terapêutica com CBD

Matheus Leite/CBN

O fisiologista e vice-presidente de Ciências do Esporte da Portuguesa, Turíbio Leite de Barros, que liderou o estudo, acredita que os bons resultados podem ajudar na mudança do imaginário popular em relação ao canabidiol. Para ele, a substância é vista de forma negativa na sociedade:

"O canabidiol ainda é estigmatizado e não é só no meio do futebol. Hoje, se você perguntar para 10 pessoas, ao acaso, o que elas acham do canabidiol, talvez oito vão dizer: 'Ah, não, isso aí é maconha, isso aí é substância alucinógena'. E, na verdade, não é. O canabidiol não tem nenhum efeito alucinogênico. Quem tem é outro derivado da Cannabis sativa, o THC. É uma substância proibida pela legislação esportiva".

Os resultados positivos dos testes também abriram portas para o uso da fita com CBD nos atletas da Portuguesa. O método apareceu para o lateral-esquerdo Lucas Hipólito em um dos momentos mais desafiadores de sua carreira, durante o tratamento de uma lesão no joelho que o tirou dos gramados por mais de um ano.

"Fiquei muito tempo sem fazer exercícios físicos. Quando voltei, eu sentia muita dor muscular. Foi aí que a fita entrou. O doutor falou: 'Olha, essa fita vai te ajudar no auxílio da dor'. E eu senti muita diferença nisso, porque quando eu usava ela, sentia que eu me recuperava mais rápido, sabe? Em relação a dor, em relação a poder fazer estímulo novamente. Eu não tive lesão muscular, que é comum quando algum atleta dessa magnitude vem de uma lesão dessa. Eu não tive nenhuma lesão. Não tive nenhum problema físico", conta.

Lucas Hipólito, lateral-esquerdo da Portuguesa

Divulgação/Portuguesa

No Brasil, medicamentos à base de canabidiol podem ser comprados em farmácias, mas só com receita médica. No caso de produtos vendidos apenas nos Estados Unidos, é necessário fazer uma solicitação à Anvisa para a importação na plataforma digital da agência.