É possível usar esgoto para resfriar data centers de IA? - QTU Questões do Universo

É possível usar esgoto para resfriar data centers de IA?

Fonte: Bandeira da fonte

A expansão acelerada dos data centers voltados à inteligência artificial tem elevado o consumo de água e já preocupa concessionárias, reguladores e moradores dos Estados Unidos.
Para resfriar servidores que operam ininterruptamente, essas instalações usam volumes de água comparáveis aos de cidades inteiras, o que tem levado o setor a acelerar a adoção de água de reúso, aquela que passa por tratamento de esgoto até se tornar segura para uso industrial, como alternativa à água potável.
O tema ganhou as manchetes americanas nesta semana porque a marca de bebidas Liquid Death lançou uma campanha publicitária, estrelada pelo ex-jogador de futebol americano Jason Kelce, sugerindo que o público doasse urina para resfriar data centers.
A peça é uma brincadeira, mas, segundo reportagem do site TechCrunch, ela esbarrou, sem querer, em uma prática real do setor: tratar esgoto (que contém, entre outros materiais, urina humana) até torná-lo próprio para resfriamento industrial.
Do esgoto à água de resfriamento
A água de reúso está longe de ser urina bruta despejada em um sistema de refrigeração.
Ela passa por estações de tratamento que combinam biorreatores de membrana, osmose reversa e luz ultravioleta até atingir um padrão de pureza compatível com uso industrial, podendo em alguns casos chegar a ser potável.
Bruno Pigott, diretor-executivo da WateReuse Association e ex-integrante da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), explicou à TechCrunch que a urina não é aproveitada diretamente: o material passa por um processo de limpeza até se transformar em água segura para uso industrial.
A prática não é nova.
Segundo Greta Zornes, que lidera a área de reúso de água na consultoria de engenharia CDM Smith, o setor de data centers já recorre a esse tipo de solução há décadas, mas a demanda disparou com o avanço da inteligência artificial, a ponto de ocupar boa parte de sua rotina profissional hoje.
O obstáculo, segundo ela, é a infraestrutura: a viabilidade depende de haver uma estação de tratamento de esgoto próxima e com capacidade suficiente, o que costuma faltar justamente nas áreas rurais para onde o setor tem se expandido.
Nenhum lugar ilustra melhor esse cenário que o condado de Loudoun, na Virgínia, que concentra mais de 250 data centers e planeja receber ao menos mais duas dezenas nos próximos anos.
De acordo com a Loudoun Water, concessionária local, o volume de água reciclada usado diariamente pelo setor na região ainda responde por menos da metade do consumo hídrico total dos data centers do condado, com a maior parte suprida por água potável captada dos mesmos mananciais que abastecem a população.
Diante da pressão, grandes empresas de tecnologia têm direcionado capital para ampliar a infraestrutura de tratamento local.
A Meta, dona do Facebook e do Instagram, anunciou em dezembro de 2025 mais de US$ 270 milhões somados em dois projetos de infraestrutura hídrica doados a comunidades onde opera data centers, um no Idaho e outro na Luisiana, além da meta de se tornar "positiva em água" até 2030, ou seja, devolver aos mananciais locais mais água do que consome.
Michael Obradovitch, vice-presidente de contas globais de data centers da Ecolab, disse à TechCrunch que os próprios data centers podem se tornar financiadores relevantes da infraestrutura hídrica das comunidades onde se instalam, citando casos em que operadoras arcam diretamente com obras de saneamento municipal.
No Congresso americano, Pigott defende uma legislação que ofereça crédito tributário às empresas que investirem na ampliação de sistemas de reúso de água, medida que, segundo ele, poderia acelerar a adesão do setor a essa alternativa.
A rejeição da opinião pública a novos data centers ajuda a explicar por que o tema chegou até uma campanha publicitária de humor.
Uma pesquisa do instituto Gallup, realizada em março deste ano com mil adultos e divulgada em maio, mostrou que 71% dos americanos se opõem à construção de data centers de IA perto de onde moram.
Foi a primeira vez que o instituto mediu especificamente a rejeição a esse tipo de empreendimento, e o resultado superou a oposição a fontes de energia historicamente controversas, como usinas nucleares.
Para Pigott, mesmo o episódio bem-humorado do Liquid Death cumpre uma função.
"Fico feliz que as pessoas estejam preocupadas com a água", disse ele, acrescentando que qualquer iniciativa capaz de aumentar essa atenção pública ajuda a educar a população sobre o que já é feito hoje pelo setor.