Portela aposta na ousadia e enfrenta problema no último carro na abertura do Grupo Especial

 

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Terceira escola a desfilar na Marquês de Sapucaí no primeiro dia do Grupo Especial, a Portela apresentou o enredo “O mistério do príncipe do Bará — a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, inspirado em uma fábula do Batuque, religião afro-brasileira de culto aos orixás populares na região Sul do país. Com cerca de 3.800 componentes, a azul e branco de Madureira apostou na grandiosidade das alegorias e em soluções cênicas ousadas para buscar o 23º título. O desfile foi aberto com o imponente abre-alas “Vai fazer a libertação”, que introduziu a narrativa e apresentou a tradicional Águia Altaneira. À frente do carro, sob o pedido de Bará, o Negrinho se multiplicava em busca da libertação da africanidade.

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A ancestralidade se materializava na figura de pretos velhos, enquanto, no alto, a Águia completamente branca se movimentava, emitia som e brilhava com luzes de LED. No setor 1, o impacto foi imediato, com gritos como “Eu vou desmaiar” e “Essa é a minha Portela” ecoando entre os foliões.

— Passamos por um ano de muitas mudanças e obstáculos, mas chegamos bem para o desfile de hoje. Somos uma Portela mais ousada esse ano, com carros de grandes dimensões e muito movimento. Estamos felizes com o resultado e esperamos conquistar mais um título — afirmou o presidente Júnior Scafura.

A comissão de frente também foi um dos pontos altos da apresentação. Coreografado por Cláudia Mota e Edifranc Alves, o segmento mergulhou no universo do Batuque com uma proposta em ambiente 3D. Os 29 bailarinos — que se revesavam em cena, para não passar dos 15 membros aparentes permitidos — ocuparam a pista com um grande elemento cênico branco que criava uma imersão “como se fosse um livro”.

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Noite de estreia

Em sua estreia como mestre de bateria da Tabajara do Samba, Mestre Vitinho levou 320 ritmistas para a Avenida, sustentando o samba em uma apresentação segura. A segunda alegoria, “Macumba de Custódio”, levou para a Sapucaí o chamado “sangue real” do enredo. À frente do carro vieram Serafina de Souza Almeida, neta de Príncipe Custódio, e Marcus Vinícius, bisneto — primeiro desfile da dupla. Na janela central, Jeronymo Patrocinio representava o próprio Custódio. O carro exaltava a notabilidade do personagem em Porto Alegre e região, onde se tornou referência mística.

A alegoria recriava uma versão fantástica do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, sugerindo a influência espiritual atribuída ao Príncipe. Segundo relatos populares, ele teria atendido figuras como Borges de Medeiros e Júlio Prates de Castilhos — ex-governadores — em sessões espirituais. No topo, a coroa simbolizava a memória da feitiçaria, enquanto velas, alguidares e “visões feiticeiras” reforçavam o clima místico da cena.

Apesar do impacto visual e da proposta ousada, o desfecho do desfile foi marcado por um problema significativo.

Problema com carro

A última alegoria, “Sob o Céu do Rio Grande: o Príncipe Herdeiro”, enfrentou dificuldades para se posicionar ainda no setor 1, comprometendo a evolução da escola. O carro, que levava a velha-guarda da Portela, a Águia Altaneira e o pequeno Príncipe Custódio, apresentou falhas nas rodas.

De acordo com membros da equipe de força, elas não respondiam corretamente aos comandos, dificultando a condução e o deslocamento da alegoria. O contratempo afetou o ritmo da apresentação e pode pesar na avaliação dos jurados em quesitos como evolução e harmonia, em um desfile que até então se destacava pela imponência estética e pela força simbólica de sua narrativa.

Ficha técnica

Presidente: Junior Escafura

Carnavalesco: André Rodrigues

Intérprete: Zé Paulo Sierra

Mestre-sala e porta-bandeira: Marlon Lamar e Squel Jorgea

Mestre de bateria: Vitinho

Rainha de bateria: Bianca Monteiro

Letra do samba enredo da Portela em 2026

"O mistério do Príncipe do Bará - a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande"

É Bará, É Bará, ôô!

Quem rege a sua coroa, Bará?

É o rei de Sapaktá

Aláfia do destino no Ifá!

Tem mistério que incandeia

Pro batuque começar

Sou mistério que incandeia

Pra Portela incorporar

Vai, Negrinho vai fazer libertação

Resgatar a tradição

Onde a África assenta

Ô, corre gira, vem revelar

O reino de Ajudá

O pampa é terra negra em sua essência

Alupo, meu Senhor, Alupô!

Vai ter xirê no toque do tambor

Alumia o Cruzeiro chave de encruzilhada

É macumba de Custódio no romper da madrugada

Curandeiro, feiticeiro

Batuqueiro precursor

Pôs a nata no gongá (ô, iaiá!)

Fundamento em seu terreiro

Resiste a fé no orixá

Da crença no mercado

Ao rito do Rosário

Ainda segue vivo o seu legado

Portela tu és o próprio trono de Zumbi

Do samba, a majestade em cada ori

Yalorixá de todo axé

Enquanto houver um pastoreio

A chama não apagará

Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar

Ae Oni Bará! Ae Babá Lodê!

A Portela reunida carregada no dendê

Sob o céu do Rio Grande

Tem reza pra abençoar

O príncipe herdeiro da coroa de Bará!

Composição: Valtinho Botafogo / Raphael Gravino / Gabriel Simões / Braga / Cacau Oliveira / Miguel Cunha / Dona Madalena.

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