'Precisei me reconstruir': Após anos de silêncio, mulher abusada sexualmente na infância por cantor R. Kelly relata casos
Reshona Landfair tinha 12 anos quando conheceu o astro do R&B R. Kelly, nome artístico de Robert Kelly. Popular na escola, talentosa jogadora de basquete e integrante do grupo 4 The Cause, formado com primas, ela descreve aquela fase como “um bufê” de possibilidades. “Foi um tempo bonito”, afirma. “Eu tinha amor e pessoas boas ao meu redor. Eu estava vivendo na minha verdadeira luz de quem eu queria me tornar. Eu sentia que estava no meu caminho.”
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Dois anos depois, segundo relata, começou o processo de aliciamento. Kelly aproximou-se da família, tornou-se “amigo”, frequentou a igreja e passou a elogiar a adolescente. O que começou com conversas sobre música e escola evoluiu, diz ela, para controle, isolamento e abuso sexual. “Eu aprendi sobre sexo pela lente de um pedófilo”, afirma.
Landfair conta que foi convencida de que vivia uma conexão “única” com o cantor. “Você me entende em um nível que está além de qualquer coisa que eu já experimentei”, teria dito ele. Em seguida vinham exigências: “Se você me ama como eu amo você, então precisa fazer o que eu digo” ou “As pessoas fazem coisas que não querem fazer por quem amam todos os dias da semana”. Ela diz que, ao recusar atos sexuais — chamados por ele de “o próximo nível” —, era punida.
Reshona Landfair de listrado, à frente, com o grupo de R&B 4 The Cause
Reprodução: Deezer
Um vídeo gravado quando ela tinha 14 anos, mostrando o cantor urinando sobre a adolescente, veio a público no início dos anos 2000. A fita foi exibida repetidamente no julgamento que se arrastou por seis anos. Kelly acabou absolvido em 2008. Landfair não testemunhou à época. “Foi degradante, constrangedor, traumatizante, meu corpo sendo jogado e visto pelo mundo”, diz. “Era vendido ilegalmente e comercializado em esquinas, em feiras. Pessoas com quem eu cresci faziam ‘festas’ para assistir.”
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Ela afirma que sua identidade não foi preservada nos autos. “Como meu nome não foi ocultado durante o julgamento de 2008, isso significava que meu nome e sobrenome estavam na boca de todo mundo, dentro e fora do tribunal”, escreve em seu livro de memórias, Who Was Watching Shorty?. “Eu não poderia saber que jurados ofegavam ou riam enquanto uma galeria cheia de espectadores fazia o mesmo ao assistir a um vídeo de pornografia infantil para um julgamento sobre pornografia infantil”, relata.
Sobre o papel do racismo no tratamento que recebeu, diz: “Se tivesse sido uma garota caucasiana, especialmente por um homem negro, eu teria sido tratada mais como vítima”. E acrescenta: “Não estou aqui para jogar a carta racial, mas é uma realidade. Garotas negras crescendo são consideradas ‘adiantadas’. Se somos vitimizadas, a culpa é mais nossa.”
Após a absolvição, Landfair permaneceu no círculo do cantor por alguns anos. Saiu aos 26. “Eu estava muito perdida, confusa, muito assustada”, afirma. “Eu realmente não conhecia a vida e a normalidade. Eu tive que reconstruir todo o meu ser.” Ainda assim, diz que não se via como vítima: “Eu não me via como vítima porque o mundo não via. Eu era apenas um grande assunto de conversa. Eu sabia que as pessoas me chamavam de ‘vadia’ e ‘interesseira’, enquanto o elogiavam e elogiavam sua música.”
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A virada ocorreu ao assistir à série documental Surviving R. Kelly, em 2019. “Foi mortificante”, diz. “Por muito tempo, eu pensei que eram desejos e fetiches sexuais que ele tinha comigo — mas então vi que tinham sido tantas mulheres, tantas meninas. Era como assistir a um serial killer, mas sexualmente.” Ela afirma ter sentido culpa: “Eu o protegi, eu menti por ele. Ele conseguiu machucar tantas pessoas depois de mim.”
Em 2022, Landfair testemunhou contra o cantor em Chicago. “Eu expurguei naquele tribunal”, diz. “Não quis segurar nada.” Ao deixar o depoimento, deitou-se no chão e chorou. “Pareceu espiritual, como óleo escorrendo pelo meu corpo, toxinas saindo. Foi meu momento de libertação. Pela primeira vez, eu não estava sob o feitiço dele.”
Kelly foi condenado em 2021, em Nova York, a 30 anos de prisão por extorsão e tráfico sexual. No ano seguinte, recebeu mais 20 anos em Chicago, sendo 19 cumpridos simultaneamente.
Hoje, aos 41 anos, Landfair é mãe de um menino de cinco anos e trabalha em uma organização de apoio a mães solo e em um programa de saúde escolar. “Ainda estou no processo de reparar minha vida”, afirma, “mas estou muito mais avançada.” Ela admite que ainda é acionada por gatilhos — inclusive ao ouvir músicas do cantor em locais públicos. “Há momentos em que sou ativada. Há uma certa melodia que me leva de volta a um lugar”, diz. “Mas eu fiz o trabalho. Agora posso ouvir a música, voltar àquela sensação negativa, mas atravessá-la em vez de sentir raiva.”
Sobre o ex-astro, reflete: “Foi poder. Tanto quanto ele tinha fetiches e desejos sexuais, era mais gratificante para ele ver que conseguia o que queria.” E conclui: “Quando penso em Robert agora, há momentos em que sinto raiva, momentos em que sinto tristeza — mas, no fim, eu só espero que ele entenda. Talvez agora ele entenda.”
Em nota enviada à revista Rolling Stone por meio de seu advogado, o cantor afirmou: “Em uma idade jovem, a Sra. Landfair foi injustamente forçada ao escrutínio público contra sua vontade por pessoas que estavam determinadas a destruir a reputação de R. Kelly. Ela não merecia isso. O Sr. Kelly não tem comentários negativos a fazer sobre ela. Ele espera que ela encontre sucesso e paz.”
Landfair, por sua vez, diz estar determinada a transformar a experiência em propósito: “Tudo o que eu vivi me moldou na mulher que sou hoje. Estou me tornando mais bonita e mais segura de mim dia após
