O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, desembarcou nesta sexta-feira na cidade autônoma de Ceuta, enclave espanhol no norte da África, em meio a uma crise migratória que o próprio governo estima já ter levado 60 mil pessoas a cruzarem a fronteira.
Ao menos 34 pessoas morreram desde a quinta-feira durante tentativas de travessia, incluindo a nado, a partir do Marrocos, enquanto as forças policiais afirmam que a chegada de migrantes irregulares continuou por toda a noite — um cenário de extrema vulnerabilidade para os migrantes, e que criou pressão sobre Madri dentro do bloco europeu.
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Um fluxo constante de pessoas continuou em direção à cidade autônima entre a noite de quinta-feira e a manhã desta sexta, com migrantes cruzando em direção ao território espanhol a nado, caminhando pela faixa costeira ou escalado cercas que separam o solo europeu do Marrocos.
Houve registro de confronto com forças policiais nos dois lados da fronteira.
O governador espanhol da região de Ceuta, Juan Jesus Vivas, anunciou nesta sexta que o total de travessias já havia quase igualado a população total do enclave, que é de cerca de 83 mil pessoas.
— As estimativas indicam que cerca de 60 mil pessoas entraram na nossa cidade como resultado deste evento — afirmou Vivas.
— Esse número demonstra que é impossível absorver tamanha pressão.
É completamente impossível.
Alguns dos migrantes que tiveram sucesso em cruzar pelo mar deixaram para trás boias e roupas espalhadas pela areia, perto do lugar onde a cerca fronteiriça alcança o mar.
Em paralelo, as forças deslocadas para a região retiraram corpos das águas, evidenciando uma das faces da tragédia humanitária.
Centenas de pessoas — em grande parte, jovens marroquinos — foram flagrados dormindo nas ruas da cidade.
Policial marroquino retira homem com criança de colo de área em que houve confronto com migrantes
Abdel Majid Bziouat/AFP
O efetivo policial dos dois lados da fronteira não conseguiu conter o avanço simultâneo das milhares de pessoas.
Durante a noite, milhares de jovens se reuniram na cidade de Fnideq, perto da fronteira, a fim de cruzar para o território europeu.
A agência de notícias espanhola EFE registrou confrontos na região, com grupos tentando derrubar a cerca fronteiriça e arremessaram pedras contra os agentes mobilizados para conter a passagem.
Parte do grupo afirmava ter ouvido que "a fronteira estava aberta".
O motivo exato da súbita onda de migração procedente do Marrocos ainda não está claro.
A rede britânica BBC apontou que o pico de travessias ocorre após uma decisão da Suprema Corte espanhola sobre a interceptação de migrantes no mar ao tentar chegar a Ceuta ou a Melilla, indicando que eles não podem mais ser sumariamente devolvidos ao vizinho africano.
Politicamente, os governos espanhol e marroquino também passam por um momento de turbulência.
Sánchez visitou a Argélia, país que apoia a independência do Saara Ocidental, um território reivindicado por Rabat, em 20 de julho.
Em 2021, quando outra grande crise foi registrada na fronteira, com 10 mil migrantes cruzando em direção a Ceuta, o governo marroquino flexibilizou controles fronteiriços após a Espanha receber em seu território, para tratamento médico, o líder da Frente Polisário, que luta pela independência do Saara Ocidental.
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Apesar do fluxo seguir em direção a Ceuta — mesmo que em ritmo inferior à véspera —, a EFE registrou um movimento inverso na fronteira.
Centenas de pessoas que chegaram à região retornaram voluntariamente para Marrocos pelo mesmo ponto utilizado na travessia.
— De forma paralela, continuam entrando na cidade pequenos grupos de pessoas, cruzando-se no caminho com aqueles que abandonam Ceuta em direção a Marrocos — descreveu a agência.
Crise política
As cenas na fronteira de Ceuta desencadearam profundas crises políticas para o governo de esquerda da Espanha, internamente e no contexto europeu.
Enquanto conservadores espanhóis classificaram a crise atual como uma invasão do território espanhol, países-membro da União Europeia, liderados pela Itália, propuseram suspender Madri do espaço de livre circulação europeu em razão da crise.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, que adota uma linha dura contra a imigração, disse que as imagens de Ceuta eram "chocantes", apontando que o caso demonstrava como a "imigração ilegal descontrolada representa uma ameaça real à segurança das fronteiras da Europa".
O ministro das Relações Exteriores italiano, Antonio Tajani, responsabilizou Sánchez por incentivar a migração para Ceuta.
As declarações que levaram o chanceler espanhol, José Manuel Albares, a convocar o embaixador da Itália em Madri.
O apelo italiano para suspender a Itália do Espaço Schengen — a zona europeia de livre circulação — não ecoou sozinho no bloco.
A Finlândia demonstrou apoio à iniciativa nesta sexta-feira, com a ministra do Interior finlandesa, Mari Rantanen, argumentando que países que "não cumprem a sua obrigação de proteger a fronteira externa" não podem ser membros do Espaço Schengen.
A França também anunciou nesta sexta-feira que reforçará os controles na fronteira espanhola devido à crise migratória.
(Com AFP e NYT)
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