Práticas sustentáveis darão impulso ao agronegócio

 

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A demanda da China por produtos agrícolas de baixo carbono, amparada pelo 15º Plano Quinquenal (2026-2030), deve fomentar ganhos de qualidade e sustentabilidade nas cadeias produtivas do agronegócio, abrindo oportunidades para os produtores brasileiros que já estão conciliando produção e preservação. Essa foi uma dos conclusões do painel sobre o próximo ciclo de crescimento das relações entre os dois países nos segmento de agro, florestas e energia no “Summit Valor Econômico Brazil-China 2026” , promovido pelo Valor em associação com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e a Associação do Povo Chinês para a Amizade com Países Estrangeiros (CPAFFC). A mediação ficou a cargo de Zínia Baeta, editora-executiva do Valor.

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O recém-lançado 15º Plano Quinquenal da China traz várias metas relacionadas à sustentabilidade, como redução da dependência de combustíveis fósseis, fomento à inovação verde nas cadeias produtivas, além de investimentos domésticos na qualidade do ar e da água. Para Inty Mendoza, representante-chefe para a China da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Brasil se mantém como parceiro competitivo face a essas demandas, especialmente na oferta de carne bovina e grãos, mas deve estar atento ao novo cenário.

— O que se percebe em todo esse processo de transformação e planejamento da China é que a discussão sobre sustentabilidade na cadeia de suprimentos é importante, e inclui práticas como integração lavoura-pecuária-floresta, e de absorção de carbono — afirmou Mendoza.

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Isso é particularmente sensível ao segmento de carne bovina: o Brasil segue como responsável por 50% dos volumes importados pela China, com volumes crescentes desde 2003. Tian Lei, presidente da Associação de Produtores de Carne de Tianjin, admitiu a necessidade expressa no Plano Quinquenal de diversificar as fontes de fornecimento e também aumentar a produção doméstica de proteína animal.

— O Brasil tem um papel importante e nossa indústria precisa de espaço, então vamos trabalhar com traders e empresas dos dois lados para aumentar a eficiência e dar mais elasticidade para o setor — afirmou.

Expandir florestas

O plano chinês de alcançar a neutralidade de carbono até 2050 inclui objetivos ligados à transição energética, como elevar a produção de energia eólica offshore (100 GW até 2030) e também investir forte na restauração de florestas — a meta é aumentar a cobertura florestal no país para 25,8% até 2030. De acordo com Kevin Chen, reitor internacional da Academia Chinesa de Desenvolvimento Rural (Card), essa é mais uma área em que Brasil e China podem cooperar, posto que o Brasil também tem metas semelhantes no âmbito do Acordo de Paris.

— Queremos encontrar a harmonia entre proteger o meio ambiente, o comércio e manter a segurança alimentar de longo prazo, compartilhando experiências com o Brasil — disse.

A Suzano, que tem relações com a China há 40 anos, destacou os benefícios ambientais de uma inovação desenvolvida pela empresa, que é o cultivo de florestas comerciais no sistema mosaico, entremeado com reservas de mata nativa.

— A produtividade das florestas plantadas em mosaico é superior. Isso é tecnologia brasileira na agricultura e na floresta, e mostra que a combinação de respeito ao ambiente e eficiência produtiva andam lado a lado — disse Pablo Machado, vice-presidente executivo de negócios na China e de estratégia da Suzano.

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O desafio de continuar sendo um grande produtor e exportador de produtos agropecuários em um cenário de aumento da temperatura global foi lembrado por André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Segundo o pesquisador, existem regiões nas fronteiras entre os biomas Cerrado e Amazônia que já vêm registrando temperaturas entre 3°C e 4°C acima das médias históricas, e cada 1°C de aumento na temperatura leva a uma perda de produtividade de 6% na soja e 8% no milho, de acordo com estudos recentes. Ao mesmo tempo, destacou, a soja chega a ser 20% mais produtiva quando plantada a até 100 metros de um fragmento de floresta.

— A natureza tem um papel na resiliência da agricultura. A agregação de valor para o futuro está em incorporar essa variável ambiental — disse Guimarães.

Mendoza, da CNA/Senar, abordou a necessidade de trabalhar o atributo da sustentabilidade como parte do branding dos produtos brasileiros, como por exemplo, no café. A produção desses grãos tem avançado em práticas de baixo carbono, e a CNA tem trabalhado, em conjunto com a Apex-Brasil, para trabalhar a “marca Brasil” e aproximar produtores brasileiros de café premium do mercado consumidor chinês, 20% dele dedicado aos grãos gourmet.

— O consumidor na China não sabe que o Brasil também tem cafés especiais, com altas pontuações — diz Mendoza.