Premier britânico descarta renunciar em meio à pressão por vínculo com Epstein de ex-embaixador casado com brasileiro

 

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O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, afirmou nesta quinta-feira que pretende permanecer a frente do governo britânico apesar do turbilhão político causado pelas novas revelações sobre os laços entre seu ex-aliado Peter Mandelson e o magnata americano Jeffrey Epstein, acusado de crimes sexuais que morreu na prisão em 2019. Starmer nomeou Mandelson — que é casado com o brasileiro Reinaldo da Silva, que recebeu mais de R$ 70 mil de Epstein e está citado em documentos revelados pelo Departamento de Estado dos EUA — como embaixador em Washington em 2024, quando já se sabia que havia vínculos entre as duas figuras.

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— Pretendo continuar realizando este trabalho essencial para o nosso país. Fui eleito em 2024 com um mandato para mudá-lo para melhor — disse Starmer em um discurso nesta quinta-feira, no qual também se solidarizou com as vítimas de Epstein, desculpou-se pelo dano de imagem provocado pela nomeação de Mandelson e criticou o ex-embaixador. — Sinto muito pelo que foi feito a vocês, sinto muito que tantas pessoas em posições de poder os tenham traído, sinto muito por ter acreditado nas mentiras de Mandelson e tê-lo nomeado.

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A crise envolvendo Mandelson se transformou em uma luta pela sobrevivência política para Starmer, na qual mesmo representantes do Partido Trabalhistas passaram a questionar a liderança do premier e se mostraram furiosos com o impacto para o governo eleito há menos de dois anos — que rompeu com anos de domínio Conservador na política nacional.

Mandelson, de 72 anos, era membro da Câmara dos Lordes e figura conhecida no Partido Trabalhista britânico. Ex-ministro de Comércio da UE, ele foi nomeado embaixador em Washington por Starmer em 2024. Em um depoimento na quarta-feira, o premier disse que ele mentiu sobre a extensão total de seu relacionamento com Epstein durante o processo de seleção para o cargo em Washington.

— Lamento tê-lo nomeado. Se eu soubesse naquela época o que sei agora, ele jamais teria chegado perto do governo — disse o premier na audiência com os parlamentares na quarta.

A tempestade política se forma apenas 19 meses após a posse de Starmer, e parece ganhar tração às vésperas das eleições locais no Reino Unido, que serão realizadas em maio. A expectativa já era de um resultado ruim para os trabalhistas — desempenho que pode ser ainda mais prejudicado pela crise em curso.

Peter Mandelson e Jeffrey Epstein

Reprodução

Promessa de investigação

A polícia britânica anunciou que abriu uma investigação para apurar alegações de que Mandelson teria repassado informações confidenciais e potencialmente sensíveis a Epstein há quase duas décadas, e também trocas de e-mails reveladas recentemente que mostram relações amistosas, fotos privadas e transações financeiras entre o americano, o britânico e seu marido brasileiro.

Uma das principais denúncias diz respeito a um relatório econômico encaminhado por Mandelson, em 2009, a Epstein. O arquivo havia sido destinado originalmente então premier britânico Gordon Brown. A última leva de documentos também mostra que o americano teria transferido um total de US$ 75 mil em três pagamentos para contas ligadas ao político britânico entre 2003 e 2004. Se for indiciado e condenado por má conduta em cargo público, ele pode ser preso.

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Além dos atos do ex-embaixador propriamente, há cobrança no campo político sobre a nomeação dele para o cargo em Washington por Starmer. Embora parte das acusações já tivessem motivado o recuo do premier, que o demitiu em setembro do ano passado, e-mails revelados pela última divulgação de arquivos mostrou o nível de relacionamento entre eles.

Em uma sequência de e-mails em 2009, Mandelson comemora a libertação de Epstein após um período na prisão, entre 2008 e 2009. Um dia depois, Mandelson pergunta a Epstein: "Como é a sensação de liberdade?". Epstein responde: "Ela é fresca, firme e cremosa". Mandelson então diz: "Menino travesso".

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Os comentários cercados de obscenidade foram duramente criticados por parlamentares britânicos, que pressionam Starmer pela nomeação.

— Ele pensou nas vítimas de Epstein? — questionou o líder dos Liberais Democratas, Ed Davey.

Vozes de partidos da oposição e do próprio Partido Trabalhista pediram a demissão do chefe de gabinete de Starmer, Morgan McSweeney, um aliado de longa data de Mandelson que, segundo vários relatos, defendeu sua nomeação para Washington.

O primeiro-ministro prometeu divulgar os documentos de investigação sobre o ex-embaixador, e concordou em submetê-los ao Comitê de Inteligência e Segurança do Parlamento, afirmando que queria que os parlamentares vissem como Mandelson "distorceu completamente a extensão de seu relacionamento com Epstein".

Impacto no Reino Unido

Embora não tenha sido diretamente citado diretamente nos arquivos como outros líderes estrangeiros, como o próprio presidente americano, Donald Trump, Starmer se encontra sob intensa pressão política em um país cujas instituições tentam dar resposta a denúncias nas mais altas instâncias — incluindo na realeza.

Mais famoso que Mandelson, o príncipe Andrew — que teve o título retirado após as revelações de seu envolvimento com Epstein — também voltou aos holofotes com a divulgação da última remessa de arquivos.

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Divulgação / Departamento de Justiça dos EUA

O irmão do rei Charles III, acusado por uma das vítimas do financista americano de tê-la agredido sexualmente, apareceu em fotos constrangedoras em cima de uma mulher deitada no chão, enquanto novos e-mails revelaram que ele convidou o financista americano ao Palácio de Buckingham.

Andrew deixou às pressas o Royal Lodge, uma propriedade da realeza britânica com 30 cômodos em Windsor, nos últimos dias, quando a avalanche de notícias envolvendo seu nome começaram a se espalhar diante da divulgação dos novos arquivos.

O contraste do impacto dos "arquivos Epstein" no Reino Unido e em outras partes da Europa — como na Noruega — e nos EUA foi apontado pelo analista da CNN Stephen Collinson como um sintoma do controle de Trump sobre as instituições no país e sobre o Congresso, e da instabilidade no caso de Starmer.

"Até agora, as reviravoltas em torno de Epstein não tiveram um impacto existencial sobre Trump. O presidente não foi acusado de nenhum crime — mesmo que seu relacionamento passado com Epstein levante dúvidas sobre suas escolhas de amizade. E embora não seja tão forte politicamente quanto já foi, Trump não é tão vulnerável a ponto de correr o risco de ser destituído da Casa Branca. A situação de Starmer é muito mais grave", escreveu. (Com AFP)