Portela tem desfile marcado por comissão de frente com voo e problemas na dispersão
A Portela, terceira escola a desfilar no primeiro dia do Grupo Especial, levou para a Avenida o enredo “O mistério do príncipe do Bará, a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, um recorte conduzido por uma fábula do Batuque, religião afro-brasileira de culto aos orixás, popular na região Sul do país. A escola animou a arquibancada ao colocar um homem voando na comissão de frente com a ajuda de um drone. No fim da passagem pela Avenida, porém, enfrentou problemas que tornaram a dispersão caótica. Um dos carros alegóricos foi posicionado ao lado da saída dos componentes, o que apertou o fluxo da escola. Houve muita correria durante a manobra dos carros, com receio de acidente.
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A fábula que inspirou o enredo traz dois personagens principais, o Negrinho do Pastoreio e o Bará (Exú), principal orixá do culto do Batuque. Segundo o carnavalesco André Rodrigues, esses personagens contarão um para o outro partes da negritude, a identidade negra, normalmente pouco identificada com o Sul do Brasil.
Problema com carro
O último carro alegórico da Portela teve problemas para entrar na Avenida. Em razão da demora, o desfile ficou parado para aguardar a chegada do veículo. Integrantes da escola acompanhavam a situação, aflitos, na dispersão. Eles observavam, tensos, o problema do carro pelo celular. Toda a situação causou correria no fim do desfile, que precisou terminar às pressas.
Sangue real na Avenida: família de Príncipe Custódio conduz a “Macumba” da Portela
A segunda alegoria da Portela, "Macumba de Custódio", entrou na Sapucaí com o "sangue real" homenageado pelo enredo. Serafina de Souza Almeida, neta de Príncipe Custódio e Caio Julian, bisneto, vieram na frente do carro.
Junto deles, representantes do Batuque que fizeram parte dos relatos coletados na pesquisa deste enredo. Acima deles, na janela central, Jeronymo Patrocinio, o príncipe portelense, representando a aparição do próprio Custódio. Durante o ano, Jeronymo encarnou a figura do Príncipe, juntando Portela e Rio Grande do Sul. O carro conta a notabilidade de Custódio em Porto Alegre e região, que se alastrou como o grande referencial de misticismo.
Curandeiro e feiticeiro, ele era procurado por todos para orientação espiritual. Entre aqueles que o procuravam pelos seus dons, até figuras ilustres, como políticos do estado. Assim o carro apresenta no seu centro uma referência do, então, recém-construído Palácio Piratini, sede do governo.
Segundo contos gaúchos, o Príncipe foi visto entrar nas madrugadas pelas portas dos fundos e (como relatam) fazia trabalhos espirituais para os chefes do estado. Borges de Medeiros e Júlio Prates de Castilhos passaram por suas sessões de “feitiçaria”.
Também diz a lenda que no Palácio há um Bará (Exú) assentado. Extrapolando os limites arquitetônicos e alcançando o delírio carnavalesco, a alegoria representa uma visão fantástica de Custódio surgindo em meio ao palácio, e sua macumba muito maior que o prédio. Velas e alguidares se espalham criando o clima de Feitiçaria dentro do Palácio do Governo, que em suas janelas sugere políticos se ocupando de entidades. O Pai de Santo da Burguesia, a nata do altar de Custódio.
Em suas mãos, alguidares e folhas, purificação e assentamento de energia. Em meio aos pratos de macumba, destaques representam as Energias Assentadas. Em cima, dentro da coroa do Príncipe, o destaque representa a Memória de Feitiçaria. Nos Alguidares em meios as velas as composições vestidas de “Visões Feiticeiras”.
Ficha técnica
Presidente: Junior Escafura
Carnavalesco: André Rodrigues
Intérprete: Zé Paulo Sierra
Mestre-sala e porta-bandeira: Marlon Lamar e Squel Jorgea
Mestre de bateria: Vitinho
Rainha de bateria: Bianca Monteiro
Letra do samba enredo da Portela em 2026
"O mistério do Príncipe do Bará - a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande"
É Bará, É Bará, ôô!
Quem rege a sua coroa, Bará?
É o rei de Sapaktá
Aláfia do destino no Ifá!
Tem mistério que incandeia
Pro batuque começar
Sou mistério que incandeia
Pra Portela incorporar
Vai, Negrinho vai fazer libertação
Resgatar a tradição
Onde a África assenta
Ô, corre gira, vem revelar
O reino de Ajudá
O pampa é terra negra em sua essência
Alupo, meu Senhor, Alupô!
Vai ter xirê no toque do tambor
Alumia o Cruzeiro chave de encruzilhada
É macumba de Custódio no romper da madrugada
Curandeiro, feiticeiro
Batuqueiro precursor
Pôs a nata no gongá (ô, iaiá!)
Fundamento em seu terreiro
Resiste a fé no orixá
Da crença no mercado
Ao rito do Rosário
Ainda segue vivo o seu legado
Portela tu és o próprio trono de Zumbi
Do samba, a majestade em cada ori
Yalorixá de todo axé
Enquanto houver um pastoreio
A chama não apagará
Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar
Ae Oni Bará! Ae Babá Lodê!
A Portela reunida carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande
Tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de Bará!
Composição: Valtinho Botafogo / Raphael Gravino / Gabriel Simões / Braga / Cacau Oliveira / Miguel Cunha / Dona Madalena.
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