Prédio desocupado em SP é redescoberto 'sem querer' como projeto de escritório de Ramos de Azevedo; veja fotos

 

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Um prédio no centro de São Paulo, a poucos metros da Praça da Sé, passou a receber uma atenção inédita recentemente. Erguido na Rua Roberto Simonsen, número 97, o ponto foi projetado pelo escritório do arquiteto e engenheiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1918) — responsável por joias da capital paulista como o Theatro Municipal, a Pinacoteca e o Mercadão. Imaginado para funcionar como uma policlínica e mais tarde transformado na sede da então Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, o prédio era um endereço “desconhecido” e não recebia a louvação dedicada a outras criações do engenheiro e arquiteto. Mas essa história pode mudar.

A identificação do prédio como um trabalho do escritório de Ramos de Azevedo ocorreu após a mais recente compra do imóvel, feita pelo empresário Allan Ruiz, que na verdade estava interessado em outros prédios da região para realizar projetos de revitalização. Um negócio anterior deu errado, e Allan decidiu dar uma olhada no endereço vazio com cerca de mil metros quadrados. Depois, ele foi em busca do projeto do prédio no Arquivo Municipal e lá constava a informação de que se tratava de um projeto com assinatura do célebre escritório.

— Minha profissão era essa, procurava prédios para reformar no centro. Então eu sabia tudo o que estava à venda. Esse ponto, porém, me chamou a atenção porque ele estava em ruínas. Achava ele muito atrativo, ficava olhando seus vitrais, tijolos — conta Allan. — Não passava pela minha cabeça (que poderia ser um Ramos de Azevedo). O proprietário que vendeu esse prédio não tinha toda a documentação, foi uma venda em que assumi um risco e precifiquei isso.

Allan não diz qual o valor pagou no prédio, mas diz que um imóvel na região, com diversas necessidades de reforma, em geral, tem um valor de metro quadrado praticado entre R$ 1 mil e R$ 2 mil.

— É um prédio característico de uma geração, que é justamente a que está nas duas primeiras décadas do século XX. Ele passa despercebido, mas está em ótimo estado de conservação mesmo com cerca de 100 anos de idade — afirma a professora Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP (FAU-USP). — Me apavora a ideia de descarte de prédios bem construídos, bem assinados, que envelhecem bem ao longo do tempo. E, nesse sentido, esse prédio é raro. Ele é um sobrevivente e está em mãos de pessoas que saberão reutilizá-lo.

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Embora seja pesquisadora do trabalho de Ramos de Azevedo, Beatriz diz que ainda não entrou no prédio, mas que já havia notado sua existência quando catalogava fachadas dignas de atenção no centro de SP. Ela conta que esse pode ser um dos primeiros prédios de concreto armado do centro da cidade (técnica que combina o concreto com barras de aço para fortalecer a sustentação do imóvel).

A construção do endereço é da virada do século XX. O projeto abrigaria a Policlínica e a sede da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (que viria a tornar-se Academia de Medicina). A sociedade, desde 1904, recebia um financiamento do então Congresso Legislativo do Estado. Mas, em 1930, uma ata de reunião apresentada no livro “História da Academia de Medicina de São Paulo”, escrito por Guido Palomba, dava conta de que a situação financeira da organização tinha sofrido um forte abalo. As dívidas eram grandes o suficiente para comprometer o funcionamento do imóvel. Em 1939, o endereço foi tomado pelo credor, obrigando a Policlínica a mudar de lugar.

A publicação indica ainda outra relação de Ramos de Azevedo com a sociedade de Medicina: foi de seu entorno que saiu a criação do emblema e do selo da entidade, em 1920.

Atendimento no local, em 1942, não há informação o que era a ocupação nessa época

São Paulo Antiga

— A própria Policlínica deveria ser um endereço muito nobre. Deveria ser um ambiente muito paparicado, as reuniões que ocorriam lá deveriam ser “top de linha”, grandes especialistas vinham dar palestras lá — diz Guido Palomba, membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo e autor do livro sobre a entidade.

Prédio da Policlinica em imagem do centro de SP, em 1915: último à esquerda

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Futuro

O plano agora é que o ponto se torne um centro cultural. A etapa inicial de ajustes mira em partes como a recuperação de vitrais, instalação dos elevadores e mais requalificação da fachada. É importante dizer que o ponto tem um tipo de tombamento, pela prefeitura, que não permite mudanças na caracterização da fachada e nem aumentar a área do local.

Para a transformação do ponto, Allan busca financiamento via leis de incentivo à cultura. A estimativa inicial é que a obra consuma entre R$ 7 milhões e R$ 10 milhões. Ainda é preciso, porém, desenhar o projeto de requalificação.

— Quero que esse imóvel, essa obra de arte, esteja aberto para a comunidade visitar e conhecer — diz o empresário.