Na região da Praça Quinze, vice-reis e imperadores mandaram e desmandaram no Brasil. Foi ali que a família real portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro, em 1808, e que pessoas fizeram fila para beijar a mão de Dom João VI no Paço Imperial. A rainha Dona Maria I morou e morreu no Convento do Carmo. Na Igreja do Carmo, Dom Pedro II se casou. Esse pedaço do Centro também guarda histórias de violência: houve pelourinho e comércio de pessoas escravizadas. Tiradentes ficou preso onde hoje está o Palácio Tiradentes. A cabeça do líder da Revolta da Cachaça foi exposta na praça como um aviso a quem ousasse desafiar a Coroa. O general Osório foi enterrado no monumento que ainda está no local — os restos mortais já foram removidos. Dom Pedro II quase perdeu a vida nessa região. E, entre tantos acontecimentos, há até a lenda de uma mulher que raptava crianças para conquistar a juventude eterna. Discordância de Martinho, nomes da MPB em lados opostos, debandada de compositores: Entenda a polêmica da escolha de samba na Vila Isabel Após vídeo viral: Idosa resgatada na Linha Vermelha deixa casa onde viveu por décadas na Maré, diz vizinho Por uns chamada de bruxa, por outros de vampira, Bárbara dos Prazeres entrou no imaginário popular por sequestrar crianças, em especial na roda dos expostos, para tomar o sangue. Acreditava que dessa maneira iria remoçar. Vinda de Portugal e com uma trajetória marcada por mortes e traições conjugais, Bárbara teria encontrado na venda do próprio corpo uma saída para arcar com as contas mensais. Com o tempo e a idade, a clientela foi diminuindo, em busca de mulheres mais jovens. A partir daí ela buscaria essa alternativa radical. O professor Brasil Gerson atravessa em sua extensa obra a vida de Bárbara, mas não há documentos que confirmem a existência dela. De qualquer maneira, pais e mães utilizaram a memória da mulher que teria vivido no Arco do Teles como um jeito de assustar crianças. Há relatos de familiares que não permitiam que seus filhos brincassem sozinhos no Centro, com medo de um possível rapto. Falando nele, o Arco do Teles é uma pérola que nos leva ao século XVIII, a um incêndio destruidor e a uma das famílias mais poderosas da nossa história. No século XVIII, essa região era endereço de gente rica. O nome veio da família Telles de Menezes, proprietária de casas construídas para aproveitar a valorização desse canto da cidade. Nos sobrados funcionou o Senado da Câmara, antecessor da atual Câmara de Vereadores. Em 1790, o fogo mudou a história do lugar. Um incêndio destruiu parte do conjunto e consumiu documentos fundamentais para conhecermos melhor o passado do Rio. Há quem aponte que tenha sido criminoso. Acompanho a Praça Quinze há, no mínimo, dezoito anos. Estudando e trabalhando. Houve períodos longos em que estava ali todos os dias da semana. Lancei meu primeiro livro na calçada da Folha Seca, do mestre Rodrigão. Na pandemia, vi de perto o desespero dos lojistas. Já presenciei o abandono, o florescer da intrépida feira, e, mais recentemente, os investimentos públicos massivos no avanço de uma parte do Centro. Pelas ruelas da região surgem ateliês, novos restaurantes, revitalização de templos religiosos e, claro, mais interesse turístico. Três jovens artistas acabaram de abrir a Galeria Arco, no segundo andar do número 34, em cima da tradicional charutaria Africana. “Você já foi lá?”, me perguntou Isaac Almeida, não antes de tentar me convencer a fumar um baiano que tinha chegado há pouco. Um café, uma água com gás, meia dúzia de prosa e fui ver o que Francisco “Chiko” Guimarães, Guilherme “Bill” Ferreira e Luis Bellas, com a curadoria do Peralta, estavam expondo.Logo de cara, chama atenção a galeria ser um anexo do ateliê – ou vice-versa. Dessa maneira, é possível ver os contornos que faltam, as obras que podem entrar em catálogo e até mesmo o processo de criação. Inquietos, os rapazes estão promovendo oficinas a preços módicos, transformando aquele espaço em um saber coletivo. “Tem gente interessada de toda a cidade. Impressionante”, me disseram. Sem as afetações tão características da turma dessa área, os três esbanjam maturidade, acesso e vontade de trocar ideias. Apesar de bem nascidos, Luís, Chiko e Bill estão experimentando atravessar os apertos (não iguais à maioria dos mortais, ok?) de montar um negócio como esse. Os três dormem ali mesmo, sem luxos, em sofás tão pequenos e desconfortáveis que até meu bico de papagaio gritou três vezes. Não há funcionários. Quando alguém derruba uma bebida, pega-se o pano e faz-se o que qualquer ser humano com dívida no Serasa faria. Conhecer os três e ainda ter a chance de conversar com Peralta é uma atração e tanto. Da janela do ateliê, vê-se a esplendorosa Praça Quinze. Foi daí que surgiu a inspiração para essa coluna.
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Praça Quinze: um ateliê no quintal dos imperadores
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O Globo
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