Prefeitura começa demolição de 'caveirão', prédio abandonado há mais de 50 anos na Sé; veja fotos
A Subrefeitura da Sé iniciou na semana passada a demolição de um "esqueleto" de 26 andares, construído na década de 1960, que serviu por décadas como ponto de tráfico de drogas no centro de São Paulo Apelidado de "Caveirão", o prédio, localizado no número 93 da Rua do Carmo, bem próximo à Praça da Sé, seria inicialmente um edifício-garagem com 2 mil vagas para carros, mas nunca ficou pronto.
Nos últimos anos, apesar de sua interdição, a edificação estava ocupada por moradores e usuários de droga, que entravam pelo térreo e subiam aos andares por escadas improvisadas — elas eram recolhidas em seguida, impedindo o acesso de outras pessoas e autoridades.
Quando os engenheiros e operários da construtora contratada pela prefeitura chegaram ao Caveirão para iniciar a derrubada, o primeiro passo foi recolher os materiais espalhados pelo prédio.
– A gente já retirou 500 toneladas de lixo e entulho, o que demandou 20 caminhões para levar o material embora – afirma o engenheiro Bruno Cesar Carvalho Piepenbrink, responsável pela obra. Entre os objetos estavam materiais de construção, mobiliários velhos (como sofás e armários), roupas, madeiras, entre outros. Nos andares mais alto, duas árvores que cresceram no meio de madeiras que viraram pó também foram retiradas.
Escadas internas que foram construídas no "Caveirão"
Ciete Silvério / Prefeitura de SP
Os trabalhos na Rua do Carmo estão previstos para durar até novembro, quando o prédio estará finalmente no chão. Devido a dois casarões vizinhos que são tombados, além de estar em cima da Linha 3-Vermelha do Metrô, o Caveirão será derrubado de forma manual. A construtora responsável, que demoliu edificações icônicas como o Edifício São Vitto (no centro) e o Tobogã do Estádio do Pacaembu, conta com a atuação de 20 operários, que eliminarão dois andares por semana.
– Lá em cima, a gente ainda está usando martelete de 10 quilos – diz Piepenbrink, cuja voz foi sobreposta por um estrondo vindo do último andar. Nesse momento, após os operários quebrarem parte da laje, o entulho foi automaticamente despejado por um duto, parte vazado e outra parte feito com chapa de aço, para o subsolo.
– Não pode ficar acumulando entulho na laje, para não dar sobrecarga. Começamos pelas vigas, porque acima do último pavimento tem uma estrutura só de vigas, eles não chegaram a terminar. Esse é o ponto mais crítico da obra, então vamos terminar essa etapa para conseguir nivelar as lajes para podermos tirar andar por andar – afirma o engenheiro.
Demolição do "Caveirão"
Ciete Silvério / Prefeitura de SP
Disputas judiciais, custos e multas
A demolição do Caveirão vai custar R$ 6 milhões e será bancada inicialmente pela Prefeitura. Após a conclusão do serviço, porém, a gestão municipal vai levar a conta para o proprietário do imóvel, o empresário Rivaldo Sant´anna, dono do Caveirão desde 2009.
– Desde 2015, a prefeitura vem enfiando multas atrás de multas, mas em nenhum momento entraram em contato comigo. Em 2015, gastei R$ 500 mil para dar às famílias que viviam ali, mas logo depois o prédio foi invadido de novo. Nunca fizeram nada pelo prédio. Agora, vou brigar pelo material que está lá, pois aquele entulho, que vale dinheiro, é meu – diz Sant´anna, que é conhecido como Ricco.
Apesar das queixas de Ricco, a demolição do Caveirão foi determinada pela Justiça, após uma ação da Prefeitura, iniciada em 2018, pedir que o edifício fosse destruído. A medida ocorreu após o incêndio e a queda de outro prédio da região, o Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, em 1 de maio de 2028. Na ocasião, sete pessoas morreram. No caso do Caveirão, Ricco chegou a ser obrigado judicialmente a levar seu prédio ao chão, mas se manteve em silêncio na parte final do processo, o que lhe causou uma outra multa, desta vez judicial, de R$ 500 mil.
Na semana passada, o prefeito Ricardo nunes (MDB) descartou a construção de um parque no terreno da Rua do Carmo, depois que as obras acabarem. Mas o espaço pode ser anexado a uma praça ao lado, onde hoje funciona o Poupatempo da Sé.
Operários nos andares superiores do edifício da Rua do Carmo
Ciete Silvério/Prefeitura de SP
– A gente vai ampliar aquela área de praça, deixar aquela área mais bonita, tirar aquela coisa feia ali. É um Caveirão, nome posto popularmente, que vai sair e vai entrar um espaço requalificado para uso da população – diz Nunes.
A anexação do terreno só seria possível se o dono passasse a posse para a Prefeitura, o que não está descartado por Rivaldo Sant´anna.
– Eu vou pagar a demolição, mas tem que ser de forma parcelada. Eles são o martelo e eu sou o prego, sou a parte mais frágil, mas o terreno é meu – diz Ricco, antes de ser questionado se aceitaria trocar as dívidas pela propriedade do terreno, desde que as multas fossem canceladas:
– Sim, claro, na hora. Mas acho que ali deveria ser construído um prédio de moradia popular – finaliza o empresário.
