Prazer gelado: entenda por que balas se tornaram um truque para intensificar a sensação na hora H

 

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O "truque" do Halls preto antes do sexo oral atravessou gerações, ganhou status de dica entre amigas e virou assunto recorrente nas redes. A promessa? Um efeito gelado capaz de intensificar a sensação e turbinar o orgasmo. Mas, entre relatos empolgados e vídeos virais, especialistas alertam: a prática pode ser mais arriscada do que parece e não há comprovação científica de que funcione.

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A lógica por trás da tendência é simples. O mentol presente na bala provoca sensação térmica intensa na boca. Durante o sexo oral, essa variação de temperatura pode gerar estímulos diferentes na região genital, o que algumas pessoas interpretam como aumento de excitação. O problema é que refrescância não é sinônimo de prazer e muito menos de segurança.

A sexóloga Camila Gentile é direta: "Como especialista no assunto, alerto que essa prática deve ser abolida. Vou explicar detalhadamente: a sensação gelada e o uso de lubrificantes com estímulos térmicos, tanto quentes quanto frios, são comprovadamente eficazes para aumentar a intensidade e o prazer no momento do orgasmo. Porém, o uso de açúcares durante o sexo, como balas Halls e chantilly, por exemplo, é extremamente contraindicado e traz muitos riscos."

Segundo ela, o açúcar é um dos principais vilões. "Um dos principais riscos é o desenvolvimento de infecções fúngicas e bacterianas, já que o açúcar cria um ambiente propício à proliferação de microrganismos, como a Candida, podendo desencadear quadros vaginais ou anais dolorosos e persistentes. Além disso, essas substâncias alteram o pH da região íntima, pois não são formuladas para esse tipo de uso, o que compromete as defesas naturais do organismo", explica.

Outro ponto de atenção é o risco mecânico. "A textura do açúcar, composta por cristais, pode causar microfissuras na mucosa sensível das regiões genitais e anais, o que favorece irritações, pequenas lesões e a entrada de patógenos, além de provocar ardor e vermelhidão", acrescenta.

E o alerta se estende aos preservativos. "Isso sem falar na incompatibilidade com preservativos, já que gomas, balas ou chantilly podem danificar o látex, aumentando o risco de rompimento e, consequentemente, de gravidez indesejada e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs)", destaca.

Do ponto de vista ginecológico, a recomendação também é clara. A médica Claudia Ribeiro Talaga afirma: "Como médica, posso afirmar que o Halls preto (mentolado) não tem nenhuma evidência científica de que melhore o orgasmo feminino. O que pode acontecer é uma sensação intensa de frio ou ardor provocada pelo mentol, que estimula as terminações nervosas da pele e da mucosa. Algumas mulheres podem confundir essa resposta sensorial com aumento de excitação, mas isso não significa melhora real da resposta sexual ou do orgasmo. Não há estudos clínicos que comprovem benefício sexual, aumento do fluxo sanguíneo clitoriano ou melhora da função orgásmica."

Ela esclarece que existem relatos informais de pessoas dissolvendo a bala na boca antes do contato íntimo, mas reforça: "Isso não é recomendado do ponto de vista médico."

Os possíveis efeitos adversos incluem "ardor intenso, dor e queimação; irritação da mucosa vaginal e vulvar; dermatite de contato; alteração do pH vaginal; desequilíbrio da flora vaginal; maior risco de vaginose bacteriana e candidíase; e, em casos mais graves, microlesões da mucosa. O mentol não foi formulado para uso genital, muito menos intravaginal."

A médica enfatiza: "Não deve ser usado na penetração, nem no sexo oral. Não recomendo o uso de nenhuma das formas. No sexo oral, existe risco de irritação e queimadura química; na penetração vaginal, o risco é ainda maior, pois a mucosa vaginal é mais sensível e absorve substâncias com facilidade. Além disso, balas ou gomas nunca devem ser introduzidas na vagina."

Se a intenção é inovar com segurança, há alternativas. "Há alternativas seguras e específicas, como lubrificantes íntimos com efeito warming ou cooling, testados dermatologicamente, e estimuladores clitorianos próprios para uso íntimo. Em alguns casos, terapia sexual e avaliação hormonal também são importantes, já que desequilíbrios podem afetar a libido e a lubrificação", observa.

Mas, se a ciência coloca limites, o desejo também passa por outra dimensão. Para a psicanalista Michele Umezu, a popularidade da prática pode estar menos na bala e mais na simbologia do gesto.

"Na perspectiva da psicanálise, a sexualidade humana não se restringe ao ato físico, mas se constrói a partir de experiências simbólicas, sensoriais e afetivas. Nesse contexto, o sexo oral pode ser compreendido como uma prática que envolve comunicação inconsciente, troca de prazer e ativação de zonas erógenas profundamente ligadas à história psíquica do sujeito", diz.

Efeito refrescante: por que balas viraram aliadas para apimentar a intimidade

Divulgação

Ela lembra que, desde Freud, a boca ocupa lugar central na construção do prazer: "Freud já apontava a boca como uma das primeiras zonas de prazer do ser humano, relacionada à fase oral do desenvolvimento psicossexual. Essa fase inicial não se limita à alimentação, mas envolve sensações de acolhimento, segurança e vínculo. Na vida adulta, estímulos orais podem reativar essas memórias inconscientes, associando o prazer físico a sentimentos de entrega e intimidade."

Nesse sentido, variações térmicas e gustativas podem funcionar como gatilho erótico. "O uso de diferentes estímulos sensoriais — como variações de temperatura (frio e calor), sabores ou sensações refrescantes — pode intensificar a experiência justamente por provocar contrastes perceptivos. Do ponto de vista psicanalítico, essas variações ampliam a excitação ao deslocar a atenção do sujeito, rompendo automatismos e despertando o corpo para o ‘aqui e agora’ da experiência sensorial", esclarece.

Para ela, mais importante do que a técnica é o significado. "Para a psicanálise contemporânea, o mais relevante não é a técnica em si, mas o significado que ela assume para cada sujeito e para o vínculo estabelecido. O prazer está profundamente ligado à fantasia, ao consentimento e à sensação de se sentir desejado e reconhecido pelo outro", conclui.

No fim das contas, o Halls preto pode até gelar a boca, mas não substitui diálogo, intimidade e cuidado com o próprio corpo. Em tempos de truques virais e promessas instantâneas, talvez a pergunta mais interessante não seja se funciona, e sim por que buscamos atalhos para o prazer.