Pós-transplante: entenda como inglesa deu à luz bebê gerado em útero de mulher falecida
O Reino Unido registrou um marco inédito na medicina reprodutiva: o nascimento do primeiro bebê no país após um transplante de útero proveniente de uma doadora falecida. O menino, Hugo, nasceu pouco antes do Natal de 2025, com cerca de 3,2 kg, consolidando um avanço científico descrito por especialistas como “um momento revolucionário”.
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Hugo é filho de Grace Bell, uma mulher na faixa dos 30 anos que nasceu com problemas no útero. Apesar de possuir ovários normais, ela não menstruava em razão da síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (MRKH), condição que afeta uma em cada 5 mil mulheres no Reino Unido.
Como aconteceu?
Aos 16 anos, Grace foi informada de que não poderia gestar um filho. Diante do diagnóstico, as alternativas para ela e seu parceiro, Steve Powell, eram aguardar por um transplante de útero ou recorrer a uma barriga solidária.
A reviravolta veio quando Grace recebeu a notícia de que havia um útero disponível, proveniente de uma doadora falecida. Ao atender à ligação, disse ter ficado “completamente em choque” e “muito animada”. Ao mesmo tempo, relatou plena consciência do significado do “presente incrível” que estava recebendo da família da doadora, pois a possibilidade lhe permitiria carregar e dar à luz o próprio filho.
A gratidão à doadora e à família é recorrente em seus relatos à rede BBC.
— Penso na minha doadora e na família dela todos os dias e rezo para que encontrem algum conforto em saber que a filha deles me deu o maior presente: o presente da vida. Uma parte dela viverá para sempre.
O transplante foi realizado em junho de 2024, no Hospital Churchill, em Oxford, em uma cirurgia de 10 horas. Meses depois, o casal passou por fertilização in vitro (FIV) na clínica Lister Fertility Clinic, em Londres, seguida da transferência do embrião. O parto ocorreu no hospital Queen Charlotte’s and Chelsea, no oeste da capital britânica.
'Milagre'
Ao recordar o nascimento do filho, Grace declarou: “Foi simplesmente um milagre”.
— Lembro-me de acordar de manhã e ver o rostinho dele, com a chupetinha na boca, e parecia que eu precisava acordar de um sonho. Foi simplesmente incrível — contou à BBC.
Segundo os cirurgiões envolvidos, o caso representa esperança concreta para mulheres com diagnóstico semelhante. A cirurgiã Isabel Quiroga disse estar “encantada” com o nascimento.
— Pouquíssimos bebês nasceram na Europa como resultado de suas mães terem recebido um útero de uma doadora falecida. Nosso estudo busca descobrir se esse procedimento pode se tornar um tratamento aprovado e regular para parte do número crescente de mulheres em idade fértil que não possuem um útero viável — explica.
O transplante integra um estudo clínico no Reino Unido que prevê a realização de dez procedimentos desse tipo. Até o momento, três já foram feitos, mas este foi o primeiro a resultar em nascimento. Paralelamente, no início de 2025, nasceu a bebê Amy após um transplante de útero de doadora viva — no caso, a irmã mais velha da mãe, que já tinha dois filhos.
O ginecologista e professor Richard Smith, que pesquisa transplante de útero há mais de 25 anos, ressaltou que “uma grande equipe de pessoas” esteve envolvida em todas as etapas, da cirurgia ao parto. Em reconhecimento, Grace e Steve deram ao filho o nome do meio Richard — Hugo Richard.
Mulher pode ter mais um filho
O casal poderá optar por ter um segundo filho. Após isso, os médicos planejam remover o útero transplantado para evitar que Grace precise tomar medicamentos imunossupressores por toda a vida.
Especialistas esclarecem que um bebê nascido após transplante de útero de doadora falecida não possui nenhum vínculo genético com a doadora, já que o material genético provém exclusivamente dos pais, por meio da FIV.
Mais de 100 transplantes de útero já foram realizados no mundo, resultando em mais de 70 bebês saudáveis. A doação de útero, porém, difere da de órgãos como rins ou coração: ela ocorre apenas mediante pedido específico às famílias de potenciais doadores que já consentiram com a doação de órgãos.
No Reino Unido, vigora o sistema de consentimento presumido — salvo manifestação contrária em vida, considera-se que a pessoa concorda com a doação de órgãos após a morte.
Os pais da doadora declararam sentir “imenso orgulho” pelo legado deixado pela filha, que também doou outros cinco órgãos, transplantados em quatro pessoas. “Por meio da doação de órgãos, ela deu a outras famílias o precioso presente do tempo, da esperança, da cura e agora da vida”, afirmou a família.
