Portela e Mangueira exaltam heróis negros do Sul e do Norte em noite de ancestralidade na Sapucaí
As duas maiores campeãs do carnaval carioca, Portela e Estação Primeira de Mangueira, protagonizaram a primeira noite do Grupo Especial, neste domingo, na Marquês de Sapucaí. Ambas apostaram em homenagens a personagens negros que marcaram o país do Sul ao Norte. Mas, enquanto a Portela teve uma chegada tensa na Apoteose , a Mangueira concluiu seu trajeto sem contratempos.
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Terceira escola a desfilar, a Portela apresentou o enredo “O mistério do príncipe do Bará – a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, inspirado em uma fábula do Batuque, religião afro-brasileira de culto aos orixás popular no Sul do Brasil. Com cerca de 3.800 componentes, a escola de Madureira investiu na grandiosidade estética e em soluções cênicas ousadas para buscar o 23º título.
A comissão de frente, coreografada por Cláudia Mota e Edifranc Alves, mergulhou no universo do Batuque em uma proposta de ambientação 3D. Os 29 bailarinos se revezavam em cena, respeitando o limite de 15 integrantes aparentes, interagindo com um grande elemento cênico branco que criava a sensação de imersão. Um homem voador que acompanhou a comissão também chamou atenção do público.
— Estamos trazendo o Batuque através de um ambiente 3D, para que todo mundo possa se sentir dentro da comissão de frente — explicou Cláudia.
Imagem da Comissão de frente da Portela
Marco Terranova | Riotur
O abre-alas, “Vai fazer a libertação”, causou forte impacto no setor 1. Sob o pedido de Bará, o Negrinho se multiplicava em cena, simbolizando a libertação da africanidade. A ancestralidade surgia na figura de pretos velhos, enquanto, no alto, a Águia Altaneira — completamente branca — se movimentava, emitia som e brilhava com luzes de LED. O público reagiu com gritos de exaltação.
— Faz muitos anos que não vejo minha escola tão linda. Hoje posso berrar que é muito bom ser Portela — disse a componente Glaucia Oliveira.
Imagem do abre-alas da Portela no carnaval 2026
Guito Moreto / Agência Globo
Na segunda alegoria, “Macumba de Custódio”, a escola levou à Sapucaí o chamado “sangue real” do enredo. À frente do carro estavam Serafina de Souza Almeida, neta de Príncipe Custódio, e Caio Julian, bisneto, acompanhados de representantes do Batuque que contribuíram com relatos para a pesquisa. Na janela central, Jeronymo Patrocínio representava o próprio Custódio, personagem que encarnou ao longo do ano carnavalesco.
A alegoria recriava, de forma fantástica, o Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, ressaltando a influência mística atribuída ao príncipe em Porto Alegre. Segundo contos populares, ele teria realizado trabalhos espirituais para figuras como Borges de Medeiros e Júlio Prates de Castilhos, ex-governadores do estado. Velas, alguidares, folhas e “visões feiticeiras” compunham o cenário, enquanto, no alto da coroa, a memória da feitiçaria era simbolizada em destaque.
Imagem do carro que trazia a família do Príncipe Custódio
Alexandre Macieira | Riotur
Homem voador, problemas na dispersão e filas na Sapucaí: os altos e baixos do primeiro dia do Grupo Especial do Rio
Problemas na pista
A apresentação, no entanto, perdeu ritmo do meio para o fim. Ao longo de toda pista foi possível ver pedaços de fantasias deixados para trás por componentes da escola. A agremiação também apresentou problemas na evolução, por conta da dificuldade de retirar um carro da dispersão. A situação foi agravada por um problema no último carro.
A alegoria “Sob o Céu do Rio Grande: o Príncipe Herdeiro” enfrentou dificuldades antes mesmo de entrar no setor 1. Falhas nas rodas comprometeram a condução do carro, que levava a velha guarda da escola. O problema prejudicou a evolução e pode pesar na avaliação dos jurados. Na dispersão, um dos carros foi posicionado junto à saída dos componentes, provocando empurra-empurra e tensão durante a manobra.
Alegoria com dificuldades de locomoção
Marcelo Theobald / Agência O Globo
Mestre Sacaca em verde e rosa
Se a Portela reverenciou a ancestralidade no Sul, a Mangueira atravessou o país para homenagear uma figura da região Norte. Última escola a desfilar a verde e rosa levou para a Avenida a história de Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca (1926-1999), sábio das ervas, xamã e babalaô do Amapá. O carnavalesco Sidnei França definiu o desfile como “sensorial”.
O abre-alas trouxe sons de pássaros, enquanto a última alegoria reproduziu ruídos de onças, macacos e aves. Aromas também fizeram parte da experiência: patchuli no primeiro carro, alfazema no segundo, alecrim no terceiro e terra molhada no quinto.
Abre-alas da Mangueira
Marco Terranova | Riotur
A ideia era que o ambiente fosse imersivo e o público conseguisse alcançar e entender o que a escola estava querendo.
— Cheirando, ouvindo e vendo, como um cinema 3D — explicou o carnavalesco, que desenvolveu o projeto a partir de vivências no Amapá.
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A comissão de frente apresentou onças articuladas feitas de isopor com fibra, produzidas por artistas de Parintins. Segundo o coreógrafo Lucas Maciel, os ensaios com os animais começaram ainda em julho.
— Há uma lenda de que Mestre Sacaca já encantou uma onça. Então quisemos trazer isso representado — contou.
Comissão de Frente da Mangueira
Marcelo Theobald / Agência O Globo
O terceiro carro destacou as famosas garrafadas medicinais atribuídas a Sacaca, representadas em esculturas que remetiam a diferentes tratamentos populares. Mais de 50 integrantes da família do homenageado viajaram ao Rio; parte deles desfilou no último carro, ao redor de uma escultura do mestre cercada por folhas.
Emocionada, a viúva Madalena resumiu o sentimento antes de entrar na Avenida:
— Para ficar mais perfeito só se ele estivesse aqui.
O filho Armistrong Sacaca e o neto Fabio Sacaca ressaltaram o orgulho de ver a história do patriarca ecoar no maior espetáculo da Terra.
Terceira alegoria da Mangueira no carnaval 2026
Guit Moreto / Agência O Globo
Ao amanhecer, repetindo cenas de carnavais antigos, a Mangueira ainda arrastou o público para além das arquibancadas, em um grande cortejo. Na dispersão da escola, o clima era de festa. Assim, da africanidade do Sul ao encanto tucuju do extremo Norte, Portela e Mangueira transformaram a Sapucaí em um território de memória, ancestralidade e celebração da cultura negra brasileira.
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