Poucas e pequenas: ‘portas para cães’ no muro dos EUA com o México são criticadas por não atenderem animais de grande porte; vídeo
O governo dos Estados Unidos autorizou a instalação de cerca de 50 pequenas aberturas ao longo do muro que separa o país do México, nos estados do Arizona e da Califórnia, com o objetivo de permitir a migração de animais silvestres. As estruturas, apelidadas por críticos de “portas para cães”, terão aproximadamente 20,32 cm por 27,94 cm e serão incluídas em trechos já existentes e em construção da cerca fronteiriça.
A iniciativa, porém, foi recebida com forte ceticismo por ambientalistas e especialistas em vida selvagem. Para eles, as aberturas são pequenas demais para espécies maiores, como ovelhas selvagens, veados, onças e ursos, além de raras ao longo de uma fronteira de mais de 3.100 quilômetros. “Isso só pode ser uma piada obscena”, afirmou Laiken Jordahl, defensora do Centro para a Diversidade Biológica, em declaração ao New York Post.
Impacto ambiental e controvérsias
Ativistas alertam que o muro compromete a biodiversidade ao bloquear o acesso de animais a água, alimento e parceiros reprodutivos, afetando ecossistemas inteiros. Pesquisadores da Wildlands Network, Christina Aiello e Myles Traphagen, inspecionaram recentemente áreas de San Diego e da Baja California onde novos trechos da cerca estão previstos e reforçaram as preocupações. Segundo Traphagen, as aberturas têm “o tamanho da portinha do seu cachorro” e, embora possam ajudar pequenos animais, não resolvem a fragmentação causada pela barreira.
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Também surgiram temores de que as brechas pudessem ser exploradas por migrantes para cruzar ilegalmente a fronteira. Traphagen, no entanto, disse à KTSM El Paso News que não há registros desse tipo de uso. “Às vezes as pessoas olham com curiosidade, mas é óbvio que ninguém vai conseguir passar por ali”, afirmou.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) defendeu a política de construção do muro. Em comunicado divulgado em dezembro, o órgão destacou que houve um número “recorde de baixa” de encontros na fronteira sudoeste, com 60.940 abordagens registradas em outubro e novembro, média de cerca de 245 por dia. O DHS também informou que a secretária Kristi Noem assinou uma nova isenção autorizando a construção rápida de aproximadamente oito quilômetros de muro com nove metros de altura, dispensando exigências legais, inclusive ambientais, para acelerar as obras.
Atualmente, cerca de 1.127 quilômetros da fronteira já contam com cercas instaladas, segundo a CNN, enquanto o restante segue em construção. Para especialistas, a expansão pode ter efeitos irreversíveis. “Se o muro for totalmente estendido, 95% da Califórnia e do México ficarão isolados, afetando a história evolutiva de todo o continente”, alertou Traphagen. Ainda assim, a Alfândega e Proteção de Fronteiras afirma que trabalha com o Serviço Nacional de Parques e outras agências para mapear rotas migratórias e definir medidas de mitigação, como as pequenas passagens agora anunciadas.
